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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Tarujo e a Rabicha

MARINA TAVARES DIAS
em 
LISBOA DESAPARECIDA III:


«As obras do Aqueduto das Águas Livres iniciaram-se a 16 de Agosto de 1732. Decorreram em bom ritmo, estando completamente terminadas em pouco mais de 15 anos. A quem este período possa parecer longo, recorde-se que o aqueduto parte do Olival do Santíssimo, em Caneças, percorrendo 18 quilómetros e 838 metros até às Amoreiras. Só a galeria subterânea mede 4 650 metros, assentes em 109 arcos de pedra. A caldeira tem 137 ventiladores. Quando inrompe do solo, no vale de Alcântara, a galeria prolonga-se sobre 36 arcos monumentais que atingem, em altura, 231 palmos. O maior destes arcos abria-se sobre a Ribeira da Alcântara, na zona em que esta era conhecida por Ribeira da Rabicha.
Para qualquer lisboeta de há cem anos, a Rabicha era Campolide. Os terrenos a norte do aqueduto adquiriram, na generalidade, a designação da principal quinta da zona. E Rabicha ficou sendo, também, o nome da pequena ponte de dois arcos que aparece em todos os mapas, a partir de 1807; e o nome do caneiro que sob ela corria. [...]»
CONTINUA NO LIVRO








terça-feira, 29 de julho de 2014

OS SALOIOS

MARINA TAVARES DIAS 
em
LISBOA DESAPARECIDA
volume III

[...] "Acaba Lisboa, começa o reino dos saloios" - tal era, no século XIX, o denominador comum a todos os arredores. Assim mesmo: "reino de saloios". Traçando uma linha no sentido norte-sul, podemos dizer que este reino começava na Calçada de Carriche e ia dar a Mafra. E, até tempos relativamente recentes, o termo de Lisboa deixava de fora, por igual, alguns encantadores arredores que se transformariam em bairros-dormitório, tentando, sucessivamente, a sua entrada por Lisboa dentro: Benfica, Telheiras, Charneca, Ameixoeira, Portela de Sacavém... Ficaram de outro tempo, do "reino dos saloios", os topónimos inspirados desses e de outros lugares: Linda-a-Velha, Queijas, Linda-a-Pastora, Belas, Apelação...



A primeira população árabe instalada nos arredores de Lisboa beneficiara da tolerância do conquistador cristão. Depois, estendeu-se para norte, nascente e poente, pagando sempre o seu çalayo pelo pão cozido. Era a contribuição enviada para a capital, agora ocupada pelos que os tinham humilhado, poupando-lhes, ainda assim, a vida. O estipulado çalayo acabou por degenerar em "çaloio" como designação étnica, e outros povoadores trouxeram depois aos habitantes dos termos de Lisboa a famosa "tez trigueira" que as estampas conferem. [... / ...]

(Continua no livro.
Para referência das imagens,
utilizar o índice remissivo. 
Aguarela de Manoel de Macedo; 
desenho de Roque Gameiro;
fotografia de Joshua Benoliel)








terça-feira, 22 de julho de 2014

Estrada de Palhavã

MARINA TAVARES DIAS EM PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA




Estrada de Palhavã que, 
após sair deste bairro se chamaria Estrada de Benfica
 e, após as Portas de Benfica,
 se chamaria Estrada de Sintra. 
(postal do 
Arquivo Marina Tavares Dias)


Estrada de Palhavã (actual Rua Nicolau Bettencourt). Bilhete postal ilustrado de Paulo Guedes, c. 1904. Circulado em 1906. Neste tempo, antes de se mudar para a Quinta das Laranjeiras, estava aqui o Jardim Zoológico de Lisboa. Hoje, os mesmos terrenos albergam a Fundação Calouste Gulbenkian, depois de terem sido a primeira Feira Popular de Lisboa.


 Feira Popular em 1943, 
no mesmo local onde estaria até 1956. 
Entrada pelo lado da Avenida Duque de Ávila, 
antiga circunvalação de Lisboa
(fotgrafia ACML)

domingo, 20 de julho de 2014

PARA UMA HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA EM PORTUGAL

MARINA TAVARES DIAS
em LISBOA DESAPARECIDA
volume VII, capítulo sobre
RETRATISTAS DO SÉCULO XIX

«A história dos estúdios fotográficos lisboetas está por fazer. Apesar de lhes devermos as imagens que, durante século e meio, adornaram paredes e atenuaram distâncias, ninguém se lembrou de registar a maior parte desses nomes e dessas moradas. Actualmente, após o desaparecimento de todos os ateliers de retrato que marcaram uma era na cidade, torna-se difícil recuperar a obra e a memória de quem fixou para o futuro o rosto e a pose dos lisboetas de antanho. Resta uma parcela ínfima de cada obra, hoje dispersa por arquivos, alfarrabistas, museus e álbuns de família.

As casas fecharam, os prédios foram remodelados ou demolidos, os espólios foram desbaratados. Fotografias identificadas pelo cartão em que foram montadas transmitem-nos, a esta distância temporal, no olhar vago dos retratados, costumes e enredos por adivinhar. As cartes de visite e os cabinets oitocentistas, tão fáceis de encontrar, por baixo preço, em caixotes de alfarrabistas, são um marco da história da fotografia e um monumento ao hábito ocidental de cultivar a imagem.

Ainda que arremetidos, pelo passar do tempo, para o anonimato, todos esses fantasmas têm uma história para contar. Ou melhor, duas: a do fotografado e a do próprio fotógrafo. Fotógrafo cujo legado ao futuro não foi aparentemente além de um amontoado de rostos e de posturas, um dia iluminados pela paradoxal subjectividade da sua objectiva. [...]»

(continua no livro)








quarta-feira, 16 de julho de 2014

REI D. CARLOS I : uma vida em datas

CRONOLOGIA
DA VIDA DO 
REI D. CARLOS

por MARINA TAVARES DIAS
em: D. Carlos (biografia)




1863

28 de Setembro: à uma e meia da tarde nasce o príncipe D. Carlos Fernando Luiz Maria Victor Miguel Raphael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão, na Sala Verde do Palácio Real da Ajuda, em Lisboa. O pai, D. Luís, foi aclamado Rei de Portugal (por morte do irmão D. Pedro V) menos de dois anos antes. A mãe, Rainha D. Maria Pia, é a filha mais nova do Rei de Itália. O médico obstreta assistente da então tradicional parteira (Narcisa) foi José Eduardo de Magalhães Coutinho.

29 de Setembro: «Te Deum» solene, na Igreja de S. Domingos, pelo nascimento do príncipe real.

19 de Outubro: O baptismo, feito no paço no dia do nascimento, é oficialmente confirmado na Igreja de S. Domingos, local onde tradicionalmente decorrem as celebrações religiosas da Família Real. A madrinha, por procuração, é a irmã da mãe: princesa Clotilde de Sabóia.



1864

11 de Fevereiro: Reconhecimento de D. Carlos como sucessor de D. Luís, em reunião das Cortes.



1865

31 de Maio: nasce o infante D. Afonso, único irmão de D. Carlos.

15 de Setembro: viaja com os pais para o Porto, para assistir à inauguração do Palácio de Cristal (demolido em 1954) e da primeira Exposição Industrial Internacional Portuguesa, congénere de outras iniciativas europeias destinadas ao desenvolvimento das indústrias e do comércio.

27 de Setembro: o infante D. Afonso é baptizado na capela da Ajuda.



1867

9 de Outubro: inauguração da Galeria de Pintura do Real Palácio da Ajuda.



1868

12 de Abril: acompanha a mãe, Rainha D. Maria Pia, na viagem a Itália para o casamento do tio, o príncipe herdeiro Humberto de Sabóia (com a princesa Margarida, filha do duque de Génova e prima de ambos).

2 de Julho: regressa, com a mãe, a Lisboa.



1869

10 de Junho: D. Fernando, avô de D. Carlos, casa com a ex-cantora de ópera Elisa Hensler, que recebeu em Coburgo o título de condessa de Edla.

31 de Outubro: o Rei D. Luís redige testamento.



1870

17 de Abril: um grande ciclone varre Lisboa, sendo particularmente sentido no bairro da Ajuda.

16 de Novembro: o príncipe D. Carlos inicia os estudos primários, com o professor Júlio Joubert Chaves.



1871

12 de Julho: chega a Portugal o Imperador D. Pedro II do Brasil, tio-avô de D. Carlos.





1872

25 de Junho: visita o Porto na companhia dos pais.

5 de Outubro: começa a receber aulas sobre as «leis do Estado» com o conselheiro Martens Ferrão.

Novembro: participa nas suas primeiras caçadas reais, com uma pequena espingarda oferecida pelo pai.



1873

26 de Janeiro: morre a Imperatriz D. Amélia, segunda mulher de D. Pedro IV, bisavô de D. Carlos.

2 de Outubro: D. Carlos e o irmão, D. Afonso, estão prestes a afogar-se numa zona da Boca do Inferno, em Cascais, conhecida por Mexilhoeiro, sendo salvos pela mãe e pelo faroleiro António de Almeida Neves.



1875

22 de Abril: morre a Infanta D. Isabel Maria, ex-regente do Reino, filha de D. João VI e tia-bisavó de D. Carlos.



1877

15 de Abril: faz a primeira comunhão.



1878

9 de Janeiro: em Itália, assiste com a mãe ao funeral do avô, o Rei Vítor Manuel II, primeiro soberano da Itália unificada.

14 de Março: na sessão especial das Cortes, em S. Bento, faz juramento como herdeiro presuntivo da coroa.

28 de Setembro: é nomeado alferes de Lanceiros, pelo pai, o Rei D. Luís. Recebe o seu primeiro barco, o Nautilus. Nesta noite, é oficialmente inaugurada a electricidade em Portugal, em candeeiros públicos dispostos na Parada de Cascais.





1879

2 de Junho: início da visita a Portugal pelos príncipes Rodolfo e Leopoldo da Áustria.

24 de Agosto: data oficial (inexacta na prática) do início da demolição do Passeio Público de Lisboa, jardim frequentado pela realeza e nobreza lisboetas desde o tempo de D. Maria II. No seu lugar, nascerá a futura Avenida da Liberdade.



1880

10 de Junho: assiste, com os pais, ao cortejo histórico que assinala o centenário de Camões. Neste dia é inaugurado, em Lisboa, o Atheneu Comercial.



1881

21 de Novembro: início da visita a Lisboa da princesa imperial do Brasil, primogénita do Imperador D. Pedro II.

24 de Novembro: parte, com a família, para mais uma visita ao Porto.



1882

26 de Março: D. Carlos assume o seu lugar no Conselho de Estado.



1883

22 de Maio: pela primeira vez, é jurado regente do reino, assumindo-se como tal durante uma viagem dos pais a Espanha.

2 de Junho: parte em viagem pela Europa, acompanhado de Martens Ferrão e António Augusto de Aguiar.



1884

5 de Fevereiro: morre a sua tia Maria Ana (casada com o príncipe Jorge, futuro rei de Saxe).

28 de Setembro: por sua maioridade, recebe a administração da Casa de Bragança, único morgadio ainda permitido em Portugal. D. Luís e D. Maria Pia começam a sondar as casas reais europeias, em busca de uma princesa para noiva do filho.

16 de Novembro: a Infanta D. Antónia, tia de D. Carlos, comunica não oficialmente ao irmão (D. Luís) a recusa duma proposta de casamento entre D. Carlos e a princesa alemã Victoria, irmã do futuro Kaiser Guilherme II. A mãe desta, filha mais velha da Rainha Vitória de Inglaterra, justifica-se com o facto de a família imperial alemã professar o protestantismo. D. Antónia sugere, como alternativa, «a Paris, pois é deveras uma rapariga muito galante» (refere-se à filha dos condes de Paris, futura noiva de D. Carlos que, aparentemente, aceita à partida a sugestão da tia).





1885

20 de Setembro: participa, com o Rei D. Luís, nas grandes manifestações lisboetas aos exploradores Capelo e Ivens.

15 de Dezembro: morre, no Palácio das Necessidades, o Rei D. Fernando, viúvo de D. Maria II e avô de D. Carlos.





1886

17 de Janeiro: parte para França, onde conhecerá pessoalmente a princesa Amélia de Orleães, filha dos condes de Paris

6 de Fevereiro: pedido oficial da mão da princesa D. Amélia.

7 de Fevereiro: ceia de gala no palácio dos condes de Paris, celebrando o noivado.

22 de Fevereiro: parte com a família da noiva para Cannes, onde fica até 5 de Maio.

20 de Maio: D. Amélia chega a Lisboa, desembarcando em Santa Apolónia.

22 de Maio: casamento, na igreja de S. Domingos, de D. Carlos com a princesa D. Amélia de Orleães.

22 de Junho: decreto do parlamento francês, expulsando de França todos os descendentes de famílias reais outrora reinantes no país. A decisão incliu os pais da Rainha D. Amélia e aparece ligada aos excessivos festejos do casamento desta com o príncipe real português.



1887

12 de Janeiro: início da visita do pai de D. Amélia, o conde de Paris, a Portugal.

21 de Março: nascimento do primeiro filho de D. Carlos e D. Amélia, duques de Bragança, o príncipe D. Luís Filipe.

27 de Março de 1887: chegada da Infanta D. Antónia, tia de D. Carlos, a Lisboa. É a sua primeira visita desde que, em 1861, embarcou na corveta Bartolomeu Dias com o marido, príncipe Leopoldo de Hohenzollern, rumo a Sigmaringen.

11 de Junho: D. Carlos e D. Amélia embarcam para Inglaterra, onde assistirão às celebrações do jubileu de ouro da Rainha Vitória.

14 de Dezembro: nasce, no Paço de Vila Viçosa, a infanta D. Maria, filha de D. Carlos e de D. Amélia. Morre duas horas após o parto.

17 de Dezembro: cerimónias fúnebres pela infanta D. Maria, no panteão real, em S. Vicente de Fora.





1888

1 de Janeiro: ausência do Rei D. Luís no acto solene de abertura das cortes, por motivo de doença.

25 de Março: a Rainha D. Maria Pia viaja para o Porto, para apoiar as famílias das vítimas do incêndio do Teatro Baquet, ocorrido cinco dias antes.

13 de Maio: início da visita do Rei Óscar II da Suécia.

10 de Junho: D. Carlos obtém quatro menções honrosas pelo gado apresentado na Exposição Pecuária Nacional de Lisboa, na Rotunda da Avenida da Liberdade.

30 de Julho: D. Carlos é jurado regente, enquanto seu pai se ausenta para uma cura termal na Áustria.





1889

3 de Janeiro: D. Carlos e D. Amélia visitam os pais desta, exilados em Espanha.

11 de Maio: o Rei D. Luís condecora D. Carlos como Cavaleiro da ordem Militar de S. Bento de Aviz.

19 de Agosto/17 de Setembro: D. Carlos visita Itália e Paris.

26 de Setembro: morre, no Palácio das Necessidades, o infante D. Augusto, irmão do Rei D. Luís e tio de D. Carlos.

19 de Outubro: o Rei D. Luís morre aos 50 anos, após longa e dolorosa agonia, na cidadela de Cascais.

15 de Novembro: nascimento do terceiro filho de D. Carlos e D. Amélia, o futuro Rei D. Manuel II.

7 de Dezembro: chegada do Imperador D. Pedro II a Lisboa, após ter sido deposto por um golpe militar que implantou a República no Brasil.

28 de Dezembro: D. Carlos é oficialmente aclamado Rei de Portugal. 
[.../...]


 (CONTINUA NO LIVRO. EDIÇÃO
  QUIMERA, 2007/2008. Nas livrarias)

ATENÇÃO: 
SE QUER UM LIVRO, PERGUNTE POR ELE. NÃO DEIXE QUE SEJAM AS LIVRARIAS A DECIDIR O QUE DEVE LER. As livrarias só repõem os livros esgotados depois de terem vendido aqueles cujas editoras compraram destaques ou «topos de gôndola». Não espere encontrar livros bons. Espere encontrar livros muito vendidos, através da promoção e da publicidade. 
Os livros de Marina Tavares Dias podem ser boicotados, mas continuarão a vender se O LEITOR EXIGENTE os pedir e deixar de comprar nas livrarias onde os não encontra.
REMEMOS CONTRA A CORRENTE DA MAIS-VALIA DE QUEM PAGA PARA NOS TER COMO CARNEIROS. Também nos nossos hábitos de consumo. Sobretudo nos nossos hábitos de consumo. Obrigado a todos os nossos leitores fiéis.




Negativo de JOSHUA BENOLIEL, 
mostrando o Rei a rir. 
Imagem raríssima, inédita para este livro, do 
ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS

terça-feira, 15 de julho de 2014

JÚLIO CÉSAR MACHADO
por
MARINA TAVARES DIAS

Quando Júlio de Castilho nascia para as letras, nelas fazia já carreira consagrada Júlio César Machado. A sua fama e o seu prestígio andaram desde sempre ligados ao género literário mais frequentado do século XIX: o folhetim periódico.

Antes da telenovela, da fotonovela e da radionovela; antes das fascículas vendidas ao domicílio nos prédios de rendimento, a tiragem dos jornais contava com um aliado de peso que fazia suspirar a família inteira: o enredo do folhetim com presença cativa no rodapé da segunda página. Machadinho, com era conhecido no o meio jornalístico, especializou-se nestas novelas que continuavam para o dia seguinte, granjeando nelas a notoriedade com que, mais tarde, transformaria em êxitos rápidos os seus livros e outras publicações.

Sem ser propriamente um olisipógrafo investigador, Júlio César Machado foi a mais atenta testemunha da cidade do seu tempo, dos seus hábitos, manias, locais de culto e de maledicência, das suas alegrias, tristezas, martírios e superstições. Enquadrando cada novela num verdadeiro fresco de figuras típicas em cenários célebres, a sua escrita, como nenhuma outra, coloca o leitor em pleno Passeio Público ou em pleno Café Marrare, muito mais de cem anos depois de Machadinho os ter narrado.» 

(CONTINUA NO LIVRO 
'HISTÓRIAS DE LISBOA' 
DE MARINA TAVARES DIAS )

Photographia «carte-de-visite» do ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS. 
Fotografia actual de Marina Tavares Dias

segunda-feira, 14 de julho de 2014

OLISIPÓGRAFOS

MARINA TAVARES DIAS
em
HISTÓRIAS DE LISBOA
(livro editado em 2004):

«No princípio do século XXI, os olisipógrafos são uma espécie rara mas resistente. Padecem de doença hoje tida por hereditária. É frequente vê-los sozinhos pelos cantos das ruas, de máquina fotográfica no ar, a retratar buracos das paredes em fotografias sem o menor pendor artístico. Encontram-se por vezes nos ermos mais ventosos, sem grandes resguardos, apreciando o correr da aragem com um ar distante e desconfiado. Dá-se com eles em miradoiros de dedo em riste, contado andares a vagos prédios que mal se desenham na neblina. Mais frequentemente, apanham-se em bibliotecas e arquivos a infernizar o juízo de alguém por causa dos inúmeros documentos que, devido ao mau estado, não vêm a consulta.


Não parecem ter grande amor à vida terrena, dadas as vezes que a põem em risco percorrendo de nariz no ar os bairros mais sinistros, os antros mais infectos, as ruas outrora resplandecentes onde, hoje, se vende sexo e droga a todas as portas. Por cem vezes estiveram para levar uma tareia do cliente façanhudo da taberna da esquina, que muito justamente não quis ouvir explicações sobre a razão pela qual foi fotografado para um livro sobre casas do século XVIII. Escaparam 20 vezes da tareia por terem conseguido mostrar uma fotografia antiga em que a taberna era um palácio. Outras 20, escaparam porque foram tomados por «gajos da bófia». Contudo, a maior parte das vezes correram dali para fora tão rapidamente quanto as pernas lhes permitiram.


Uma vez no recato do lar, é vê-los embevecidos às voltas com uma concha carcomida, com desvelos de mãe dum recém-nascido, vendo homotetias dos séculos onde toda a gente vê, apenas, a supracitada concha carcomida. Possuem vasta biblioteca basicamente em auto-gestão, com recortes e «plantas conjecturais» amontoados a eito, cheios de poeira e de ácaros, prejudicando gravemente a saúde de qualquer criança que, não sendo herdeira directa, não esteja imunizada ao inigualável pó de Lisboa.»

(continua no livro)





sexta-feira, 11 de julho de 2014

SANTA CATARINA: uma freguesia eliminada da toponímia

O modo como as freguesias de Lisboa foram recentemente aglutinadas, dando-se ao «bolo» nova designação conjunta, quase sempre foi aleatório e sem qualquer respeito pela História e pela cronologia olisiponense. Exemplo disso, a emblemática, imprescindível, ancestral Freguesia de Santa Catarina. 

Desaparecida.

A freguesia de Santa Catarina, autónoma desde o século XVI, possuía tradições enraizadas na noite dos tempos. Santa Catarina do Monte Sinai, ou de Alexandria, dá também nome a uma das colinas da cidade. E a um dos pontos de onde melhor e mais belamente se observa o estuário e a outra banda do Tejo: o Alto de Santa Catarina. 

O seu território [...] abrangia a encosta que desce do Príncipe Real até à antiga Boa Vista. As origens do topónimo remontam a 1218, quando D. Afonso II doou aos frades trinos, vindos de França para ajudar a combater os mouros, uma ermida, com leprosaria anexa, para os lados de S. Roque. Mais exactamente, onde hoje vemos o pátio da Cervejaria da Trindade, na Rua Nova da Trindade.

[...]



Para compreender esta enorme, crescente e espontânea influência duma devoção [...], convém que saibamos reconhecer o papel primordial de Santa Catarina de Alexandria na hagiologia europeia, nos largos anos que vão da fundação da nacionalidade até ao final do século XVIII. Para tal, teremos de deixar para trás aquilo que pertence à verdade e aquilo que pertence à lenda, entrando no domínio das escassas coisas que, pertencendo a ambas sem pertencer a nenhuma, só podem ser compreendidas ao abrigo da crença.

De acordo com a Legenda Áurea, Catarina de Alexandria era filha de um irmão do imperador Constantino, de nome Costus. 
[...]

Quando Catarina contava catorze anos, o rei seu pai morreu, deixando-lhe tudo em herança. Coroada pelos súbditos mais distintos, foram estes inquirindo que marido tomava para si, tendo em vista a desejada protecção de suas terras. Para espanto geral, a jovem soberana garantiu que pretendia governar sozinha. Um dos duques seus tios, realçando-lhe as qualidades, sugeriu que não poderiam os deuses tê-la assim beneficiado se não tivessem em vista gerações posteriores. Catarina imediatamente retorquiu que seria natural que assim fosse, caso o marido designado lhe pudesse ser igual ou superior em todas as qualidades. A mãe e os maiores do reino recuaram em desalento, pois tal coisa era impossível de se conseguir num homem que vivesse sobre a terra. [...]

Continua no livro LISBOA MISTERIOSA
de
MARINA TAVARES DIAS
(edição Objectiva, 2011)





quinta-feira, 3 de julho de 2014

FERNANDO PESSOA, ALMADA NEGREIROS E O RESTAURANTE IRMÃOS UNIDOS





Foi para decoração das paredes do Restaurante Irmãos Unidos, pertencente à família de Alfredo Pedro Guisado, que Almada Negreiros pintou a primeira versão do seu retrato de Fernando Pessoa (1956). Ao lado do quadro estava, na altura do encerramento (1970), uma placa de mármore com o nome de todos os fundadores da revista ORPHEU. Ficou à guarda da Câmara de Lisboa, e desapareceu até hoje.

O quadro, de que existe cópia posterior e «invertida» (de 1964) na Fundação Gulbenkian, foi adquirido pelo banqueiro Brito e oferecido ao município. Com a sua venda, em 1970, as obras de Almada subiram, no valor de mercado, para mais do quádruplo. Alguns jornais admitiram que a licitação desta peça iria determinar o futuro valor dos inúmeros quadros de Almada em certas colecções privadas. Pouco tempo depois, a Brasileira do Chiado venderia igualmente as telas deste pintor que ornavam as suas paredes desde 1925.

O quadro de Almada seguiu para o Museu da Cidade, mudando de morada quando este passou do Palácio da Mitra para o Campo Grande. Ultimamente, foi tirado ao acervo do Museu da Cidade para adornar a chamada «Casa Fernando Pessoa».

Não consta que Fernando Pessoa apreciasse os retratos pintados por Almada Negreiros, tendo sido pouco cordial para com o «colega» logo na primeira exposição deste. Apreciava-lhe a escrita, o que é outra coisa, bem diversa.

Almada, por seu turno, nunca ousou pintar ou desenhar Pessoa enquanto este estava vivo. O primeiro retrato pessoano que fez data... do dia do funeral de Pessoa.


Pormenor de página de 'O Rossio pelos Olisipógrafos' 
de MARINA TAVARES DIAS. 
Entrada do Hotel Francfort e, 
ao lado desta, o Restaurante Irmãos Unidos.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Glórias do PARQUE MAYER


Páginas da adenda ao capítulo sobre a história do 
PARQUE MAYER, na 
LISBOA DESAPARECIDA, 
volume 9, 
de MARINA TAVARES DIAS. 
A lista das revistas em cena até 1977, coligida pela autora.
Publicamos apenas algumas páginas dessa vasta lista; para
ver todos os anos, será preciso consulta do livro.






sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cascais, Outubro de 1888



Jogadores que efectuaram aquela que é considerada a primeira exibição de futebol em Portugal, em Cascais, em Outubro de 1888. Esta extraordinária fotografia da época retrata-os a todos. Em pé, da esquerda para a direira: João Bregaro, Jorge Figueira, Eduardo Romero, Francisco Alte, Eduardo Pinto Basto, Francisco Figueira, Salvador da França, Manuel Salema, Aires de Ornellas, Guilherme Pinto Basto e Carlos Pinto Basto. No meio: Salvador Asseca, António Avillez, Pedro Sabugal e Frederico Pinto Basto. Sentados: visconde de Castello-Novo, Luiz Trigozo, Hugo O’Neill, Francisco Avillez, Vasco Sabugosa, Augusto Moller e D. Simão de Souza Coutinho

HISTÓRIA DO FUTEBOL
de
MARINA TAVARES DIAS

O nascimento do futebol em Portugal


A primeira fotografia de um desafio é 
anterior à instituição de redes nas balizas


 HISTÓRIA DO FUTEBOL 
de MARINA TAVARES DIAS



Escreve a autora no livro que a revela:

"O jornal quinzenal «O Sport», de breve publicação no ano de 1894, confere já grande destaque à modalidade cujo impacto público não parara de alargar-se nos últimos dois anos. Este é o primeiro título lisboeta inteiramente dedicado a temas desportivos, estando a sua fundação ligada a sócios do Real Gymnasio Club Português, entre os quais se destaca Carlos Xafredo, director da nova publicação. Utilizando um método muito em voga na época (albumina fotográfica colada ao centro da primeira página), o jornal apresenta uma das primeiras imagens de um desafio de futebol em Portugal. A legenda – na última página – refere-o nos seguintes termos:

'A photographia que acompanha o nosso primeiro número é um interessante instantâneo photographico do ‘match’ de ‘football’ que se realizou no dia 25 de Março de 1893 na Quinta Nova em Carcavellos entre o ‘team’ do C.C. [Carcavellos Club] e o do R.G.C.P. [Real Gymnasio Club Portuguez].
Este ‘match’ ficou empatado marcando cada ‘team’ um ‘goal’, e era desforra do que se tinha realizado em 8 de Dezembro de 1893 [sic] no qual o R.G.C.P. perdera por 6 ‘goals’. [...]" (continua no livro)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A PRAIA 1900
por 
MARINA TAVARES DIAS
(continuação)

«[.../...]
A moda dos mergulhos de mar era recente, especialmente sem o apoio das antigas «barcas de banhos», que levavam grupos até fora de pé sem que fosse necessário «fazer a praia». Divulgada pela corte no tempo do Rei D. Luís, foi sobretudo o filho deste, D. Carlos, quem tornou o hábito uma rotina entre as famílias que, no Inverno, ditavam a moda em bailes, festas ou récitas de S. Carlos. 

Os lisboetas habituaram-se a rumar a Cascais, pela linha férrea, preferindo finalmente o oceano às areias do Tejo, mais próximas de Lisboa. Poucos, no entanto, nadavam tão bem como o Rei ou eram tão afoitos como ele. Quase toda a gente se limitava a chapinhar na orla da praia, entre cadeirões de verga e pescadores na faina. 

Apenas os mais novos envergavam fato de banho. Em 1900, os maillots masculinos eram uma só peça, de meia manga e tecido riscado. Os femininos compunham-se com vestido curto de castorina, calção com o mesmo debruado, cabelo apanhado em touca [...] e alpercatas para esconder os dedos dos pés. Estavam os jovens prontos para o mar de Outubro – que era o mês da praia. A maioria das senhoras de sociedade limitava-se a observar os banhistas, continuando sob as sombrinhas e sem despir o vestido branco, de chiffon e linho» (continua) 





O Rei D. Carlos na sua praia preferida,
em Cascais (Praia dos Pescadores). 
Fotografias sequenciais
de António Novaes, 1907 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Fernando António


Como nasceu no dia 13 de Junho, chama-se Fernando António.
(Fernando António Nogueira Pessoa fotografado por Francisco Camacho, na Rua Nova do Almada, em 1888)

sábado, 7 de junho de 2014

Taborda e Isidoro




O Actor Isidoro oferece uma pinha ao grande Taborda. Eram os tempos em que, no Theatro do Gymnasio, famílias inteiras se dependuravam lá do alto do «galinheiro» para gritarem o nome do Taborda, mesmo antes de ele entrar em cena. Muitas vezes, levavam farnel e, se tardava o «quadro» com o actor mais querido de todos, lá arremessavam para o palco mais um osso de frango.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

LONGE DA GUERRA

LISBOA NOS ANOS 40 | LONGE DA GUERRA 
de 
MARINA TAVARES DIAS
Edição de 1998







Ribeirinho e Leonor Maia - a «Tatão» e o «Chico» - despedem-se à porta da Perfumaria da Moda, na Rua do Carmo. O filme é O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro (1941). A perfumaria ardeu totalmente em Agosto de 1988, restando a cantaria da fachada, que hoje serve de janela a uma loja Nespresso. Quebrado o letreiro de vidro pintado a ouro, ficou à vista, lavrada na pedra, a designação francesa inicial, inspirada no romance homónimo de Zola.

domingo, 1 de junho de 2014

Peças do ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS: os cartões das vistas estereoscópicas.





Verso de cartões das vistas estereoscópicas da famosa Loja 92 (na Rua Nova do Almada e sucursal na Rua do Ouro), também conhecida por Casa dos Chapéus de Chuva. As vistas eram de Lisboa, mas o chic era chamarem-se «Paris».
Para quem não se lembre, recordamos tratar-se da casa que ficou famosa através de enormes campanhas publicitárias com este logótipo «92», em cartazes colados pela cidade de finais do século XIX. Como brindes a clientes certos, mandava fazer os célebres pratos/calendário que ainda hoje aparecem à venda. A Loja 92 ardeu no incêndio do Chiado, em 1988. Durara mais de um século.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Peças do ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS




A Photographia Rocha, Praça da Alegria de Baixo, especializava-se em retratos de actores. [...]

Os lisboetas de agora não podem imaginar como o público de 1870 adorava o Teatro do seu tempo. Eram sessões seguidas, todos os dias. Lotações sempre esgotadas. [...]

Aqui estão os grandes actores Queiroz, Leone, Augusto e, à direita, Brazão. O futuro «grande Senhor» da Companhia Rosas e Brazão, aqui tão jovem, não parece o mesmo Eduardo Brazão de 1900, já coroado de glória. 

Parecem é todos muito contentes. Tentariam replicar um quadro da peça em cena? - O futuro já não ouve, em surdina, a motivação destas poses. Mas é bom saber que, num dia qualquer, algures entre 1865 e 1870, estes cavalheiros resolveram encenar-se, em conjunto, frente à lente da câmara escura do Sr. Rocha. 

Casa fotográfica que foi demolida para se rasgar a Avenida da Liberdade. E os teatros onde eles representavam? - Esses,  desabaram sob o camartelo municipal, um a um. O empresário trocou de elenco, provavelmente, logo na peça seguinte. E eles, os actores, foram perdendo a juventude quase espampanante aqui exibida. O público foi morrendo, até não restar alguém que os tenha visto em palco. O clamor dos aplausos passou. Outros famosos ocupam o imaginário de outra época. Outros que o público futuro igualmente esquecerá.

Desse tempo, dessa fama, dessa glória, desse quotidiano, desse mundo - ficou esta fotografia.

MARINA TAVARES DIAS,
2013.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

PEÇAS DO ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS

PEÇAS CURIOSAS 
DO ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS





Na primeira década da segunda metade de Oitocentos, rara seria a família nobre ou burguesa que não tivesse, em cima da mesa da sala, o álbum das fotografias «carte-de-visite». Presume-se que terá sido o fotógrafo Disderi, com atelier em Paris, quem as celebrizou. Há quem diga que as inventou também. Pequenos rectângulos de papel albuminado serviam para captar a luz do negativo. Estas fotografias eram, depois, montadas em cartolinas, geralmente com o nome ou logótipo do fotógrafo na base ou no verso do cartão.

Ainda hoje, aparecem aos milhares, em leilões «on line», em feiras, em qualquer parte onde se vendam papéis velhos.

O que pouca gente saberá é que, ao serem entregues ao cliente (que geralmente encomendava meia ou uma dúzia), vinham em pequenas caixas de cartolina lavrada a quente, com desenhos, pequeno fecho e o nome do fotógrafo. Dessas caixas só sobreviveram aquelas cujas fotografias nunca chegaram a ser dadas a amigos ou parentes.

Aqui está a caixa para cartes-de-visite da Photographia Universal, na Rua Oriental do Passeio Público, Lisboa (correspondia ao actual lado oriental da Avenida da Liberdade, rasgada entre 1879 e 1886). A julgar pelas fotos no interior, deve datar dos anos entre 1865 e 1870.