quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

OS POSTAIS DE PAULO GUEDES

 

PAULO GUEDES

Paulo Emílio Guedes (23 de março de 1886 – 1 de dezembro de 1947) foi fotógrafo, editor e impressor, com actividade marcante na Lisboa das primeiras décadas do século XX. Natural de Mondim de Basto, fixou-se na capital ainda jovem, desenvolvendo carreira ligada à produção fotográfica e à edição. Foi proprietário da Papelaria Guedes, na Rua do Ouro, um dos eixos centrais do comércio lisboeta, a partir da qual editou e difundiu um vasto conjunto de postais ilustrados. A sua firma - Paulo Guedes & Saraiva - chegou a publicar milhares de postais, de vistas urbanas, monumentos e cenas da vida quotidiana, desempenhando um papel relevante na construção da imagem identitária de Lisboa e de Portugal. Entre os postais que editou estão os da famosa série 'Lisboa na Rua', considerada a 'joia da cartofilia portuguesa': 15 imagens em fototipia, a partir e negativos de sua autoria, que percorrem ruas e costumes e formam a colecção mais valiosa de postais antigos portugueses. 

A conjugação das funções de fotógrafo e editor permitiu-lhe controlar todo o ciclo da imagem, da captação à circulação pública. Ao contrário de Bárcia, cujos postais eram provas fotográficas com legendas manuscritas, Guedes fazia grandes tiragens e distribuía por representantes em todo o país. Representa, assim, uma figura-chave da fotografia portuguesa enquanto prática editorial e instrumento de memória urbana no início do século XX.


Marina Tavares Dias
«Os Melhores Postais de Lisboa», 1995.










quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O ROSSIO DE POSTAL ILUSTRADO

 A fachada lateral do Teatro Nacional D. Maria II, a estátua de D. Pedro IV, a estrutura inconfundível da praça traçada a régua e esquadro pelos arquitectos do Marquês de Pombal - não há que enganar: é o Rossio. E é como se fora, de Lisboa, o seu emblema maior e cosmopolita. Hoje ainda? Talvez. Então era-o decerto. 

Mas que Rossio é este? O do carrossel de automóveis, dia e noite incessante à volta da placa central, que conhecemos? Não. Um Rossio diferente e diverso: as tipóias em fila esperam clientes, os outros, os utentes dos transportes públicos e colectivos, têm aqui à sua disposição e escolha dois tipos de "americanos": os fechados e os abertos. 

Vem ainda longe a era do carro eléctrico, que esta foto é com certeza bem anterior ao 4 de Março de 1910 escrito à mão por alguém sobre o postal. Mas não é o exótico dos carros puxados a cavalo aquilo que mais nos surpreende. São as pessoas, ou a espantosa rarefacção delas. E o modo de estar das poucas que se vêem. É o Rossio, é. Tão calmo ainda que se imaginaria, porém, outro que não o de hoje por nós, na pressa, cruzado. E não será, efectivamente, outro? 

Ele há as fachadas, o teatro e o monumento, mas tudo o resto mudou. As cidades mudam depressa.. Porque se lhes altera a alma. Mesmo se permanecem as pedras.




quarta-feira, 5 de março de 2025

LISBOA, 1940

 «A Exposição do Mundo Português será a coroa de glória das opções assumidas por Ferro e apenas esboçadas anos antes, quer na Exposição Industrial do Porto quer na Internacional de Paris, em 1937, onde o pavilhão concebido pelo jovem arquitecto Keil do Amaral rompia com tudo aquilo que, até então, Portugal apresentara ao estrangeiro. No guia da Exposição do Mundo Português, o comissário Augusto de Castro escreve: "Sendo um olhar lançado sobre o passado, [a exposição] não terá um carácter exclusivamente erudito - e muito menos arqueológico. Deverá ser, ao contrário, uma lição de energia, uma perspectiva do génio português através de todos os estímulos de grandeza, um balanço de forças espirituais." Outros panfletos salientam tratar-se da primeira grande exposição histórica do Mundo. Esse mesmo mundo agora - historicamente - em guerra, ajuda a gerar, à volta desta paz sacralizante e sacralizada, o ambiente fictício dum paraíso do absurdo. »

(...)
Continua no livro «Lisboa nos Anos 40, Longe da Guerra»



Imagem do livro, fotografia de Mestre Horácio Novaes.




terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

 ADEUS, BELÉM HISTÓRICA


«O processo do edifício número 138 da Rua de Belém não consta hoje de qualquer arquivo camarário consultável. Em vão tentei localizá-lo, ao longo de meses, enquanto procedia à análise de todos os outros documentos referentes aos demolidos em 1939. Proprietários dos restantes prédios da Rua de Belém foram informados sobre indemnizações e prazos; mesmo quando os prédios eram propriedade municipal, o respectivo processo inclui documentos referentes às lojas locais. Porquê, então, esta misteriosa omissão do número 138?
Acontece que, confirmando aquilo que diziam as pessoas do burgo, a referida casa guardava, nos seus alicerces, ruínas históricas contemporâneas da antiga capela do Infante. Quando as demolições do quarteirão começaram, rapidamente foram postas a descoberto antigas abóbadas. Ordens superiores mandaram então suspender os trabalhos, permanecendo o pequeno edifício entre as ruínas dos seus vizinhos, enquanto se decidia o que fazer do achado. Nada transpareceu nos jornais, e a demolição acabou por consumar-se, pois já não havia tempo para alterar quaisquer planos. Uma imprevisível descoberta acabou por tornar claro aquilo que, à época, ainda seria discutível: que a homenagem à história pátria se fazia à custa do desaparecimento de testemunhos dessa mesma história. (...)


continua no livro

Forografia: Mestre Horácio Novaes, prova original da época.







quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Avenida Duque de Ávila


Lisboa já se estendeu para norte. Ao Passeio Público, a Avenida da Liberdade passara-lhe por cima para ir dar à Rotunda. A partir daí (menos ambiciosas na sua largueza), diversas avenidas se abriram e, a seguir à (mais modesta) rotunda do Saldanha, nelas outras se cruzaram: as Avenidas Novas. Como esta ainda tão pacata e quase provinciana Avenida Duque de Ávila que aqui vemos, já percorrida por eléctricos, cujos fios, porém, são consertados, ainda, por carros puxados a cavalo.

Puxada a cavalo segue também, na outra via, uma carroça. O mundo - dir-se-ia - caminhava em frente e direito a nós. Equilibrado, embora, em dois pés: o passado e o presente. No meio, estão as poucas gentes que passam, insensíveis decerto à concomitância da História. Só os dois miúdos estacaram. Olhos postos no fotógrafo e no futuro.




quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

 PRAÇA DA FIGUEIRA


Marina Tavares Dias em «Os Melhores Postais de Lisboa», 1995:

Lembrando os "halles" de Paris, as longas galerias de ferro da Praça da Figueira multiplicavam-se em bancas diversas, áreas especializadas, aromas do campo e do mar. Flores, legumes, carnes, peixes, pequenas inutilidades. Muitos lenços brancos, xailes pretos, muitos vestidos pobres, muitos pregões, regateares, elogios e descomposturas.

Não deixa de ser simbólico que a mais antiga representação do mercado sobre postal ilustrado seja, afinal, uma imagem do interior. Porque era cá dentro que se justificava todo um modo de vida. Era cá dentro que se reuniam Lisboa e os arredores, como se consumava o destino da boa criação musculada no campo para ir morrer nas abastadas cozinhas dos bairros residenciais.

Depois deste, apenas outro postal - já em fototipia - reproduziria uma imagem das galerias. No entanto, a opção pela parte mais animada do dia, o pormenor e retoque de cada presença, a alegria traçada no calor das cores, favorecem em muito esta edição. Veracidade e sortilégio da fotografia: quase podemos assegurar que - por uma vez - deles prescindimos de bom grado.




sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

A FEIRA DA LADRA EM POSTAIS



Marina Tavares Dias em «Os Melhores Postais de Lisboa»:

Não é o mais raro postal da Feira da Ladra, mas é, sem dúvida, o mais apelativo. Mostra a zona compreendida entre o Arco de S. Vicente e o Mercado de Santa Clara, onde ainda hoje se reúnem feirantes. As bancas especializavam-se, sobretudo, em móveis e livros usados. Também não é de crer que o jovem que posa, quase ao centro da imagem, estivesse munido de cartão de estudante. Esta é a Feira tradicional, à margem de burocracias. Apesar dos eventuais objectos roubados, era um lugar pacato, onde quase todos se conheciam.





domingo, 6 de outubro de 2024

COLUNAS AO CONTRÁRIO

NA RUA DA MOURARIA

O Colégio dos Meninos Órfãos foi construído em 1273, por iniciativa da Rainha D. Brites, mulher de D. Afonso III. Muito mais tarde, no século XVI, esteve sob protecção de D. Leonor, mulher de D. João III. Dessa data serão estas colunas posteriormente derrubadas pelo terramoto de 1755.
Quando o portal foi reconstruído, as colunas foram colocadas ao contrário: as bases em cima e os capitéis em baixo.
Assim podem ainda ver-se, no edifício que albergou a esquadra da Mouraria.




segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Carro eléctrico da Carris de Ferro


Carro #eléctrico aberto, no Largo de D. #Estefânia, na década de 1990.

O regresso fez-se como aquisição para o Museu da Carris.


A HISTÓRIA DO ELÉCTRICO DA #CARRIS (edição oficial do centenário)
#livro de


Marina Tavares Dias







quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Biografia da Rainha D. Estefânia

LISBOA DESAPARECIDA
de
MARINA TAVARES DIAS





Biografia da Rainha D. Estefânia
volme VII,
2002


«[---]
A 8 de Julho de 1857, dia de Corpus Chisti, Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen terá decidido que casaria com o rei de Portugal. A ideia parece ter partido – e as «Memórias» do conde de Lavradio apontam nesse sentido – , mais uma vez, do príncipe Alberto de Inglaterra.


Após exame minucioso de todas as hipóteses alternativas na escolha de uma futura rainha para Portugal, Alberto informara Pedro de que Estefânia parecia ser a única princesa católica à altura de tal missão, proveniente como era de uma casa liberal, habituada como estava a um estilo de vida simples e conhecida que era a sua vocação para o estudo e para a caridade.


A fama das virtudes do jovem monarca português chegara, por sua vez, a Dusseldorf, sobretudo após a sua heróica permanência em Lisboa durante o surto de cólera que, em 1856, assolara a capital. O regime político português, minado pela incerteza e pela corrupção, tornava ainda mais louvável, aos olhos da Europa, o jovem monarca que, pela sua cultura e seriedade, era considerado um dos mais dotados soberanos do seu tempo.»

[continua no livro]