sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

... E se a saia escondesse um homem de cócoras?


Excerto do capítulo sobre 
A MODA EM LISBOA
por 
MARINA TAVARES DIAS
em
LISBOA DESAPARECIDA


«[..../....] Símbolo por excelência do Romantismo, a saia de merinaque, com os seus arcos de barbas de baleia e a sua estrutura de gaiola, ficará para sempre ligada à época de ouro do Passeio Público. 

Madame Seissal foi a primeira lisboeta a ostentar crinolina, sendo vaiada e coberta de ridículo em pleno Passeio, recolhendo precipitadamente a casa. Mas por volta de 1860 já se usava crinolina mesmo nos veraneios pela praia ou nos piqueniques campestres, e até as figurantes do Teatro de S. Carlos exibiam sempre saias de balão, mesmo quando o libreto da ópera contava uma história passada na Antiguidade clássica. 




Dançava-se de crinolina nos salões, sempre com mil cuidados para que a proximidade do par não permitisse o desequilíbrio da estrutura: um leve encosto pela frente levantava a saia atrás, desvendando tudo o que estivesse ou não por baixo. [... ] 



Quem saísse à tarde para o Passeio Público encontrava um verdadeiro mar de merinaques cobertos de todas as cores, tecidos e enfeites possíveis. A silhueta da mulher voltara às composições aparatosas e à prisão das formas caricaturais. Mesmo assim, os puritanos reclamavam contra o uso de crinolinas: segundo eles, estas podiam muito bem refugiar, sob a abóbada das barbas de baleia, um amante oculto, de cócoras.»



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O maior café lisboeta de 1930

No livro «OS CAFÉS DE LISBOA»© 
de MARINA TAVARES DIAS.

Um capítulo sobre o Café Chave d'Ouro. Inaugurado em 1916. Encerrado em 1959. Mais uma dependência bancária, menos um café no Rossio. Aqui na fotografia, a azáfama dos lisboetas no dia da célebre reabertura, após remodelação, em 1930. Ocupando todos os andares do edifício, passava a ser o maior café de Lisboa.

ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS






terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Aterro que celebra a data do 24 de Julho



« Com o aparecimento do carros americanos - em 1873 - e o desenvolvimento das obras do porto de Lisboa - iniciadas em 1887 -, o Aterro da Boavista (como continuou, por muito tempo, a dizer-se) ganhou vida própria e muita animação. Fontes Pereira de Mello instituiu a celebração do dia 24 de Julho. Vinham representações de todas as tropas da província, saudar as guarnições alfacinhas; havia parada e salvas de morteiros. Era um dia animado, em que Lisboa acordava cedo e saía em peso à rua. Mas todos os dias eram alegres, na Rua 24 de Julho. Alberto Pimentel, recém-chegado do Porto, espanta-se com tanta animação:

"Dá prazer, dá alegria ver passar, ao meio-dia, especialmente ao Domingo, as carruagens americanas ao longo do Aterro. Sobretudo nas carruagens abertas, que no Porto se denominam dos fumistas, há o ar alegre dos franceses que vão divertir-se ao campo, e que já se sentem felizes só com pensar no champagne.
[...]»



MARINA TAVARES DIAS
LISBOA DESAPARECIDA
pequeno excerto do volume III


sábado, 25 de janeiro de 2014

Cafés: acolhedores cenários da nossa criatividade.

Muitos têm sido os escritores que referem o papel importante que escrever e ler nos cafés da capital teve nas suas vidas.

Dessas frases, duas são imortais.


(Recolhidas de 
OS CAFÉS DE LISBOA 
de MARINA TAVARES DIAS, 
1999)



Um visitante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o e tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião. - Almeida Garrett.




E as metafísicas perdidas nos cantos de cafés de toda a parte. - Álvaro de Campos.








quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O traje típico de Lisboa é «o capote e lenço». Sabia?

[...] Por exemplo, já no início de século XIX, a elegância lisboeta envergava capote em todas as estações, a todas as horas do dia. Havia-os com mangas, cabeção ou gola de veludo. Mas, regra geral, eram mais simples, direitos, com forro de lã e reforço mais curto, protegendo os braços. 

(...)Numa evolução rápida a partir do "josezinho" - casaco curto do final do século XVIII -, passaram de vermelhos a pretos, confirmando a tendência ancestral das lisboetas para trajar de negro. Quando o "josezinho" encarnado ficou sendo pertença exclusiva das saloias de Loures, Queluz ou Mafra, e os lenços de cambraia e musselina foram por estas substituídos pelos barretes, as alfacinhas começaram a talhar o capote em linhas direitas e austeras. 

O lenço inicial manteve-se, mas, de tão ensopada em goma, a tarlatana branca já nem tocava o pescoço. (...) 

[CONTINUA NO LIVRO a explicação da razão pela qual os lisboetas ignoram que este é o traje típico da sua cidade]

MARINA TAVARES DIAS
em
LISBOA DESAPARECIDA,
volume III
capítulo «A Mulher de capote e Lenço»


postal ilustrado editado por Faustino Gomes. 
Fototipia a partir de cliché antigo 
de um dos maiores fotógrafos lisboetas 
do século XIX: Francesco Rocchini

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os transportes públicos e as saias de balão



Em 1858, reinando já D. Pedro V, o ónibus transformara-se no principal meio de transporte da cidade. As carruagens multiplicavam trajectos pelas ruas e eram facilmente reconhecidas por todos os lisboetas. Embora lhes chamassem bisarmas, não excediam o que hoje consideraríamos um tamanho mediano, transportando cerca de uma dúzia de passageiros em dois bancos corridos virados face a face, ao longo de dez janelas laterais. Entrava-se pelo fundo e o cocheiro ia sentado sobre o tejadilho.

Dizia-se que, quem entrasse, devia encomendar a alma a Deus. As saias de crinolina das mulheres ocupavam três lugares; se estivessem sentadas no final do banco, mais ninguém saía do carro.


IN:
MARINA TAVARES DIAS
em
HISTÓRIA DO ELÉCTRICO DA CARRIS 
(EDIÇÃO OFICIAL DO CENTENÁRIO)

O pobre candidato a passageiro do primeiro 
transporte público urbano da capital. 
Lisboa, 1858. 
Por entre a floresta de saias de balão, rendas e atavios, 
só consegue entrar... voando.

ATENÇÃO, por favor:
ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS em organização.

Trabalho voluntário de uma equipa de 3 pessoas. A Câmara Municipal de Lisboa nunca apoiou o trabalho da olisipógrafa Marina Tavares Dias com um cêntimo ou com um elogio. Estamos a tentar organizar o arquivo para complementar o serviço público que, há mais de 25 anos, Marina Tavares Dias realiza, através da sua investigação e da publicação de dezenas de livros célebres.


Por favor clique nos anúncios desta página. 
O seu simples gesto pode contribuir para a compra de mais uma resma de papel.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

LER +, LER MELHOR, na RTP, com MARINA TAVARES DIAS

LISBOA MISTERIOSA por MARINA TAVARES DIAS

À mesa do Café Nicola, no Rossio, a  Olisipógrafa explica à jornalista Teresa Sampaio, do programa LER MAIS LER MELHOR, alguns dos seus fascinantes textos sobre Lisboa.



https://www.youtube.com/watch?v=Z6REZWK7Mbk

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O PRIMEIRO NICOLA

[...] O apelido Nicola aparece ligado ao comércio da cidade desde meados do século XVIII. Antes do terramoto terá existido pelo menos um italiano Ni­cola, fabricante de velas [...] em plena Baixa, próximo do Pátio das Comedias [área compreendida entre as actuais ruas Augusta e da Prata], tendo mesmo dado origem a um topónimo espontâneo: Beco do Nicola.

[...] Após pesquisa nos livros de despachos régios [...] verificamos a existência de dois Nicolas na Lisboa de 1808: Joaquim Nicola e Nicola Marengo. Um terceiro Nicola é, em 1827, anunciante da “Gazeta de Lisboa”. Possuía casa no número 136 do Campo Grande e aí vendia raízes de plantas oriundas da Itália e da Holanda. Este Nicola Breteiro é, segundo Tinop, o candidato mais provável à identidade real do botequineiro do Rossio, visto terem os seus anúncios na “Gazeta” terminado no preciso ano em que o próprio café foi trespassado: 1829. [..../...]

.... Continua no livro OS CAFÉS DE LISBOA
de MARINA TAVARES DIAS.
O Café Nicola, reconstruído no século XX,
é o último que resta dos clássicos cafés do Rossio


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

NOS PASSOS DO PAI DE FERNANDO PESSOA, 1888

                                                                                                                   MARINA TAVARES DIAS

« Há um homem magro que sai de S. Carlos e acende o charuto, aproveitando a brisa amena libertada pelas luzes a gás do foyer. O tempo está incerto entre duas nuvens densas. A viagem até à Rua dos Calafates desmotiva-o deveras, agora que lhe apetecia mergulhar directamente na porta do prédio mesmo ali em frente. Mas tem uma crítica para entregar, escrita de véspera como combinado, e veio à segunda récita só para recapitular pormenores mais equívocos: a voz da soprano que fraqueja no momento preciso em que o coro sobe de tom, o olhar indeciso do maestro sobre uma plateia que não conhece. Um mundo cosmopolita tão distante da casa em frente, tão distante do choro em torvelinho do filho pequeno, do ruge-ruge de saias da velha mãe quase louca, dos gritos das criadas sempre que a peixeira passa, do cheiro a canela a repousar no doce de abóbora, em travessas, pelos aparadores. Há um mar de calçada entre a porta de S. Carlos e a vida real por trás das outras janelas do largo. Num certo sentido, pensa, fica mais perto a Rua dos Calafates. Fica mais perto a Redacção do Diário de Notícias. Arrima o ânimo e desvia o olhar da fachada. Resolve em definitivo que vai entregar os papéis hoje, em vez de passar pelo jornal logo de manhã. Tomará pelas escadas sobranceiras à pracinha, na direcção do Largo das Duas Igrejas, sabendo-se antecipado em relação à onda humana que, dentro de minutos, inundará o Chiado. [.../...] » 

(continua no livro)

MARINA TAVARES DIAS.

livro: LISBOA NOS PASSOS DE PESSOA


domingo, 12 de janeiro de 2014

O MAGNÍFICO EDIFÍCIO BEZELGA

A ex-Farmácia Bezelga, prédio que devia constar do património municipal inventariado em pormenor.
É o único edifício cuja cantaria foi toda talhada para albergar uma farmácia, com símbolos como o caduceu, a cobra, a taça, etc.

Único exemplar em Lisboa e, provavelmente, em todo o país. É uma maravilha lavrada em pedra.

Infelizmente, os adornos do topo do prédio foram apeados e vendidos há mais de 3 décadas. Seja como for, este é o célebre Bezelga, que foi o maior farmacêutico da cidade.

Agora é um fast-food Ali-Babá.

Pelo menos, já não se trafica ali droga, como há 5 anos, quando era taberna...

Passe por lá e... enjoy. Cruzamento da Almirante Reis com a Rua Andrade. Um dos mais belos prédios da cidade.






Este invulgaríssimo cruzamento triplo, que demarca o sítio onde foi interrompida a ancestral Rua dos Anjos para ser aberta a novecentista Avenida Almirante Reis merecia ser classificado na íntegra. Classificado e vigiado, para não acontecer a estes prédios o que aconteceu à loja arte-nova do número 17 da Almirante Reis. Ou o que já aconteceu a um dos gavetos: o do antigo Cinema Lys, hoje completamente desfigurado.








Sobre Bezelga, que foi fundador de jornais e propagandista republicano, remetemos os leitores para o segundo volume da LISBOA DESAPARECIDA. A sua história vale bem a pena ser lida.

Fotografias actuais: ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS, 2013.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Empresa Cerâmica de Lisboa, no coração de Campo de Ourique

LISBOA DESAPARECIDA
de
MARINA TAVARES DIAS

Ilustração do capítulo sobre CAMPO DE OURIQUE,
no volume VII

A Empresa Cerâmica de Lisboa. Onde hoje está a Igreja do Santo Condestável. Fotografia em albumina sobre cartão, fomato, 40 X 30 cm. Rua Saraiva de Carvalho em 1904.