sábado, 30 de maio de 2026

SANTO ANTÓNIO DOS CAPUCHOS

 No topo da colina de Santana, o Hospital de Santo António dos Capuchos nasceu já no século XIX, sobre o antigo convento. A transformação começou com o Asilo da Mendicidade de 1836, criado por D. Maria II, evoluindo gradualmente para estas funções hospitalares.

Como unidade de saúde, foi em 1928 integrado no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Antes disso, tinha funções assistenciais mistas: asilo, recolhimento, enfermarias para pobres, apoio social, etc. Em suma, um modelo muito oitocentista. A origem improvisada e adaptativa explicará, talvez, as críticas de muitos médicos: o conjunto nunca foi pensado de raiz como hospital moderno. Foi sendo adaptado: antigas celas tornadas gabinetes; corredores conventuais convertidos em circulação hospitalar; claustros fechados; enfermarias encaixadas em estruturas antigas; problemas permanentes de ventilação, acessos e infraestruturas técnicas.

Para a medicina contemporânea, com blocos operatórios, imagiologia pesada, circuitos estéreis, evacuação rápida, UTIs modernas, tudo é extremamente difícil de adaptar. Quem o critica vê-o como conjunto “romântico mas impraticável”.

Arquitectonicamente, em atmosfera, é dos sítios mais extraordinários de Lisboa. Tem algo que quase desapareceu na cidade: a sensação de continuidade histórica real. Caminha-se aqui entre camadas de convento franciscano, hospital oitocentista, azulejos barrocos, enfermarias republicanas e corredores do Estado Novo, tudo ao mesmo tempo.

Muitos hospitais modernos serão mais eficientes. Mas não têm esta densidade humana e histórica. Em Roma, Nápoles, Sevilha há locais com a mesma tensão entre património e funcionalidade. Os Capuchos pertencem a essa vasta família europeia. Com a actual tendência portuguesa para destruição dos locais com história, teme-se o pior para o seu futuro.






Fotografias de Marina Tavares Dias

Sem comentários:

Enviar um comentário