Foi uma das fachadas comerciais mais bonitas da Baixa. Fundada em 1935 por Edmundo Luiz Soares e Manuel Martins Rebelo, a Soares & Rebelo permaneceu, durante quase nove décadas, uma das casas mais características de Lisboa. Inicialmente na Rua dos Correeiros, expandiu-se rapidamente para o gaveto da Rua do Amparo (Praça da Figueira), onde permaneceu até 2022.
A localização não era casual. Na época, a Praça da Figueira era ainda dominada pelo grande mercado que abastecia Lisboa. Por ali passavam diariamente lavradores, horticultores, vendedores de flores e comerciantes vindos dos arredores da capital. A Casa das Sementes encontrou nesse movimento constante de gente ligada à terra o ambiente ideal para desenvolver a sua actividade. A ligação ao mercado foi tão forte que a loja permaneceu, até ao fim, como um dos últimos testemunhos visíveis da vocação agrícola e abastecedora daquela zona da cidade.
Desde cedo, a empresa distinguiu-se pela importação directa de sementes provenientes da Holanda, França e Estados Unidos, pela venda por correspondência e pela preocupação com a selecção dos produtos comercializados.
Num folheto publicado cerca de 1945, a firma afirmava possuir terrenos próprios para ensaio e cultura de sementes na Quinta do Pinhal Verde, em Caneças, onde experimentava variedades nacionais e estrangeiras antes de as colocar à venda. Apresentava-se, assim, não apenas como uma loja, mas como uma verdadeira casa especializada em horticultura.
A marca “Hortelão” tornou-se a sua imagem de referência. Primeiro representada por um hortelão masculino, símbolo do agricultor e do trabalho da terra, passou mais tarde a ser acompanhada por uma figura feminina carregando uma cesta de flores, frutos e hortaliças.
Ambas as personagens vieram a figurar nos célebres painéis decorativos da fachada, executados sobre vidro e durante décadas um dos elementos mais emblemáticos da loja. Já bastante degradados nos últimos anos de funcionamento, constituíam um raro exemplo da publicidade comercial tradicional que outrora caracterizava a Baixa de Lisboa.
Embora continuasse a servir horticultores e pequenos agricultores, a Soares & Rebelo adaptou-se aos tempos. Em finais da década de 1990, uma parte significativa das vendas era feita por correspondência, incluindo numerosas encomendas enviadas para os países africanos de língua portuguesa. Comércio discreto que conservava uma rede de clientes espalhada muito para além da Baixa.
Quando encerrou portas, em 2022, desapareceu uma das últimas ligações físicas à antiga Praça da Figueira das bancas, das hortas e dos vendedores que durante séculos abasteceram Lisboa.
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