Quando, na década de 1990, aluguei uma sala para escritório num prédio fronteiro da Rua do Crucifixo, era aqui que vinha almoçar. O Palmeira servia os melhores pastéis de bacalhau de Lisboa, acompanhados por imperiais tiradas a preceito e pela conversa habitual dos empregados, que conheciam pelo nome grande parte da clientela.
Como tantos outros restaurantes da Baixa, era uma extensão dos escritórios vizinhos, e onde se trabalhava, se almoçava e encontravam amigos sem necessidade de marcar hora.
Ocupava o número 69 da Rua do Crucifixo. As listas da década de 1950 permitem corrigir uma informação muitas vezes repetida, nos últimos anos da casa: o Palmeira não foi fundado em 1954, como fazia supor o letreiro da fachada, mas sim em 1939. A data de 1954 assinalava apenas a entrada do novo proprietário e gerente, José de Almeida, que assumiu a exploração do estabelecimento em Março desse ano.
Palmeira era também o nome de um restaurante do Porto, ao qual esteve ligado durante algum tempo. Especializou-se desde o início na cozinha do Norte e na importação directa de vinhos verdes, tornando-se ponto de encontro obrigatório para muitos clientes oriundos do Entre-Douro-e-Minho que viviam ou passavam por Lisboa.
Costumava ser comparado com o famoso restaurante Dupont de Paris: um interior que pouco mudaria ao longo de mais de meio século, grandes arcadas sucessivas, pilares robustos. As abóbadas do salão principal permaneceram praticamente intactas até ao encerramento. Quando fotografei o restaurante nos seus últimos anos, reconheciam-se ainda os espaços representados nas imagens da década de 1950. José de Almeida, excelente profissional da restauração, foi responsável pelo modernizar da casa e aumento da sua popularidade. Possuía outro estabelecimento, o Palmeirinha Bar, situado na Rua da Conceição, n.º 32 (gaveto com a Rua dos Douradores), cuja gerência viria a entregar ao seu conterrâneo Manuel Ferreira de Oliveira.
Durante décadas, o Palmeira foi um restaurante da Baixa para as pessoas da Baixa. Assim foi até ao encerramento, no final de 2015. Era dos raros interiores comerciais de Lisboa que ainda conservava, quase sem alterações, atmosfera e funções que possuía nos anos quarenta e cinquenta do século XX. Gerações sucessivas de lisboetas sentaram-se sob as mesmas arcadas para fazer exactamente a mesma coisa: almoçar, beber, conversar, regressar ao trabalho. O encerramento da melhor casa de pastéis, numa década em que já proliferavam as actuais ‘fábricas de pastel de bacalhau’ com sabores inventados e absurdos, é mais que uma perda. É um símbolo de como Lisboa passou a sacrificar o genuíno para reinventar em ‘kitsch’ a sua própria história.
Marina Tavares Dias
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