Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.
A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.

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