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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CASA AFRICANA

Durante mais de um século, vendiam-se ali tecidos, vestidos casacos, camisas, atoalhados, batas de escola e de serviço… em suma, vendia-se de tudo. Vendiam-se também pedaços da vida lisboeta. A minha tia Luiza costumava dizer que, aos quinze anos, foi à Casa Africana comprar um casaco e acabou por ‘comprar’ o marido, que também andava às compras por lá. Setenta anos depois, guardei um casaco da Relicário apenas porque a loja fechou. Entre um casaco e outro,  passaram gerações da mesma família. É por isso que o desaparecimento de uma loja nunca é só o desaparecimento de uma coisa comercial. É por isso que fotografo ‘tudo’. Mesmo assim, cada fotografia mostra um lugar e também a ausência de todos aqueles que nunca cheguei a fotografar, precisamente porque pareciam ‘eternos’. 


A Casa Africana foi fundada em 1872 pela firma Raymundo Seixas & Fonseca, estabelecendo-se na Rua da Vitória (números 33 a 37). Pouco depois, alargou actividade à Rua Augusta (154 e 156), no edifício onde mais tarde se instalaria a Rosado & Pires. A empresa passou pelas firmas Loureiro & Paes e Loureiro, Rumina & Azevedo. 


Em 1901, foi adquirida por Manuel Freire da Cruz. Transferiu-se para o grande edifício da Rua Augusta (157 a 171), com frentes também para a Rua da Vitória (66 a 80), e Rua dos Sapateiros, (98 a 104). Ocupava inicialmente o rés-do-chão mas após longas obras de adaptação, expandiu secções por todos os andares do imóvel. Em 1911, com a saída do sócio José Mendes Cogumbreiro, a firma passou a designar-se Freire da Cruz & C.ª, Lda. Prosseguiu em expansão, com a abertura de uma filial no Porto, em 1914, na Rua de Sá da Bandeira. Manuel Freire da Cruz retirou-se da gerência em 1942, sucedendo-lhe o filho. No ano seguinte, entrou para a administração Racine Freire da Cruz. 


A empresa era sólida e vestia meia Lisboa das décadas de 50, 60 e 70. No último andar,  compravam-se as batas escolares. Entre elas, a do meu colégio, de bolinhas brancas sobre azul, sempre fabricada por encomenda. 


O carregador de embrulhos que ajudava os clientes mais frequentes era famoso desde os anos 20. Durante sete décadas, quando alguém era sobrecarregado de trabalho ou de embrulhos, dizia: 'Olha que eu não sou o preto da Casa Africana!' A expressão, que ainda aparece, sobreviveu à própria loja.


Nas últimas décadas do século XX, a Casa Africana manteve-se como referência do comércio tradicional lisboeta, continuando a atrair sucessivas gerações de clientes. As listas comerciais da Câmara Municipal de Lisboa registam-na em 1995. No levantamento de 1998, o mesmo edifício surge identificado como Naf Naf (loja francesa cuja presença estava a impor-se, nesse ano, na praça  lisboeta). A transição ocorreu entre essas duas datas, embora testemunho de antigos funcionários apontem para actividade ainda em 1999. 


Em 2000 o imóvel já não apresenta qualquer estabelecimento registado, encontrando-se provavelmente em remodelação. Em 2002 passou a Zara, que aí permaneceu até à abertura da mega-loja que agora ocupa todo um quarteirão do Rossio.



Marina Tavares Dias 






O símbolo da Casa Africana, 
célebre em Lisboa durante
décadas, na calçada do
passeio da Rua Augusta 

Interior do
primeiro andar

Vista nocturna
(Fotografia de H.Novaes)

Publicidade
do século XIX 

Cartaz da primeira 
década de 1900

Publicidade na contracapa
da 'Illustração Portugueza'

Papel de um embrulho
da década de 60




Anúncio numa parede 
do Porto 

Postal com logótipo da casa

Vitral da loja da Rua Augusta 

Em 1989 dirigi um suplemento 
no DIÁRIO DE LISBOA 
sobre as lojas históricas. 
A Casa Africana publicou
um anúncio de 1989
para comparação 
com o que eu escolhera,
então com mais de 80 anos


O último casaco 
comprado na Casa Africana 



















segunda-feira, 27 de julho de 2026

FREIRE, GRAVADOR DA CASA REAL

Ayres Lourenço Freire, natural de Penela, veio para Lisboa com apenas doze anos, ficando entregue ao seu parente Marcolino Augusto Branco, gravador da Imprensa Nacional. Foi este quem lhe ensinou o ofício e descobriu o seu talento para o desenho. 

Trabalhando depois com mestres como Ferdinand Augusto Gérard, gravador do Banco de Portugal, e Cassiano Augusto Vidal da Maia, Ayres Freire aperfeiçoou os seus conhecimentos em Paris, na casa Ernest Lemoine, especializando-se na gravura em relevo. Novas viagens de estudo a França, Espanha, Áustria, Alemanha e Inglaterra permitiram-lhe acompanhar os progressos técnicos da época.

Em 1882, introduziu em Portugal os novos processos de fabrico, sendo apontado como o grande impulsionador da esmaltagem artística aplicada às tabuletas e publicidades, à bijutaria e à escultura.

Aos vinte e dois anos, Freire ampliou o seu estabelecimento, que passou a ocupar os números 158 a 164 da Rua do Ouro e 92 a 96 da Rua da Vitória. Era a mais importante casa de gravura artística e industrial, carimbos, sinetes, punções, cunhos, chapas esmaltadas, artigos para escritório, filigranas, ourivesaria artística e anéis com brasões e monogramas. Trabalhava para a Casa Real, para toda a nobreza, para os organismos públicos e para numerosas empresas. 

A qualidade da produção valeu-lhe muitos prémios, entre os quais uma medalha especial na Exposição Universal de Paris de 1889 (a exposição em que foi inaugurada a Torre Eiffel) e oito medalhas de ouro (incluindo a do primeiro prémio) na Exposição Industrial Internacional do Rio de Janeiro, em 1908.

Em 1943, com mais de sessenta anos, as instalações da Rua do Ouro foram completamente remodeladas e inaugurada nova fachada, de linhas consideradas modernas. A direcção passou então para os filhos do fundador — Ruy Lourenço Freire, Gustavo Lourenço Freire e Mário Lourenço Freire —, que procuraram conciliar a experiência adquirida ao longo de décadas com novos métodos industriais. Adoptaram como divisa da empresa a frase de Santo Agostinho «Parar é recuar.» A histórica casa manteve-se ainda em actividade durante praticamente três décadas. Em 1972, o espaço da loja e da cave foi ocupado pelo Centro do Livro Brasileiro.

A tradição familiar seria igualmente seguida noutra morada, desta vez pelo quarto filho do fundador, Aníbal Freire. Abriu este, em 1929, a Aníbal Gravador (Rua Nova do Almada, 64), dedicada também a gravura artística, brasões, monogramas, convites e cartões de visita. A pequena casa manteve vivo o prestígio do apelido Freire durante nove décadas e permaneceu aberta até 2018.


Marina Tavares Dias 



















sábado, 27 de junho de 2026

MAISON LOUVRE, PRIMAZ, NAIA, CANCAN: ESTRELAS DA BAIXA

No Rossio de quando era criança, uma coisa fascinava tanto como os rituais de dar milho aos pombos ou de caminhar sobre as grelhas de drenagem da chuva. Era a encenação de alguns miúdos a ajeitarem a roupa, em frente de um grande espelho de toucador que, na fachada da Primaz, dizia assim: ‘Componha o nó da sua gravata.’ 


Maison Louvre, Primaz, Naia e CanCan contam, todas juntas, uma história secular da moda em Lisboa. Estão as quatro ligadas à figura de Manuel Fernandes Carreira, regressado do Brasil em 1919 e criador de um dos mais importantes grupos comerciais da Baixa. 


A primeira casa do grupo foi a Maison Louvre, fundada a 31 de Maio de 1920 (Rossio, números 106 e 107) pela firma Carreira, Nogueira & Santos, Lda. (Manuel Fernandes Carreira, António Nogueira da Silva e Manuel Gomes dos Santos). Na década de 40 era já considerada a ‘mais antiga casa dedicada exclusivamente a roupa para crianças’. Sob direcção de Manuel Fernandes Carreira, manteve durante décadas essa sólida reputação de referência nacional no sector.


A 23 de Dezembro de 1952, Manuel Fernandes Carreira associou-se a Alberto S. Rodrigues (ligado à portuense Linaldeia), para fundar, ali ao lado, a Camisaria Primaz (Rossio, números 114 e 115). Dedicava-se a camisaria fina e acessórios masculinos —  gravatas, meias, gabardines, etc. — e foi apresentada como um dos estabelecimentos mais modernos do ramo. O grupo expandiu-se depois para o mercado feminino. Em 1960, abriu a Naia (Rua do Carmo, 45), com o projecto entregue a Francisco Conceição Silva (1922-1982), arquitecto da grande renovação comercial lisboeta dos anos 60. Dois anos mais tarde (1962), surgiu a CanCan (Rossio, 118), igualmente por ele projectada. Os fundadores completavam o segmento feminino já iniciado, especializando-se em lingerie, camisas de noite, robes, pijamas e fatos de banho. A Cancan tornou-se rapidamente a loja de lingerie mais conhecida da Baixa. Era célebre o seu slogan de Verão, quando íamos comprar o bikini: «Já foste à CanCan?»


Ao longo das décadas seguintes, as quatro marcas funcionaram como grupo comercial, abrindo sucursais na Avenida de Roma, em Campo de Ourique, em Cascais e, muito mais tarde, até no Centro Comercial Colombo.


Em 2008, a insolvência da empresa proprietária do grupo determinou acelerada decadência das lojas que, durante décadas, tinham marcado o comércio elegante. Juntas, foram todo um centro comercial: Maison Louvre para as crianças, Primaz para os homens, Naia para a moda feminina e CanCan para a lingerie. As quatro com produtos, marca e etiqueta próprios.


Por trás dessas etiquetas  tão conhecidas na Lisboa de há meio século está o empresário Manuel Fernandes Carreira, fundador e padrinho da Maison Louvre de 1920. Não se imaginava o Rossio sem as lojas dele.



Marina Tavares Dias




'Componha o nó da sua gravata '

A Primaz na década de 1950

Maison Louvre: a casa-mãe

Cancan na década de 1960
(fotografia de Mestre Horácio Novaes)

Cancan no início do século XXI 

As grandes novidades da moda,
na Primaz

As lojas num anúncio 
de Abril de 1974

Um quarteirão de elegância no Rossio

A sucursal da Avenida de Roma 

A horrível aridez do actual Rossio.
Da Primaz, resta 
o espectro de um alpendre




sábado, 13 de junho de 2026

ACHILLES: O FOTÓGRAFO DAS CRIANÇAS DE LISBOA

Durante mais de meio século, o nome de Achilles (Aquiles Friscioni) foi familiar para todos os moradores da Avenida Almirante Reis. Antigo empregado da célebre Photographia Camacho (instalada no edifício dos Grandes Armazéns do Chiado), abriu estabelecimento próprio em 1898, precisamente o ano da morte de João Francisco Camacho. Nos primeiros cartões do novo atelier fazia questão de anunciar essa origem profissional, apresentando-se como «Empregado da Photographia Camacho», uma referência que o público reconhecia de imediato. Era o especialista em retratos infantis do estúdio, e fotografou toda uma geração de crianças lisboetas, incluindo Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.


Aquiles esperava suceder ao fundador da casa Camacho. A morte deste, em Setembro de 1898, levou porém a que o negócio permanecesse na esfera familiar, embora o filho tivesse já outro estúdio profissional. A sua oferta pelo trespasse do atelier do Chiado foi recusada, e Aquiles estabeleceu-se por conta própria. Recuperou a carteira de clientes que o conheciam e o  êxito do estabelecimento foi muito rápido.

A morada da Rua dos Anjos, n.º 36, (no núcleo urbano do Largo do Intendente Pina Manique) tornou-se ponto de encontro para todos os habitantes de Lisboa oriental. Em 1903, a Photographia Achilles expandiu-se para a loja com o número 7 do largo. Era um edifício de grande visibilidade, cuja fachada ostentava enormes inscrições publicitárias anunciando retratos, ampliações e processos fotográficos modernos.

O local não foi escolhido por acaso. O Intendente era o eixo de saída de Lisboa pela Rua dos Anjos e as estradas de Arroios e de Sacavém. Zona muito movimentada da cidade, mantinha também uma ligação histórica ao ensino secundário lisboeta. No antigo Palácio do Intendente funcionava o Liceu Central de Lisboa, antecessor do actual Liceu Passos Manuel. Aquiles tornou-se conhecido como o fotógrafo dos estudantes, numa época em que os alunos dos liceus ainda usavam capa e batina. Muitos dos seus clichés mostram rapazes de capa, retratos de fim de curso e jovens que procuravam assinalar fotograficamente uma etapa importante da vida escolar.

A maior especialidade da casa eram os retratos de crianças. Aquiles parecia possuir um raro talento para as fotografar. Numa época em que as exposições ainda exigiam paciência e imobilidade, conseguiu conquistar a confiança das famílias lisboetas. 

Os álbuns da minha família, residente na Avenida desde a segunda década do século XX, mostram bebés, crianças pequenas, primeiras comunhões, retratos escolares e adolescentes, acompanhando os mesmos clientes ao longo de muitos anos. Mais do que um fotógrafo ocasional, Aquiles é, neles, um cronista da infância lisboeta. Em 1907, o atelier passou para a Avenida Rainha D. Amélia, mais tarde Avenida Almirante Reis, n.º 1-E, onde continuou a funcionar durante sete décadas. Na nova morada, passou a revelar rolos fotográficos alheios, a  fazer ampliações e reproduzir retratos para sucessivas gerações de clientes. O nome do fundador tornou-se marca da cidade. As amplicópias e ampliações, mate ou esmaltadas, dos negativos da kodak da família trazem também esse carimbo: Achilles, Avenida Almirante Reis.

Todos os meus tios passaram pela objectiva de Aquiles. A  primeira fotografia do meu pai, ainda bebé, foi ali feita. Gerações de de bebés, crianças de laço, meninos vestidos à maruja, estudantes de viola e jovens sorridentes. São dezenas de imagens espalhadas por várias décadas, testemunhando uma fidelidade que não era exclusiva da nossa família. A minha avó resumia tudo numa frase simples que repetia todos os anos, quando se aproximava o mês de Outubro: «Vão começar as aulas, têm de ir ao Achilles.»

Hoje, poucos se lembram dos ‘fotógrafos de crianças’. O local onde Achilles trabalhou continua a existir. A zona envidraçada da actual Cervejaria Ramiro ocupa o espaço do antigo atelier de ‘luz natural’, na Avenida Almirante Reis. O arquivo fotográfico camarário é mesmo ali ao pé, mas as teses conhecidas põem o Achilles como fotógrafo pouco importante e desaparecido na década de 1930. Ainda tirei lá o meu ‘retrato infantil’ antes de, em 1970, passarmos todos para a Foto-Esmalte Lisbonense, algumas portas mais acima. Olho para o velho estúdio sempre que desço a pé a nossa Avenida. Fotografo-o muitas vezes. Onde agora se guardam mariscos, entrava a claridade ideal para fotografar crianças e estudantes. Foi ali que ficaram registadas as memórias de milhares de famílias lisboetas.


Marina Tavares Dias






sábado, 6 de junho de 2026

 

Este raríssimo postal ilustrado documenta a transferência da histórica camisaria de Avelino de Magalhães Pitta para a Rua Augusta. 'O Pitta' sempre foi uma referência da elegância lisboeta, e este documento revela mais sobre a sua história que as actuais informações hoje online, fontes de repetição sem verificação documental.

A camisaria foi fundada em 1885, na Rua de São Julião, por Avelino de Magalhães Pitta, comerciante lisboeta cujo nome surge frequentemente abreviado como A. M. Pitta. Sei que era filho de José Rodrigues Pitta e de Josefa Maria de Magalhães,e a sua figura permaneceu durante décadas simbolicamente presente na loja, através de um retrato emoldurado, mesmo quando já poucos conheciam a sua identidade completa.

Em 1902, Avelino de Magalhães Pitta surge como solicitando obras no edifício da Rua Augusta, data que coincide com a mudança da camisaria para a morada que a tornaria célebre. A fachada representada neste postal — ainda nova, cuidadosamente preparada para a fotografia promocional — exibe a designação «CAMISEIRO» em destaque, com o apelido PITTA funcionando quase como assinatura de qualidade. O enquadramento frontal, as montras meticulosamente organizadas e a figura colocada à entrada revelam claramente uma imagem concebida para anunciar a nova instalação da firma aos seus clientes.

Nos últimos anos da Monarquia Constitucional, a casa consolidou reputação de excelência no vestuário masculino como fornecedora do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Integrava o restrito círculo de estabelecimentos associados à elegância da corte lisboeta, e a ligação à Família Real tornou-se uma das marcas da sua identidade.

Tudo o que hoje se lê on-line repete as mesmas informações, muitas vezes com datas contraditórias e erros que foram sendo copiados de texto para texto. A cronologia da mudança para a Rua Augusta aparece frequentemente deturpada por sucessivos «copy-paste», fenómeno agravado pelo desaparecimento do arquivo histórico da empresa (estava depositado num cofre do Chiado e ardeu em 1988), pela perda da memória familiar e e pelo trespasse da casa, em 1977 (para um antigo empregado). 

Depois de mais de 130 anos de actividade, a histórica camisaria encerrou definitivamente em 31 de Maio de 2018. Nem a integração no programa municipal das Lojas com História conseguiu evitar o desaparecimento da casa, considerada por muitos a mais antiga camisaria da Península Ibérica. A fachada histórica da Rua Augusta foi preservada, mas o interior perdeu a função que lhe dera fama durante mais de um século.

O Pitta Camiseiro chegou também ao cinema português. Em 'O Costa do Castelo' (de Arthur Duarte, 1943), num diálogo frequentemente citado de forma errada, António Silva, ao tocar no tecido de uma camisa de seda, exclama simplesmente:

«Isto é Pitta!»

A frase bastava para o público compreender imediatamente a referência. Numa Lisboa onde o nome da camisaria era sinónimo de qualidade, não era necessária qualquer explicação adicional.





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domingo, 8 de março de 2026

A BAIXA QUE CONHECI por MARINA TAVARES DIAS

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.








domingo, 8 de setembro de 2019

OS SALDOS DA LOJA DAS MEIAS

Nos anos 70, a maior confusão do Rossio eram os saldos da Loja das Meias. Para perceber a enorme afluência de público, em fila desde o Terreiro do Paço, é preciso compreender que eram então os representantes exclusivos de muitas marcas da alta moda internacional que mais tarde teriam loja, stand ou balcão próprio noutros locais. Nessa altura, para roupa de marca, ia-se ao Rossio. Na madrugada anterior à abertura, toda a gente trazia de olho uma ou mais peças que, nessa altura, estariam a 50 por cento do inalcançável preço habitual. A partir das 9 da manhã, a polícia controlava entradas e saídas. As enormes montras ofereciam espectáculo a quem passasse no Rossio: inúmeras pessoas a puxarem por bocados de tecido, tentando agarrar um vestido ou um casaco antes do cliente ao lado. Estava tudo amontoado na zona das montras e era comum haver quem puxasse pelas duas pontas da mesma peça, com resultado previsível.

A Loja das Meias nasceu em 1864, quando Joaquim António Vieira abriu o estabelecimento no local onde até então funcionara um talho. Em 1904 foi remodelada e especializou-se no comércio de meias, actividade que lhe deu o nome definitivo. O sucesso levou à ampliação do estabelecimento, que passou a ocupar também o primeiro andar. Em 1931, Raul Lino desenhou uma nova fachada, hoje recordada como uma das mais elegantes do Rossio.

Mas foi outra imagem que ficou gravada na memória de várias gerações. Em 1960, uma profunda remodelação, da autoria do arquitecto Carlos Tojal, substituiu a obra de Raul Lino para maior aparato dos grandes panos envidraçados. Ficou uma fachada pesada, pouco feliz esteticamente, mas foi essa que assistiu aos anos dourados da Loja das Meias. No interior, sobreviveram até ao encerramento os grandes painéis decorativos de Querubim Lapa, integrados na remodelação de 1960.

A empresa expandiu-se, abrindo lojas no Centro Comercial Castil (1971), nas Amoreiras (1985) e em Cascais (1995). Em 1999, a fachada recente foi demolida e substituída por uma reconstituição inspirada na de Raul Lino, devolvendo ao edifício imagem próxima da que tivera antes de 1960. O estabelecimento histórico acabaria por encerrar em 2007. Continua a sua história já longe do Rossio. Para muitos lisboetas, a Loja das Meias permanece ali, onde agora está a Benetton, naquela esquina da multidão por trás dos enormes vidros. A fabulosa loja do grande espectáculo dos saldos que fascinava a cidade inteira.


Marina Tavares Dias 





Interiores com
decoração de Querubim Lapa 


Fachada da Loja das Meias 
no início do século XX 


A fachada de Raul Lino 
(Fotografia de Mestre Horácio Novaes)

Interior da Loja das Meias em 1925
(Arquivo da loja)





Interiores na década de 1960

À esquina da Loja das Meias (1989)

Loja das Meias em 1989