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quinta-feira, 18 de junho de 2026

AS SEMENTES DE SOARES & REBELO

Foi uma das fachadas comerciais mais bonitas da Baixa. Fundada em 1935 por Edmundo Luiz Soares e Manuel Martins Rebelo, a Soares & Rebelo permaneceu, durante quase nove décadas, uma das casas mais características de Lisboa. Inicialmente na Rua dos Correeiros, expandiu-se rapidamente para o gaveto da Rua do Amparo (Praça da Figueira), onde permaneceu até 2022.

A localização não era casual. Na época, a Praça da Figueira era ainda dominada pelo grande mercado que abastecia Lisboa. Por ali passavam diariamente lavradores, horticultores, vendedores de flores e comerciantes vindos dos arredores da capital. A Casa das Sementes encontrou nesse movimento constante de gente ligada à terra o ambiente ideal para desenvolver a sua actividade. A ligação ao mercado foi tão forte que a loja permaneceu, até ao fim, como um dos últimos testemunhos visíveis da vocação agrícola e abastecedora daquela zona da cidade.

Desde cedo, a empresa distinguiu-se pela importação directa de sementes provenientes da Holanda, França e Estados Unidos, pela venda por correspondência e pela preocupação com a selecção dos produtos comercializados. 

Num folheto publicado cerca de 1945, a firma afirmava possuir terrenos próprios para ensaio e cultura de sementes na Quinta do Pinhal Verde, em Caneças, onde experimentava variedades nacionais e estrangeiras antes de as colocar à venda. Apresentava-se, assim, não apenas como uma loja, mas como uma verdadeira casa especializada em horticultura.

A marca “Hortelão” tornou-se a sua imagem de referência. Primeiro representada por um hortelão masculino, símbolo do agricultor e do trabalho da terra, passou mais tarde a ser acompanhada por uma figura feminina carregando uma cesta de flores, frutos e hortaliças. 

Ambas as personagens vieram a figurar nos célebres painéis decorativos da fachada, executados sobre vidro e durante décadas um dos elementos mais emblemáticos da loja. Já bastante degradados nos últimos anos de funcionamento, constituíam um raro exemplo da publicidade comercial tradicional que outrora caracterizava a Baixa de Lisboa.

Embora continuasse a servir horticultores e pequenos agricultores, a Soares & Rebelo adaptou-se aos tempos. Em finais da década de 1990, uma parte significativa das vendas era feita por correspondência, incluindo numerosas encomendas enviadas para os países africanos de língua portuguesa. Comércio discreto que conservava uma rede de clientes espalhada muito para além da Baixa.

Quando encerrou portas, em 2022, desapareceu uma das últimas ligações físicas à antiga Praça da Figueira das bancas, das hortas e dos vendedores que durante séculos abasteceram Lisboa.


Marina Tavares Dias 


A loja em 2005

A loja em 1945


O hortelão, 
primeiro símbolo da casa


A vendedeira,
publicidade célebre 
da década de 50







terça-feira, 17 de setembro de 2013

A SEGUNDA DESTRUIÇÃO DA PRAÇA DA FIGUEIRA NO ANO 2000

Ao longo de todo o ano 2000 o subsolo da Praça da Figueira, riquíssimo em património arqueológico, foi destruído para construção de um parque de estacionamento.
Desapareceram vestígios do Hospital Real de Todos os Santos (anterior a 1755), de edificações do período árabe e do período romano, assim como testemunhos de que, há milénios, o rio subia até esta zona.

No meio do entulho, a autora recolheu algum «lixo»: conchas fossilizadas, fragmentos de pratos romanos e bocados dos tijolos do Hospital. (fotografia de Marina Tavares Dias, 2002)



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Varininha


Varininha, por Stuart Carvalhaes. Com pregão anexo.

Em Lisboa Misteriosa,
de Marina Tavares Dias,
capítulo «As Varinas Eram Fenícias?»

terça-feira, 5 de abril de 2011

Praça da Figueira


Praça da Figueira. O antigo mercado, demolido em 1949. Postal ilustrado antigo, escolhido para ilustrar a capa do primeiro volume de «Lisboa Desaparecida», em 1987.

terça-feira, 21 de abril de 2009

TEXTO PUBLICADO NO «JORNAL DE LETRAS»
EM 1997, MARCANDO
A PRIMEIRA DÉCADA
DA PUBLICAÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO.


A "Lisboa Desaparecida" completa a sua primeira década. Pedem-me agora que sobre ela escreva, o que se me afigura tarefa espinhosa: nunca tal fiz, ao longo de todo este tempo.
[.../...]

Naquela época, julguei fácil convencer uma editora a investir nos textos do "Popular" (alguns, entretanto, publicados também no "Expresso"), porque contavam já com o que eu julgava ser um público fiel. Ninguém embandeirou em arco, houve hesitações e recusas até ao dia em que, sentada à minha secretária na Redacção, recebi uma chamada: "Somos uma editora nova e gostamos imenso das suas páginas de Sábado". Meses depois, eu e essa "editora nova" estávamos a lançar o primeiro volume da "Lisboa Desaparecida" no Café Nicola.

Passaram 10 anos. Muito pouco daquilo que era o meu estilo desse tempo (aos vinte e poucos anos) permanece. Muito pouco do que foram as motivações iniciais é hoje prioritário. Desapareceu o "Diário Popular" - o seu público fiel onde estará? -, a enorme Redacção em «open-space» (como agora é moda dizer-se) está vazia, o precioso arquivo talvez perdido. O Bairro Alto deixou de ser o bairro dos jornais e os diários vespertinos cumpriram o seu ciclo temporal. Agora, existe mesmo uma "Lisboa Desaparecida" onde eu vivi. [...]abordei-a ao de leve no volume IV, como parte da história da cidade. E, pela primeira vez, terei então dado razão aos que - sem a terem lido - diziam ser esta uma "Lisboa" saudosista. Agora, talvez até seja. Para fugir a isso, à medida que o tempo passa, a investigação vai assumindo uma postura que alguns dos leitores antigos me dizem ser "demasiado séria": «Pois não é que você escreveu um texto com notas de rodapé? - E ainda tem lata de dizer que este livro serve para divulgar a história da cidade e que é escrito para todos os lisboetas?»
Assim o quis, de facto. E nunca os lisboetas me desapontaram.

Marina Tavares Dias