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sábado, 22 de outubro de 2022

A TORROAES DA RUA DA PRATA

 Fundada em 1909, no número 123 da Rua da Prata, a Ourivesaria e Relojoaria Torroaes era a obra sonhada de António de Sousa Torroaes. Aos 33 anos de idade, aventurou-se sozinho no ramo. Formado na prática do ofício, trabalhara desde os 13 em relojoaria, fazendo aprendizagem durante quase duas décadas na prestigiada Casa Angulo (da família Angulo e também na Rua da Prata). 

Em 1921, já com o negócio em expansão, instalou no número 119 uma oficina independente de relojoaria e criou secções independentes de ourivesaria e de pratas. António de Sousa Torroaes não chegou a assistir ao apogeu da empresa: morreu em 1928, deixando a casa ao filho, Raul de Sousa Torroaes.

Sob a direcção deste, a firma continuou a expandir-se. Em 1930, a oficina foi transferida para novas dependências no mesmo edifício e em 1936 fixou-se definitivamente no terceiro andar do número 133 da Rua da Prata. Três anos mais tarde (1939) foram inauguradas novas instalações comerciais dos números 127 a 131, que, juntamente com o 123, formavam um vasto conjunto dedicado à relojoaria, ourivesaria, pratas e joalharia. 

A fachada, de três característicos (inicialmente, eram cinco) letreiros vermelhos, arqueados, em bandeira de porta, com as palavras «Relojoaria», «Torroaes» e «Ourivesaria», transformou-se numa das imagens mais reconhecíveis da Rua da Prata. A casa era frequentemente incluída no chamado 'Livro de Our do Comércio' como uma das mais prestigiadas relojoarias portuguesas. À semelhança de algumas (poucas) congéneres, comecializava marca própria de relógios, a Torris Watch.

A 17 de Dezembro de 1976 foi constituída a sociedade Relojoaria e Ourivesaria Torroaes, Lda. ('Diário da República'), ainda instalada na mesma morada. A data do encerramento nunca foi oficializada. Fechou portas no final da década de 1980, mantendo a indicação de que reabriria, até ser declarada falência da firma, no princípio dos anos 90. Durante muito tempo, já sem actividade, a antiga fachada permaneceu abandonada e degradada, conservando ainda os seus antigos letreiros vermelhos sobre as portas, sobreviventes como um dos últimos vestígios da velha Baixa comercial. Oedifício acabou por ser ‘recuperado’, desaparecendo também essa memória. Durante quase um século, a Torreaes foi uma das mais importantes casas de relojoaria e ourivesaria de Lisboa.

O primo do fundador, Fernando de Sousa Torroaes, abriu em 1918 (com Felizardo Augusto Abranches) a Ourivesaria e Relojoaria F. de Sousa Torroaes, na Rua de São Paulo número 106 (firma Sousa & Abranches, Lda.). Também esta última acabou abandonada, com a fachada em ruínas durante anos, perante a indiferença de quem passava.


Marina Tavares Dias 




sábado, 15 de março de 2014

EÇA DE QUEIROZ E OS OURIVES DA RUA DO OURO






Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.


EÇA DE QUEIROZ

in
Singularidades de Uma Rapariga Loura

citação para roteiro queirosiano em

A LISBOA DE EÇA DE QUEIROZ


de MARINA TAVARES DIAS

sábado, 8 de março de 2014

Rua da Prata. Quem a viu; quem a vê

Em: «Lisboa nos Passos de Pessoa»,
de 
Marina Tavares Dias

Fernando Pessoa, cujo domínio absoluto da língua inglesa, raríssimo na Lisboa da primeira metade do século, é cartão de visita em qualquer empresa da capital, transforma-se numa ajuda preciosa para a gerência de muitos escritórios. Adianta correspondência, estabelece contactos internacionais, ajuda no expediente geral. Recusa sempre um emprego fixo. A sua prioridade absoluta é, desde muito cedo, a obra literária. Aqui e ali, entre duas traduções, vai aproveitando a máquina para escrever outras coisas: o “Livro do Desassossego”, por exemplo, é parcialmente concebido na Baixa, sobretudo no primeiro andar da Ourivesaria Moitinho, em cujo escritório trabalha ao longo de mais de uma década.
MARINA TAVARES DIAS