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sexta-feira, 15 de maio de 2026

A FADISTA MARIA VICTORIA

 Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.

Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.

Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.

Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.

Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.

A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia. 

Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.

Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.

O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.

Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.

A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa. 

Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

O INESQUECÍVEL ACTOR TABORDA

 O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.

Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.

Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil. 

O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.

Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.

Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.

Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.





domingo, 8 de março de 2026

A BAIXA QUE CONHECI por MARINA TAVARES DIAS

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.








quarta-feira, 5 de março de 2025

LISBOA, 1940

 «A Exposição do Mundo Português será a coroa de glória das opções assumidas por Ferro e apenas esboçadas anos antes, quer na Exposição Industrial do Porto quer na Internacional de Paris, em 1937, onde o pavilhão concebido pelo jovem arquitecto Keil do Amaral rompia com tudo aquilo que, até então, Portugal apresentara ao estrangeiro. No guia da Exposição do Mundo Português, o comissário Augusto de Castro escreve: "Sendo um olhar lançado sobre o passado, [a exposição] não terá um carácter exclusivamente erudito - e muito menos arqueológico. Deverá ser, ao contrário, uma lição de energia, uma perspectiva do génio português através de todos os estímulos de grandeza, um balanço de forças espirituais." Outros panfletos salientam tratar-se da primeira grande exposição histórica do Mundo. Esse mesmo mundo agora - historicamente - em guerra, ajuda a gerar, à volta desta paz sacralizante e sacralizada, o ambiente fictício dum paraíso do absurdo. »

(...)
Continua no livro «Lisboa nos Anos 40, Longe da Guerra»



Imagem do livro, fotografia de Mestre Horácio Novaes.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Avenida Duque de Ávila


Lisboa já se estendeu para norte. Ao Passeio Público, a Avenida da Liberdade passara-lhe por cima para ir dar à Rotunda. A partir daí (menos ambiciosas na sua largueza), diversas avenidas se abriram e, a seguir à (mais modesta) rotunda do Saldanha, nelas outras se cruzaram: as Avenidas Novas. Como esta ainda tão pacata e quase provinciana Avenida Duque de Ávila que aqui vemos, já percorrida por eléctricos, cujos fios, porém, são consertados, ainda, por carros puxados a cavalo.

Puxada a cavalo segue também, na outra via, uma carroça. O mundo - dir-se-ia - caminhava em frente e direito a nós. Equilibrado, embora, em dois pés: o passado e o presente. No meio, estão as poucas gentes que passam, insensíveis decerto à concomitância da História. Só os dois miúdos estacaram. Olhos postos no fotógrafo e no futuro.




sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

A FEIRA DA LADRA EM POSTAIS



Marina Tavares Dias em «Os Melhores Postais de Lisboa»:

Não é o mais raro postal da Feira da Ladra, mas é, sem dúvida, o mais apelativo. Mostra a zona compreendida entre o Arco de S. Vicente e o Mercado de Santa Clara, onde ainda hoje se reúnem feirantes. As bancas especializavam-se, sobretudo, em móveis e livros usados. Também não é de crer que o jovem que posa, quase ao centro da imagem, estivesse munido de cartão de estudante. Esta é a Feira tradicional, à margem de burocracias. Apesar dos eventuais objectos roubados, era um lugar pacato, onde quase todos se conheciam.





domingo, 6 de outubro de 2024

COLUNAS AO CONTRÁRIO

NA RUA DA MOURARIA

O Colégio dos Meninos Órfãos foi construído em 1273, por iniciativa da Rainha D. Brites, mulher de D. Afonso III. Muito mais tarde, no século XVI, esteve sob protecção de D. Leonor, mulher de D. João III. Dessa data serão estas colunas posteriormente derrubadas pelo terramoto de 1755.
Quando o portal foi reconstruído, as colunas foram colocadas ao contrário: as bases em cima e os capitéis em baixo.
Assim podem ainda ver-se, no edifício que albergou a esquadra da Mouraria.




sexta-feira, 18 de novembro de 2016

NAVEGAR NO NIASSA

 O paquete Niassa, onde seguiram muitos militares portugueses rumo a Moçambique durante a Guerra Colonial, foi originalmente um navio civil de passageiros da Companhia Nacional de Navegação. Construído nos estaleiros Harland & Wolff, em Belfast (os mesmos de onde, em 1912, saíra o Titanic), entrou ao serviço em 1955, ligando Lisboa a Angola e Moçambique numa época em que as viagens marítimas ainda eram a grande ligação entre Portugal e o Ultramar. Tinha restaurantes, salões, convés de passeio e camarotes de várias classes, funcionando como verdadeiro transatlântico tropical do Estado Novo. 

Na fotografia, vê-se já a segunda vida do navio: a dos anos da guerra. centenas de soldados apinham-se nos conveses do Niassa durante a partida, enquanto famílias e amigos acenam do cais com lenços brancos. 

A partir de 1961, com o início da Guerra Colonial, o Niassa tornou-se um dos principais transportes de tropas para Angola, Guiné e Moçambique, realizando sucessivas viagens militares ao longo da década de 1960. Manteve durante anos muito do conforto e da atmosfera civil dos grandes paquetes portugueses, criando uma sensação quase irreal para os soldados: viajavam para a guerra em salões de navio com a elegância das rotas coloniais. 

Após o 25 de Abril, com o fim do império português em África, o Niassa participou no transporte de civis regressados das ex-colónias. Pouco depois, foi vendido ao estrangeiro, mudando várias vezes de nome até acabar desmantelado em Taiwan, em 1985. 

Para toda uma geração, o nome Niassa ficou ligado a esta imagem da despedida no cais: o último olhar para Portugal antes da travessia rumo à guerra.





quinta-feira, 18 de março de 2010

OS TÁXIS DO ROSSIO




 

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.
É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.
O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.
Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.
A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.