sexta-feira, 10 de julho de 2026

OS SALDOS DA LOJA DAS MEIAS

Nos anos 70, a maior confusão do Rossio eram os saldos da Loja das Meias. Para perceber a enorme afluência de público, em fila desde o Terreiro do Paço, é preciso compreender que eram então os representantes exclusivos de muitas marcas da alta moda internacional que mais tarde teriam loja, stand ou balcão próprio noutros locais. Nessa altura, para roupa de marca, ia-se ao Rossio. Na madrugada anterior à abertura, toda a gente trazia de olho uma ou mais peças que, nessa altura, estariam a 50 por cento do inalcançável preço habitual. A partir das 9 da manhã, a polícia controlava entradas e saídas. As enormes montras ofereciam espectáculo a quem passasse no Rossio: inúmeras pessoas a puxarem por bocados de tecido, tentando agarrar um vestido ou um casaco antes do cliente ao lado. Estava tudo amontoado na zona das montras e era comum haver quem puxasse pelas duas pontas da mesma peça, com resultado previsível.

A Loja das Meias nasceu em 1864, quando Joaquim António Vieira abriu o estabelecimento no local onde até então funcionara um talho. Em 1904 foi remodelada e especializou-se no comércio de meias, actividade que lhe deu o nome definitivo. O sucesso levou à ampliação do estabelecimento, que passou a ocupar também o primeiro andar. Em 1931, Raul Lino desenhou uma nova fachada, hoje recordada como uma das mais elegantes do Rossio.

Mas foi outra imagem que ficou gravada na memória de várias gerações. Em 1960, uma profunda remodelação, da autoria do arquitecto Carlos Tojal, substituiu a obra de Raul Lino para maior aparato dos grandes panos envidraçados. Ficou uma fachada pesada, pouco feliz esteticamente, mas foi essa que assistiu aos anos dourados da Loja das Meias. No interior, sobreviveram até ao encerramento os grandes painéis decorativos de Querubim Lapa, integrados na remodelação de 1960.

A empresa expandiu-se, abrindo lojas no Centro Comercial Castil (1971), nas Amoreiras (1985) e em Cascais (1995). Em 1999, a fachada recente foi demolida e substituída por uma reconstituição inspirada na de Raul Lino, devolvendo ao edifício imagem próxima da que tivera antes de 1960. O estabelecimento histórico acabaria por encerrar em 2007. Continua a sua história já longe do Rossio. Para muitos lisboetas, a Loja das Meias permanece ali, onde agora está a Benetton, naquela esquina da multidão por trás dos enormes vidros. A fabulosa loja do grande espectáculo dos saldos que fascinava a cidade inteira.


Marina Tavares Dias 





Interiores com
decoração de Querubim Lapa 


Fachada da Loja das Meias 
no início do século XX 


A fachada de Raul Lino 
(Fotografia de Mestre Horácio Novaes)

Interior da Loja das Meias em 1925
(Arquivo da loja)





Interiores na década de 1960

À esquina da Loja das Meias (1989)

Loja das Meias em 1989






sábado, 4 de julho de 2026

O GRANDE AMARANTE

Em Setembro de 1915, quando o escândalo provocado pela revista Orpheu ainda dominava as conversas de Lisboa, Estevão Amarante já fazia rir o público do Éden com uma rábula inspirada nas "poesias do Orfeu". Um poema publicado no Correio Popular de 19 de Setembro desse ano elogiava o jovem actor e aludia precisamente às "poesias do Orfeu" como um dos temas do seu repertório humorístico, testemunho raro da forma como o Modernismo passou quase de imediato da polémica literária para o palco da revista.

Nascido em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1889, Estevão Amarante começou a representar ainda criança. Estreou-se em 1900 e passou por peças infantis e pelas barracas das feiras de Alcântara e Algés. Desenvolveu um raro talento para observar e imitar  tipos populares. A estreia profissional, em 1906 no Teatro Avenida, iniciou a carreira fulgurante que o transformou num dos actores mais populares do país.

Ao longo de mais de cinquenta anos, interpretou dezenas de personagens inesquecíveis, sobretudo no teatro de revista, na opereta e na comédia musicada. Com Luísa Satanella fundou uma das mais bem-sucedidas companhias do seu tempo, responsável por sucessivos êxitos que estiveram meses em cena, como João Ratão e Água-Pé. Mais tarde, integrou a companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, demonstrando também qualidades no teatro declamado. Terminou a carreira entre o palco e o cinema, participando, entre outros filmes, em O Grande Elias e O Hóspede do Quarto 13. Morreu subitamente num restaurante do Porto, a 6 de Dezembro de 1951, quando continuava em plena actividade artística. Há cerca de duas décadas e meia, comprei parte do seu espólio, cujas fotografias e documentos evidenciam a polivalência e a energia com que se dedicava a tudo.

As imagens mostram um jovem elegante, consciente da sua imagem pública, mas também o artista de grande versatilidade e entusiasmo e a sua carreira ao longo de décadas. Entre retratos de estúdio, inúmeras fotografias caracterizado para os mais diversos papéis, programas de teatro, postais ilustrados, partituras impressas, licenças profissionais de artista dramático, inscrições como cocheiro amador e até matrículas de motociclista com side-car, o espólio permite descobrir o homem por trás do actor. O Grande Amarante: curioso, moderno, apaixonado pela técnica e pelos novos meios de transporte e sempre disponível para experimentar novas personagens e novos desafios.


Marina Tavares Dias
















sábado, 27 de junho de 2026

MAISON LOUVRE, PRIMAZ, NAIA, CANCAN: ESTRELAS DA BAIXA

No Rossio de quando era criança, uma coisa fascinava tanto como os rituais de dar milho aos pombos ou de caminhar sobre as grelhas de drenagem da chuva. Era a encenação de alguns miúdos a ajeitarem a roupa, em frente de um grande espelho de toucador que, na fachada da Primaz, dizia assim: ‘Componha o nó da sua gravata.’ 


Maison Louvre, Primaz, Naia e CanCan contam, todas juntas, uma história secular da moda em Lisboa. Estão as quatro ligadas à figura de Manuel Fernandes Carreira, regressado do Brasil em 1919 e criador de um dos mais importantes grupos comerciais da Baixa. 


A primeira casa do grupo foi a Maison Louvre, fundada a 31 de Maio de 1920 (Rossio, números 106 e 107) pela firma Carreira, Nogueira & Santos, Lda. (Manuel Fernandes Carreira, António Nogueira da Silva e Manuel Gomes dos Santos). Na década de 40 era já considerada a ‘mais antiga casa dedicada exclusivamente a roupa para crianças’. Sob direcção de Manuel Fernandes Carreira, manteve durante décadas essa sólida reputação de referência nacional no sector.


A 23 de Dezembro de 1952, Manuel Fernandes Carreira associou-se a Alberto S. Rodrigues (ligado à portuense Linaldeia), para fundar, ali ao lado, a Camisaria Primaz (Rossio, números 114 e 115). Dedicava-se a camisaria fina e acessórios masculinos —  gravatas, meias, gabardines, etc. — e foi apresentada como um dos estabelecimentos mais modernos do ramo. O grupo expandiu-se depois para o mercado feminino. Em 1960, abriu a Naia (Rua do Carmo, 45), com o projecto entregue a Francisco Conceição Silva (1922-1982), arquitecto da grande renovação comercial lisboeta dos anos 60. Dois anos mais tarde (1962), surgiu a CanCan (Rossio, 118), igualmente por ele projectada. Os fundadores completavam o segmento feminino já iniciado, especializando-se em lingerie, camisas de noite, robes, pijamas e fatos de banho. A Cancan tornou-se rapidamente a loja de lingerie mais conhecida da Baixa. Era célebre o seu slogan de Verão, quando íamos comprar o bikini: «Já foste à CanCan?»


Ao longo das décadas seguintes, as quatro marcas funcionaram como grupo comercial, abrindo sucursais na Avenida de Roma, em Campo de Ourique, em Cascais e, muito mais tarde, até no Centro Comercial Colombo.


Em 2008, a insolvência da empresa proprietária do grupo determinou acelerada decadência das lojas que, durante décadas, tinham marcado o comércio elegante. Juntas, foram todo um centro comercial: Maison Louvre para as crianças, Primaz para os homens, Naia para a moda feminina e CanCan para a lingerie. As quatro com produtos, marca e etiqueta próprios.


Por trás dessas etiquetas  tão conhecidas na Lisboa de há meio século está o empresário Manuel Fernandes Carreira, fundador e padrinho da Maison Louvre de 1920. Não se imaginava o Rossio sem as lojas dele.



Marina Tavares Dias




'Componha o nó da sua gravata '

A Primaz na década de 1950

Maison Louvre: a casa-mãe

Cancan na década de 1960
(fotografia de Mestre Horácio Novaes)

Cancan no início do século XXI 

As grandes novidades da moda,
na Primaz

As lojas num anúncio 
de Abril de 1974

Um quarteirão de elegância no Rossio

A sucursal da Avenida de Roma 

A horrível aridez do actual Rossio.
Da Primaz, resta 
o espectro de um alpendre




sábado, 20 de junho de 2026

O RESTAURANTE PALMEIRA DA RUA DO CRUCIFIXO

Quando, na década de 1990, aluguei uma sala para escritório num prédio fronteiro da Rua do Crucifixo, era aqui que vinha almoçar. O Palmeira servia os melhores pastéis de bacalhau de Lisboa, acompanhados por imperiais tiradas a preceito e pela conversa habitual dos empregados, que conheciam pelo nome grande parte da clientela. 

Como tantos outros restaurantes da Baixa, era uma extensão dos escritórios vizinhos, e onde se trabalhava, se almoçava e encontravam amigos sem necessidade de marcar hora.

Ocupava o número 69 da Rua do Crucifixo. As listas da década de 1950 permitem corrigir uma informação muitas vezes repetida, nos últimos anos da casa: o Palmeira não foi fundado em 1954, como fazia supor o letreiro da fachada, mas sim em 1939. A data de 1954 assinalava apenas a entrada do novo proprietário e gerente, José de Almeida, que assumiu a exploração do estabelecimento em Março desse ano.

Palmeira era também o nome de um restaurante do Porto, ao qual esteve ligado durante algum tempo. Especializou-se desde o início na cozinha do Norte e na importação directa de vinhos verdes, tornando-se ponto de encontro obrigatório para muitos clientes oriundos do Entre-Douro-e-Minho que viviam ou passavam por Lisboa.

Costumava ser comparado com o famoso restaurante Dupont de Paris: um interior que pouco mudaria ao longo de mais de meio século, grandes arcadas sucessivas, pilares robustos. As abóbadas do salão principal permaneceram praticamente intactas até ao encerramento. Quando fotografei o restaurante nos seus últimos anos, reconheciam-se ainda os espaços representados nas imagens da década de 1950. José de Almeida, excelente profissional da restauração, foi responsável pelo modernizar da casa e aumento da sua popularidade. Possuía outro estabelecimento, o Palmeirinha Bar, situado na Rua da Conceição, n.º 32 (gaveto com a Rua dos Douradores), cuja gerência viria a entregar ao seu conterrâneo Manuel Ferreira de Oliveira.

Durante décadas, o Palmeira foi um restaurante da Baixa para as pessoas da Baixa. Assim foi até ao encerramento, no final de 2015. Era dos raros interiores comerciais de Lisboa que ainda conservava, quase sem alterações, atmosfera e funções que possuía nos anos quarenta e cinquenta do século XX. Gerações sucessivas de lisboetas sentaram-se sob as mesmas arcadas para fazer exactamente a mesma coisa: almoçar, beber, conversar, regressar ao trabalho. O encerramento da melhor casa de pastéis, numa década em que já proliferavam as actuais ‘fábricas de pastel de bacalhau’ com sabores inventados e absurdos, é mais que uma perda. É um símbolo de como Lisboa passou a sacrificar o genuíno para reinventar em ‘kitsch’ a sua própria história. 


Marina Tavares Dias 








Interior do restaurante na década de 1950





quinta-feira, 18 de junho de 2026

AS SEMENTES DE SOARES & REBELO

Foi uma das fachadas comerciais mais bonitas da Baixa. Fundada em 1935 por Edmundo Luiz Soares e Manuel Martins Rebelo, a Soares & Rebelo permaneceu, durante quase nove décadas, uma das casas mais características de Lisboa. Inicialmente na Rua dos Correeiros, expandiu-se rapidamente para o gaveto da Rua do Amparo (Praça da Figueira), onde permaneceu até 2022.

A localização não era casual. Na época, a Praça da Figueira era ainda dominada pelo grande mercado que abastecia Lisboa. Por ali passavam diariamente lavradores, horticultores, vendedores de flores e comerciantes vindos dos arredores da capital. A Casa das Sementes encontrou nesse movimento constante de gente ligada à terra o ambiente ideal para desenvolver a sua actividade. A ligação ao mercado foi tão forte que a loja permaneceu, até ao fim, como um dos últimos testemunhos visíveis da vocação agrícola e abastecedora daquela zona da cidade.

Desde cedo, a empresa distinguiu-se pela importação directa de sementes provenientes da Holanda, França e Estados Unidos, pela venda por correspondência e pela preocupação com a selecção dos produtos comercializados. 

Num folheto publicado cerca de 1945, a firma afirmava possuir terrenos próprios para ensaio e cultura de sementes na Quinta do Pinhal Verde, em Caneças, onde experimentava variedades nacionais e estrangeiras antes de as colocar à venda. Apresentava-se, assim, não apenas como uma loja, mas como uma verdadeira casa especializada em horticultura.

A marca “Hortelão” tornou-se a sua imagem de referência. Primeiro representada por um hortelão masculino, símbolo do agricultor e do trabalho da terra, passou mais tarde a ser acompanhada por uma figura feminina carregando uma cesta de flores, frutos e hortaliças. 

Ambas as personagens vieram a figurar nos célebres painéis decorativos da fachada, executados sobre vidro e durante décadas um dos elementos mais emblemáticos da loja. Já bastante degradados nos últimos anos de funcionamento, constituíam um raro exemplo da publicidade comercial tradicional que outrora caracterizava a Baixa de Lisboa.

Embora continuasse a servir horticultores e pequenos agricultores, a Soares & Rebelo adaptou-se aos tempos. Em finais da década de 1990, uma parte significativa das vendas era feita por correspondência, incluindo numerosas encomendas enviadas para os países africanos de língua portuguesa. Comércio discreto que conservava uma rede de clientes espalhada muito para além da Baixa.

Quando encerrou portas, em 2022, desapareceu uma das últimas ligações físicas à antiga Praça da Figueira das bancas, das hortas e dos vendedores que durante séculos abasteceram Lisboa.


Marina Tavares Dias 


A loja em 2005

A loja em 1945


O hortelão, 
primeiro símbolo da casa


A vendedeira,
publicidade célebre 
da década de 50







sábado, 13 de junho de 2026

ACHILLES: O FOTÓGRAFO DAS CRIANÇAS DE LISBOA

Durante mais de meio século, o nome de Achilles (Aquiles Friscioni) foi familiar para todos os moradores da Avenida Almirante Reis. Antigo empregado da célebre Photographia Camacho (instalada no edifício dos Grandes Armazéns do Chiado), abriu estabelecimento próprio em 1898, precisamente o ano da morte de João Francisco Camacho. Nos primeiros cartões do novo atelier fazia questão de anunciar essa origem profissional, apresentando-se como «Empregado da Photographia Camacho», uma referência que o público reconhecia de imediato. Era o especialista em retratos infantis do estúdio, e fotografou toda uma geração de crianças lisboetas, incluindo Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.


Aquiles esperava suceder ao fundador da casa Camacho. A morte deste, em Setembro de 1898, levou porém a que o negócio permanecesse na esfera familiar, embora o filho tivesse já outro estúdio profissional. A sua oferta pelo trespasse do atelier do Chiado foi recusada, e Aquiles estabeleceu-se por conta própria. Recuperou a carteira de clientes que o conheciam e o  êxito do estabelecimento foi muito rápido.

A morada da Rua dos Anjos, n.º 36, (no núcleo urbano do Largo do Intendente Pina Manique) tornou-se ponto de encontro para todos os habitantes de Lisboa oriental. Em 1903, a Photographia Achilles expandiu-se para a loja com o número 7 do largo. Era um edifício de grande visibilidade, cuja fachada ostentava enormes inscrições publicitárias anunciando retratos, ampliações e processos fotográficos modernos.

O local não foi escolhido por acaso. O Intendente era o eixo de saída de Lisboa pela Rua dos Anjos e as estradas de Arroios e de Sacavém. Zona muito movimentada da cidade, mantinha também uma ligação histórica ao ensino secundário lisboeta. No antigo Palácio do Intendente funcionava o Liceu Central de Lisboa, antecessor do actual Liceu Passos Manuel. Aquiles tornou-se conhecido como o fotógrafo dos estudantes, numa época em que os alunos dos liceus ainda usavam capa e batina. Muitos dos seus clichés mostram rapazes de capa, retratos de fim de curso e jovens que procuravam assinalar fotograficamente uma etapa importante da vida escolar.

A maior especialidade da casa eram os retratos de crianças. Aquiles parecia possuir um raro talento para as fotografar. Numa época em que as exposições ainda exigiam paciência e imobilidade, conseguiu conquistar a confiança das famílias lisboetas. 

Os álbuns da minha família, residente na Avenida desde a segunda década do século XX, mostram bebés, crianças pequenas, primeiras comunhões, retratos escolares e adolescentes, acompanhando os mesmos clientes ao longo de muitos anos. Mais do que um fotógrafo ocasional, Aquiles é, neles, um cronista da infância lisboeta. Em 1907, o atelier passou para a Avenida Rainha D. Amélia, mais tarde Avenida Almirante Reis, n.º 1-E, onde continuou a funcionar durante sete décadas. Na nova morada, passou a revelar rolos fotográficos alheios, a  fazer ampliações e reproduzir retratos para sucessivas gerações de clientes. O nome do fundador tornou-se marca da cidade. As amplicópias e ampliações, mate ou esmaltadas, dos negativos da kodak da família trazem também esse carimbo: Achilles, Avenida Almirante Reis.

Todos os meus tios passaram pela objectiva de Aquiles. A  primeira fotografia do meu pai, ainda bebé, foi ali feita. Gerações de de bebés, crianças de laço, meninos vestidos à maruja, estudantes de viola e jovens sorridentes. São dezenas de imagens espalhadas por várias décadas, testemunhando uma fidelidade que não era exclusiva da nossa família. A minha avó resumia tudo numa frase simples que repetia todos os anos, quando se aproximava o mês de Outubro: «Vão começar as aulas, têm de ir ao Achilles.»

Hoje, poucos se lembram dos ‘fotógrafos de crianças’. O local onde Achilles trabalhou continua a existir. A zona envidraçada da actual Cervejaria Ramiro ocupa o espaço do antigo atelier de ‘luz natural’, na Avenida Almirante Reis. O arquivo fotográfico camarário é mesmo ali ao pé, mas as teses conhecidas põem o Achilles como fotógrafo pouco importante e desaparecido na década de 1930. Ainda tirei lá o meu ‘retrato infantil’ antes de, em 1970, passarmos todos para a Foto-Esmalte Lisbonense, algumas portas mais acima. Olho para o velho estúdio sempre que desço a pé a nossa Avenida. Fotografo-o muitas vezes. Onde agora se guardam mariscos, entrava a claridade ideal para fotografar crianças e estudantes. Foi ali que ficaram registadas as memórias de milhares de famílias lisboetas.


Marina Tavares Dias