António Marrare, antigo copeiro napolitano dos marqueses de Niza, fundou quatro botequins, hoje muito confundidos entre si de cada vez que se fala dos cafés oitocentistas: o chamado Marrare de S. Carlos (na Rua Anchieta), o Marrare das Sete Portas (na Rua dos Sapateiros, ou Rua do Arco do Bandeira), o Marrare do Cais do Sodré (no número 9 da praça), e - finalmente - o mais célebre de todos, a inenarrável coroa de louros do Romantismo, o "botequim sem-par" cuja frequência valia um estatuto: o Marrare do Polimento, em pleno Chiado. Todos estes cafés tiveram inauguração no primeiro quartel do século XIX. O Marrare do Polimento, inaugurado no primeiro dia do ano de 1820, assumiu quase automaticamente a sua invejável notoriedade. Vendia-se ali a mais saborosa neve, o mais aromático café, a torrada mais estaladiça, o melhor champanhe francês. Franquear aquelas portas era, só por si, um estatuto. Lá dentro encontravam-se facilmente as tertúlias mais celebradas da época. Delas faziam parte Garrett, Herculano, Passos Manuel, Bulhão Pato, além dos elegantes membros de todas as "claques" de S. Carlos, combinando pateadas monumentais a qualquer rival da sua cantora favorita.
A fina-flor da geração "chiadense" frequentava os bailes das Laranjeiras e as noites de estreia em todos os teatros. Reunia-se com os políticos às mesas do café, escutando José Estevão conspirar contra os Cabrais e Passos Manuel em plena propaganda maçónica. Era a época em que uma primeira incursão no Marrare exigia apresentação feita por qualquer veterano da casa. Aos desconhecidos que ousavam o sacrilégio eram lançados olhares de alto a baixo, os criados não os serviam de pronto e alguns jovens “dandies” mais irreverentes chegavam a convidá-los a sair. Por isso, muitos pais de família aconselhavam os filhos a não passar ali à porta, e era comum ver burgueses atravessando para o passeio em frente, quando havia aglomerações à entrada do café.
O Marrare foi, nas palavras sabedoras de Tinop, “o primeiro parlatório e pasmatório do Chiado, o mais notável centro de parolagem da velha Olisipo”*, tendo desempenhado em Lisboa um papel semelhante ao do Tortoni em Paris. A inauguração aparece assim anunciada, na "Gazeta de Lisboa" de 8 de Janeiro de 1820: "António Marrare transferiu a sua loja de vinhos engarrafados, sita na Rua das Portas de Santa Catarina, número 33, ao Chiado, para a mesma rua, número 25, a qual se abriu no 1º do corrente, com todas as qualidades de vinhos engarrafados, licores, cervejas, etc." Ocupava a zona térrea – a “loja”, uma sobre-loja e todo o primeiro andar, este último destinado a habitação do botequineiro. Sigamos, pois, a descrição de Tinop:
“O napolitano António Marrare chegou a Lisboa na última década do século XVIII e embarcou para o Brasil, onde serviu de copeiro no quartel-general de Porto-Alegre em 1797. Regressando em 1800, fundou uma loja de bebidas e de conservas no prédio que torneja da Rua da Anchieta (antiga Rua da Figueira) para a Rua Capelo (antiga travessa da Parreirinha), defronte do Governo Civil. Principiou logo por fornecer o Botequim de S. Carlos. A loja em que estabeleceu o café e a conservaria fora anteriormente ocupada pelo bilhar e depósito de vinhos do francês Mr. Dique. Aquele café, denominado o Marrare de S. Carlos, foi o confluente dos noveleiros no tempo dos franceses e um centro de palestreiros em épocas posteriores.”*
A proximidade do Teatro de S. Carlos equivaleu, para António Marrare, a uma verdadeira especialização nos hábitos de ócio da Lisboa elegante. Rotundo, corado, sonolento, grande apreciador da farta cozinha italiana*, o botequineiro mais célebre de Lisboa pavoneava-se entre os elegantes de S. Carlos como peixe na água. Até 1828 foi ele quem esteve encarregue do fornecimento de bebidas e ceias ao próprio teatro, tendo ficado célebre o banquete ali dado pelo senado da Câmara na noite de 12 de Outubro de 1814. Marrare forneceu a comida, os refrescos e toda a decoração do salão nobre. Acabou perdido de amores por uma das bailarinas da companhia, Margarida Bruni, mais tarde empresária do próprio teatro.
Mas mesmo S. Carlos, na sua ofuscante glória de 1820, não constituía paralelo para aquele que em breve se tornou o mais conhecido ponto de reunião do Chiado: o Marrare do Polimento. Os lisboetas que, contrafeitos, já tinham sido – nos alvores do século – forçados a tomar por café mistelas horríveis, adulteradas com casca de piorno e fel de vaca, deliciavam-se agora com uma mistura mais aromática e agradável (embora as críticas à qualidade da infusão continuassem sempre). A principal mudança era a própria ambiência: em lugar dos bancos de pinho de antigas tascas do velho Chiado, havia agora mobiliário de luxo, sendo a bebida provada entre celebridades e servida por criados de libré em cafeteiras de prata. Zacarias de Aça escreveria mais tarde (1883), nos seus folhetins do “Diário da Manhã”, que “sem a consagração do Marrare do Polimento não havia talentos nesta terra, nem artistas que prestassem, nem governos sólidos, nem mulheres bonitas, nem touradas excepcionais”. As bebidas eram todas excepcionais, os gelados eram puros e “com o encanto indefinível da neve polar”*. O champanhe, nas suas garrafas interminavelmente alinhadas pelas prateleiras, era a própria sugestão das noitadas boémias. E o Marrare abrigou alguns janotas boémios que deram brado na Lisboa do seu tempo: Bernardino Ruffo, João Aboim, Duarte Sá e o célebre Lima da Cardiga, “estróina incomparável” no dizer de Tinop, que conheceu pessoalmente a Dama das Camélias (Marguerite Gautier) e distribuiu várias fortunas por inúmeras amantes e incontáveis cenas de bebedeira.
O fascínio póstumo exercido pelo Marrare surtiu o seu efeito na obra de Eça de Queiroz – que nem deve ter chegado a conhecer o café, cujo encerramento data precisamente do ano em que vem morar para Lisboa. É à mesa do Marrare que Pedro da Maia, pai do Carlos de “Os Maias”, inicia as noites de boémia após o desgosto pela morte da mãe, e nelas escreve depois as suas cartas de amor. Da porta do Marrare avista Pedro, pela primeira vez, Maria Monforte*. Este “flash-back” de quem, como Eça, nunca viveu os anos dourados do mais célebre café da Lisboa romântica, vale como prova do fascínio exercido pelo Marrare mesmo nas gerações posteriores ao seu encerramento.
Júlio César Machado, irónico, classifica o botequim como “uma espécie de monumento histórico” que Lisboa suporta porque não pode já passar sem ele. Um sítio “onde nem todos têm o direito de entrar, apesar de ser público”. E adianta que o direito a franquear as preciosas portas se adquire mediante a condição insubstituível de “ser um homem fora do comum”. A descrição seguinte é elucidativa: “Consideram-se homens fora do comum os homens de talento, os janotas, os ociosos puros e todos os exceptuados da sociedade constituída que descobriram modo de gastar dinheiro sem ter dinheiro, ir ao teatro sem comprar bilhete, ter fato sem o pagar, andar de sege sem saber a conta”.*
Esta aparente censura à dissolução dos costumes caía muito bem nos leitores duma Lisboa cinzenta, onde o Chiado acendia, sozinho, a luz do cosmopolitismo. Mas Júlio César Machado, também ele frequentador do Marrare, não chegava ao arrojo extremo de imaginar mulheres neste território exclusivamente masculino. “Homens fora do comum”; nunca mulheres. Quem poderia imaginá-las, por muito libertinas, à mesa do Marrare, entregues à boémia e ao jogo? – E, no entanto, as crónicas registaram pelo menos uma presença feminina entre os clientes do café. Era inglesa, visitou Lisboa em 1852 e chamava-se Julia Wilson. Miss Wilson vivia com o ministro da Áustria na corte portuguesa e frequentava amiúde as récitas de S. Carlos, onde alugara a frisa com o número 23. Era comum verem-na envergando trajes masculinos e usando bengala de estoque. No Marrare, apresentou-se do seguinte modo para um jogo de bilhar “entre homens”: calças à cavaleiro, sobrecasaca, bengala e chapéu à patuleia (estilo sombreiro). E apesar dos desacatos frequentes, pelos quais o café também era célebre, não constou para a posteridade que a presença da inglesa tivesse causado qualquer perturbação nessa noite.
Por morte do fundador, em 1839, passou o Marrare para a posse do sobrinho deste, José Marrare, que entregou o serviço de copa a Francisco Cagiani, outro italiano em tempos copeiro dos marqueses de Niza. Quando, após um breve aluguer a Matias Ferrari, o Marrare fechou definitivamente as portas, “a alma do Chiado cobriu-se de um véu de lágrimas”*. Foi em 1866. Pouco depois, abria no mesmo local a Sapataria Lourenço. Muito mais tarde, após arranjo da fachada ao estilo neo-clássico (por José dos Passos Mesquita), o antigo café albergou a primeira casa de modas Piccadilly, posteriormente transferida para o lado oposto da rua. E só em 1925 voltaria o som da cavaqueira e dos talheres, o aroma e o fumo do café e dos charutos a sair por aquelas portas, derramando-se sobre a rua agora com o nome de Garrett. De 1925 até 1963, o antigo Marrare reviveu brevemente, na vocação do Café Chiado. Hoje serve como balcão de atendimento de uma companhia de seguros. Mantém a fachada da casa Piccadilly e, no interior, conserva vários painéis de azulejos que adornaram as paredes do segundo café. Poucos lisboetas reconhecem nesses parcos vestígios o sortilégio sobrevivente duma era em que o Chiado e o próprio Marrare eram alma e transfiguração da cidade inteira.

























