terça-feira, 29 de setembro de 2026

O CAFÉ MARRARE DO POLIMENTO

 



António Marrare, antigo copeiro napolitano dos marqueses de Niza, fundou quatro botequins, hoje muito confundidos entre si de cada vez que se fala dos cafés oitocentistas: o chamado Marrare de S. Carlos (na Rua Anchieta), o Marrare das Sete Portas (na Rua dos Sapateiros, ou Rua do Arco do Bandeira), o Marrare do Cais do Sodré (no número 9 da praça), e - finalmente - o mais célebre de todos, a inenarrável coroa de louros do Romantismo, o "botequim sem-par" cuja frequência valia um estatuto: o Marrare do Polimento, em pleno Chiado. Todos estes cafés tiveram inauguração no primeiro quartel do século XIX. O Marrare do Polimento, inaugurado no primeiro dia do ano de 1820, assumiu quase automaticamente a sua invejável notoriedade. Vendia-se ali a mais saborosa neve, o mais aromático café, a torrada mais estaladiça, o melhor champanhe francês. Franquear aquelas portas era, só por si, um estatuto. Lá dentro encontravam-se facilmente as tertúlias mais celebradas da época. Delas faziam parte Garrett, Herculano, Passos Manuel, Bulhão Pato, além dos elegantes membros de todas as "claques" de S. Carlos, combinando pateadas monumentais a qualquer rival da sua cantora favorita.

A fina-flor da geração "chiadense" frequentava os bailes das Laranjeiras e as noites de estreia em todos os teatros. Reunia-se com os políticos às mesas do café, escutando José Estevão conspirar contra os Cabrais e Passos Manuel em plena propaganda maçónica. Era a época em que uma primeira incursão no Marrare exigia apresentação feita por qualquer veterano da casa. Aos desconhecidos que ousavam o sacrilégio eram lançados olhares de alto a baixo, os criados não os serviam de pronto e alguns jovens “dandies” mais irreverentes chegavam a convidá-los a sair. Por isso, muitos pais de família aconselhavam os filhos a não passar ali à porta, e era comum ver burgueses atravessando para o passeio em frente, quando havia aglomerações à entrada do café.

O Marrare foi, nas palavras sabedoras de Tinop, “o primeiro parlatório e pasmatório do Chiado, o mais notável centro de parolagem da velha Olisipo”*, tendo desempenhado em Lisboa um papel semelhante ao do Tortoni em Paris. A inauguração aparece assim anunciada, na "Gazeta de Lisboa" de 8 de Janeiro de 1820: "António Marrare transferiu a sua loja de vinhos engarrafados, sita na Rua das Portas de Santa Catarina, número 33, ao Chiado, para a mesma rua, número 25, a qual se abriu no 1º do corrente, com todas as qualidades de vinhos engarrafados, licores, cervejas, etc." Ocupava a zona térrea – a “loja”, uma sobre-loja e todo o primeiro andar, este último destinado a habitação do botequineiro. Sigamos, pois, a descrição de Tinop:

“O napolitano António Marrare chegou a Lisboa na última década do século XVIII e embarcou para o Brasil, onde serviu de copeiro no quartel-general de Porto-Alegre em 1797. Regressando em 1800, fundou uma loja de bebidas e de conservas no prédio que torneja da Rua da Anchieta (antiga Rua da Figueira) para a Rua Capelo (antiga travessa da Parreirinha), defronte do Governo Civil. Principiou logo por fornecer o Botequim de S. Carlos. A loja em que estabeleceu o café e a conservaria fora anteriormente ocupada pelo bilhar e depósito de vinhos do francês Mr. Dique. Aquele café, denominado o Marrare de S. Carlos, foi o confluente dos noveleiros no tempo dos franceses e um centro de palestreiros em épocas posteriores.”*

A proximidade do Teatro de S. Carlos equivaleu, para António Marrare, a uma verdadeira especialização nos hábitos de ócio da Lisboa elegante. Rotundo, corado, sonolento, grande apreciador da farta cozinha italiana*, o botequineiro mais célebre de Lisboa pavoneava-se entre os elegantes de S. Carlos como peixe na água. Até 1828 foi ele quem esteve encarregue do fornecimento de bebidas e ceias ao próprio teatro, tendo ficado célebre o banquete ali dado pelo senado da Câmara na noite de 12 de Outubro de 1814. Marrare forneceu a comida, os refrescos e toda a decoração do salão nobre. Acabou perdido de amores por uma das bailarinas da companhia, Margarida Bruni, mais tarde empresária do próprio teatro.

Mas mesmo S. Carlos, na sua ofuscante glória de 1820, não constituía paralelo para aquele que em breve se tornou o mais conhecido ponto de reunião do Chiado: o Marrare do Polimento. Os lisboetas que, contrafeitos, já tinham sido – nos alvores do século – forçados a tomar por café mistelas horríveis, adulteradas com casca de piorno e fel de vaca, deliciavam-se agora com uma mistura mais aromática e agradável (embora as críticas à qualidade da infusão continuassem sempre). A principal mudança era a própria ambiência: em lugar dos bancos de pinho de antigas tascas do velho Chiado, havia agora mobiliário de luxo, sendo a bebida provada entre celebridades e servida por criados de libré em cafeteiras de prata. Zacarias de Aça escreveria mais tarde (1883), nos seus folhetins do “Diário da Manhã”, que “sem a consagração do Marrare do Polimento não havia talentos nesta terra, nem artistas que prestassem, nem governos sólidos, nem mulheres bonitas, nem touradas excepcionais”. As bebidas eram todas excepcionais, os gelados eram puros e “com o encanto indefinível da neve polar”*. O champanhe, nas suas garrafas interminavelmente alinhadas pelas prateleiras, era a própria sugestão das noitadas boémias. E o Marrare abrigou alguns janotas boémios que deram brado na Lisboa do seu tempo: Bernardino Ruffo, João Aboim, Duarte Sá e o célebre Lima da Cardiga, “estróina incomparável” no dizer de Tinop, que conheceu pessoalmente a Dama das Camélias (Marguerite Gautier) e distribuiu várias fortunas por inúmeras amantes e incontáveis cenas de bebedeira.

O fascínio póstumo exercido pelo Marrare surtiu o seu efeito na obra de Eça de Queiroz – que nem deve ter chegado a conhecer o café, cujo encerramento data precisamente do ano em que vem morar para Lisboa. É à mesa do Marrare que Pedro da Maia, pai do Carlos de “Os Maias”, inicia as noites de boémia após o desgosto pela morte da mãe, e nelas escreve depois as suas cartas de amor. Da porta do Marrare avista Pedro, pela primeira vez, Maria Monforte*. Este “flash-back” de quem, como Eça, nunca viveu os anos dourados do mais célebre café da Lisboa romântica, vale como prova do fascínio exercido pelo Marrare mesmo nas gerações posteriores ao seu encerramento.

Júlio César Machado, irónico, classifica o botequim como “uma espécie de monumento histórico” que Lisboa suporta porque não pode já passar sem ele. Um sítio “onde nem todos têm o direito de entrar, apesar de ser público”. E adianta que o direito a franquear as preciosas portas se adquire mediante a condição insubstituível de “ser um homem fora do comum”. A descrição seguinte é elucidativa: “Consideram-se homens fora do comum os homens de talento, os janotas, os ociosos puros e todos os exceptuados da sociedade constituída que descobriram modo de gastar dinheiro sem ter dinheiro, ir ao teatro sem comprar bilhete, ter fato sem o pagar, andar de sege sem saber a conta”.*

Esta aparente censura à dissolução dos costumes caía muito bem nos leitores duma Lisboa cinzenta, onde o Chiado acendia, sozinho, a luz do cosmopolitismo. Mas Júlio César Machado, também ele frequentador do Marrare, não chegava ao arrojo extremo de imaginar mulheres neste território exclusivamente masculino. “Homens fora do comum”; nunca mulheres. Quem poderia imaginá-las, por muito libertinas, à mesa do Marrare, entregues à boémia e ao jogo? – E, no entanto, as crónicas registaram pelo menos uma presença feminina entre os clientes do café. Era inglesa, visitou Lisboa em 1852 e chamava-se Julia Wilson. Miss Wilson vivia com o ministro da Áustria na corte portuguesa e frequentava amiúde as récitas de S. Carlos, onde alugara a frisa com o número 23. Era comum verem-na envergando trajes masculinos e usando bengala de estoque. No Marrare, apresentou-se do seguinte modo para um jogo de bilhar “entre homens”: calças à cavaleiro, sobrecasaca, bengala e chapéu à patuleia (estilo sombreiro). E apesar dos desacatos frequentes, pelos quais o café também era célebre, não constou para a posteridade que a presença da inglesa tivesse causado qualquer perturbação nessa noite.

Por morte do fundador, em 1839, passou o Marrare para a posse do sobrinho deste, José Marrare, que entregou o serviço de copa a Francisco Cagiani, outro italiano em tempos copeiro dos marqueses de Niza. Quando, após um breve aluguer a Matias Ferrari, o Marrare fechou definitivamente as portas, “a alma do Chiado cobriu-se de um véu de lágrimas”*. Foi em 1866. Pouco depois, abria no mesmo local a Sapataria Lourenço. Muito mais tarde, após arranjo da fachada ao estilo neo-clássico (por José dos Passos Mesquita), o antigo café albergou a primeira casa de modas Piccadilly, posteriormente transferida para o lado oposto da rua. E só em 1925 voltaria o som da cavaqueira e dos talheres, o aroma e o fumo do café e dos charutos a sair por aquelas portas, derramando-se sobre a rua agora com o nome de Garrett. De 1925 até 1963, o antigo Marrare reviveu brevemente, na vocação do Café Chiado. Hoje serve como balcão de atendimento de uma companhia de seguros. Mantém a fachada da casa Piccadilly e, no interior, conserva vários painéis de azulejos que adornaram as paredes do segundo café. Poucos lisboetas reconhecem nesses parcos vestígios o sortilégio sobrevivente duma era em que o Chiado e o próprio Marrare eram alma e transfiguração da cidade inteira.



sábado, 26 de setembro de 2026

AS BARCAS DE BANHOS

 

A higiene é, na Lisboa do século XIX - e com base nos hábitos de asseio setecentistas -, uma extravagância. A maior parte das casas lisboetas não conhece compartimentos destinados ao banho; os balneários públicos são raros. Assim, recomendam-se, como profilácticas, as águas do rio. E - mais do que as praias - as barcas, que vão até fora de pé, permitindo a imersão do corpo. A selha para banho não é objecto comum nas casas particulares. Quase sempre, existem apenas bacias, para lavagens locais, com múltiplos usos. O costume dos banhos no rio vulgariza-se, provocando algumas anedotas nas publicações da época: a água do Tejo, nessas escassas oportunidades de lavar o corpo, era o "banho usado ontem" por outros utentes das chamadas barcas de banhos.

Segundo Ramalho Ortigão, o Tejo "tranquilo, sereno como um lago", proporcionava "o melhor dos banhos, na maré enchente, para as crianças fraquinhas, para as mulheres débeis, fatigadas" (As Praias de Portugal, 1876). Confiantes nas virtudes do rio, as barcas fizeram época e história. Já nos primeiros anos de Oitocentos, elas ancoravam no Cais do Sodré, na Ribeira Nova ou na praia da Junqueira, esperando fregueses até perto do meio-dia. A época balnear começava só em Setembro, porque Agosto era, por excelência, o mês consagrado às quintas dos arredores saloios.




Barcas de banhos no Tejo 
(em: Sketches of Portuguese Life, 
Manners, Costume, and Character : 
illustrated by twenty coloured plates 
 by A. P. D. G.. - London,
printed for Geo. B. Whittaker 
 by R. Gilbert, St. 1826.)


Barca de banhos Gratidão
fundeada em Belém
(fotografia geralmente atribuída 
a Amedée de Ternante, c. 1858)


sábado, 19 de setembro de 2026

O BALÃO DO ARSENAL

Muito antes de Nova Iorque celebrar a passagem do ano com a descida da bola de Times Square, Lisboa tinha o seu próprio «balão do tempo». Todos os dias, à uma da tarde, uma esfera negra caía sobre o Arsenal da Marinha, anunciando a hora oficial da cidade e permitindo aos navios do Tejo acertar os cronómetros.

O Balão do Arsenal fazia parte do Observatório Astronómico da Marinha e destinava-se, sobretudo, à ajuda da navegação. Mas o sinal era igualmente utilizado por todos os relógios públicos e muitos dos relógios particulares da capital. Entrou em funcionamento em Novembro de 1858. O aviso publicado no ‘Diário do Governo’ de 9 desse mês informa que, todos os dias, o balão subiria a meio mastro quinze minutos antes da uma da tarde, elevar-se-ia ao topo cinco minutos antes e cairia exactamente quando o relógio do Observatório marcasse a uma hora média. Em dias nublados, quando não fosse possível determinar com rigor a passagem meridiana do Sol, o Observatório advertia que poderiam ocorrer pequenas diferenças na indicação da hora.

Desde a década de 1830 que os grandes portos marítimos adoptavam as chamadas ‘time balls’, esferas que caíam a uma hora rigorosamente determinada para que os navios pudessem acertar cronómetros de bordo. A mais famosa era a de Greenwich (ainda hoje em funcionamento), mas existiam outras em Portsmouth, Liverpool, Edimburgo, Hamburgo, Sydney, Cidade do Cabo, Hong Kong e muitas mais cidades portuárias. 

Este primeiro balão era extremamente simples, accionado manualmente por uma corda. Augusto Ramos Costa, vice-almirante, viria mesmo a classificá-lo como um «irrisório», acrescentando que o sistema era alvo de troça e descrédito, ao ponto de almanaques náuticos ingleses e franceses alertarem para a pouca confiança que mereciam os sinais horários de Lisboa.

A situação alterou-se com a inauguração, a 15 de Agosto de 1885, de novo balão, concebido sob direcção do oficial da Armada e engenheiro-hidrógrafo Frederico Augusto Oom (primeiro director do Real Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda). Junto ao dique do Arsenal, era uma notável obra de engenharia para a sua época. O mastro tinha sete metros de altura e o balão, pintado de negro, tinha um metro de diâmetro, pesando quase 24 quilos. Cinco minutos antes da hora era içado a meio mastro; nos três minutos seguintes subia lentamente até ao topo, onde permanecia até cair automaticamente, accionado por um contacto eléctrico vindo do Observatório da Ajuda e situado a cerca de quatro quilómetros.

Logo que o balão descia, ouviam-se muitos apitos das embarcações no Tejo, em manifestação festiva. Por breves instantes, aquilo animava a cidade. Estava previsto que a queda seria acompanhada por um enorme tiro, bastando ao oficial de serviço premir o botão eléctrico, mas esse complemento não chegou a generalizar-se. Quando o mecanismo falhava ou o mau tempo impedia o seu funcionamento, içavam um cilindro vermelho (aviso aos observadores de que o sinal não devia ser considerado válido).

Continuaram as críticas, porque muitos navios mercantes não conseguiam observar correctamente a queda, quer pela reduzida dimensão da esfera, quer porque esta se projectava sobre os telhados escuros do Arsenal. 

Augusto Ramos da Costa chegou a defender a transferência do sistema para a margem sul do Tejo, onde seria mais visível. Em 1911 foi nomeada uma comissão para estudar a substituição do Balão do Arsenal por sistema mais moderno. Entretanto, Portugal adoptava oficialmente o meridiano de Greenwich e reorganizava todo o serviço da hora legal. Segundo Augusto Vieira da Silva, o balão deu o seu último sinal às treze horas de 31 de Dezembro de 1915. Mário Costa chama contudo a atenção para uma gravura da Sala do Risco, realizada após o incêndio de 18 de Abril de 1916, onde o velho balão ainda aparece no seu lugar, sugerindo que a desmontagem não terá sido imediata. Sabe-se igualmente que o primeiro balão foi conservado como peça de museu na Sala do Risco, desaparecendo no incêndio.

A partir de 1914, a função de regulador da hora oficial passou gradualmente para o grande relógio do Cais do Sodré, ligado electricamente ao Observatório Astronómico. O Balão do Arsenal ficou como memória de uma Lisboa em que bastava olhar para o céu para acertar o relógio.


Marina Tavares Dias 




Balão do Arsenal
em 1887

 

Balão de Edimburgo

(litografia de 1861⁠)


Torre do balão de Deal, Kent 

(postal ilustrado, c. 1910)


'Time-ball’ de Boston, EUA, em 1881


Observatório de Greenwich, década de 1870.

No pequeno torreão, o balão e o seu mastro


Mecanismo dos 
balões das horas
(gravura oitocentista)






sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O TOLAN E A LISBOA DOS ANOS 80

«Pareces o Tolan», dizia-se, em Lisboa, de quem parecia apático ou indiferente. «Bodas à Tolan» eram de quem nunca mais casava. Perante qualquer coisa difícil, que não havia meio de acontecer, era: «Primeiro, ainda rebocam o Tolan!» O nome do barco entrou na gíria mais ou menos galhofeira como sinónimo de estar encalhado, de pessoa a quem ninguém conseguia «dar a volta». Havia os «jantares Tolan» para solteiros.

Não admira que alguém tivesse tido a ideia de chamar Tolan a um restaurante. Ainda existe, no n.º 134 da Rua dos Remédios (em Alfama), obviamente decorado com motivos náuticos alusivos. Nos anos 80, passava por lá aos sábados, quando costumava ir à Feira da Ladra. O nome fazia-me rir. Era também ponto de encontro dos feirantes, que trocavam piropos do estilo «Eh pá, bebes mais que o Tolan!»». Na Feira, havia quem vendesse fotografias e desenhos do Terreiro do Paço com o Tolan ao fundo. Toda a gente vivia suspensa no desenlace da história.

O verdadeiro Tollan foi um porta-contentores britânico que, na manhã de 16 de Fevereiro de 1980, sob um nevoeiro cerrado, colidiu no Tejo com o cargueiro sueco Barranduna. Virou-se. Dos dezasseis tripulantes, morreram quatro. Entre as vítimas encontrava-se um jovem casal indiano (Kanwaljit Singh Sandhu e Kulwinder Kaur) e a mulher do chefe da casa das máquinas Colin Campbell. Nos dias subsequentes, alguns mergulhadores conseguiram penetrar na carcaça, mas já não puderam salvar os que tinham ficado para trás. 

Os restos do Tollan ficaram ali tanto tempo que deixaram de ser apenas um naufrágio. Faziam parte da paisagem do Cais das Colunas, estilo monumento. Enorme, avermelhado, de quilha para cima, o cargueiro virado ficou a posar para Lisboa. As tentativas para o retirar sucediam-se e falhavam todas. Entretanto, havia excursões para o ver, anedotas, rábulas, canções, cafés, restaurantes e até animais baptizados com o seu nome. Na Rádio Renascença, António Sala anunciava, logo pela manhã: «O Tollan ainda está encalhado».

Assim permaneceu três anos, oito meses e quinze dias. Finalmente, na noite de 2 de Dezembro de 1983, às oito e vinte, uma gigantesca grua flutuante conseguiu finalmente dar-lhe a tão aguardada cambalhota. Lisboa perdia uma presença absurda, trágica e persistente, que já era quase sua. Os barcos todos do Tejo apitaram em uníssono nessa memorável hora. 


Marina Tavares Dias




sábado, 5 de setembro de 2026

LAMBERTINI NA AVENIDA DA LIBERDADE



No número 166 da Avenida da Liberdade subsiste uma das mais singulares fachadas da Lisboa do princípio do século XX. A casa foi mandada edificar por Michel Angelo Lambertini, músico, compositor, crítico, editor e comerciante de instrumentos musicais, descendente de uma família italiana estabelecida em Portugal desde 1836. Para desenhar essa residência escolheu outro italiano, o arquitecto veneziano Nicola Bigaglia, (autor do Palácio Lima Mayer, situado quase em frente).

O projecto deu entrada na CML em Agosto de 1901 e a construção prolongou-se durante três anos, obrigando Bigaglia a pedir sucessivas prorrogações da licença. Em Dezembro de 1904, Lambertini escrevia ao amigo José Relvas anunciando que a decoração estava terminada e que já podia recebê-lo naquilo a que chamava «o meu museu».

A casa foi concebida como habitação, como lugar para ouvir música, centro de convívio e exposição das colecções do proprietário. A fachada, de inspiração italiana, combina cantaria, ferro forjado, arcos, colunas e uma loggia superior, evocando simultaneamente os palácios florentinos e arquitectura veneziana. Mosaicos dourados ornamentam a grande janela do rés-do-chão. Vieram expressamente de Veneza. Em duas cartelas lê-se ainda a inscrição latina 'Domus quieta — Facultas certa': Casa tranquila, fortuna segura.

Por trás dessa janela ficava a sala de música, verdadeiro coração da morada. Decorada em estilo Luís XV, recebeu pinturas de José Malhoa alusivas a músicos consagrados. Bigaglia desenhou também a decoração interior e o mobiliário, em linhas Arte Nova. Quando a Ilustração Portugueza mostrou a casa aos leitores, em Junho de 1906, chamou-lhe «ninho de arte».

Tal felicidade doméstica durou pouco. Depois da morte da mulher (Maria Luciana Gomes) em 1914, Lambertini pôs o palacete e parte do recheio à venda. Em Dezembro de 1915, a propriedade passou para Elvira Martins Pereira de Carvalho. O seu antigo dono morreu em 1920, sem conseguir ver realizado o grande projecto a que dedicara os últimos anos: a criação do Museu Instrumental em Lisboa.

Comprada em 1939 pelo Grémio dos Importadores e Armazenistas de Bacalhau e Arroz, a casa sofreu profundas alterações (dirigidas por Raul Tojal). Perdeu parte dos interiores, ganhou nova escada, elevador e mais um piso. Outro projecto, apresentado em 1956 (que teria destruído a fachada), foi recusado pela CML. A Lambertini sbreviveu, embora modificada. E é ainda uma vaga recordação de Veneza, bem no centro de Lisboa.












'Illustração Portugueza',
Junho de 1906



Miguel Angelo Lambertini,
proprietário da casa, editor e comerciante de
instrumentos musicais em Lisboa




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A CASA DE SAÚDE DE BENFICA

A antiga Casa de Saúde de Benfica, cuja designação oficial era Portugal e Brasil, estava instalada numa zona ainda rural, então designada Bairro Herédia. O local é hoje ocupado pelo Hospital da Cruz Vermelha (actual Rua Duarte Galvão). O primeiro postal ilustrado, de 1910, circulou em 1911. O segundo, mostrando as instalações ampliadas, circulou em 1921. Na fotografia vê-se a fachada voltada para o parque, com galerias e terraços destinados à permanência dos doentes. São inúmeras as referências a internamentos e intervenções cirúrgicas aqui, na imprensa das décadas de 1910 a 1930.

A 30 de Novembro de 1961, o ministro das Obras Públicas, Eduardo de Arantes e Oliveira, visitou as obras de adaptação do edifício para o futuro Hospital de Santo António da Convalescença (Cruz Vermelha Portuguesa). O Hospital da Cruz Vermelha seria inaugurado a 1 de Fevereiro de 1965 e profundamente remodelado em 1998. Este antigo edifício, sucessivamente ampliado e transformado, ficou integrado no actual complexo de saúde, perdendo de todo a fisionomia aqui documentada.






Bilhetes-postais ilustrados da Casa de Saúde de Benfica.
Edição própria. Memorabilia/Arquivo MTD



Publicidade de 1910








quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CASA AFRICANA

Durante mais de um século, vendiam-se ali tecidos, vestidos casacos, camisas, atoalhados, batas de escola e de serviço… em suma, vendia-se de tudo. Vendiam-se também pedaços da vida lisboeta. A minha tia Luiza costumava dizer que, aos quinze anos, foi à Casa Africana comprar um casaco e acabou por ‘comprar’ o marido, que também andava às compras por lá. Setenta anos depois, guardei um casaco da Relicário apenas porque a loja fechou. Entre um casaco e outro,  passaram gerações da mesma família. É por isso que o desaparecimento de uma loja nunca é só o desaparecimento de uma coisa comercial. É por isso que fotografo ‘tudo’. Mesmo assim, cada fotografia mostra um lugar e também a ausência de todos aqueles que nunca cheguei a fotografar, precisamente porque pareciam ‘eternos’. 


A Casa Africana foi fundada em 1872 pela firma Raymundo Seixas & Fonseca, estabelecendo-se na Rua da Vitória (números 33 a 37). Pouco depois, alargou actividade à Rua Augusta (154 e 156), no edifício onde mais tarde se instalaria a Rosado & Pires. A empresa passou pelas firmas Loureiro & Paes e Loureiro, Rumina & Azevedo. 


Em 1901, foi adquirida por Manuel Freire da Cruz. Transferiu-se para o grande edifício da Rua Augusta (157 a 171), com frentes também para a Rua da Vitória (66 a 80), e Rua dos Sapateiros, (98 a 104). Ocupava inicialmente o rés-do-chão mas após longas obras de adaptação, expandiu secções por todos os andares do imóvel. Em 1911, com a saída do sócio José Mendes Cogumbreiro, a firma passou a designar-se Freire da Cruz & C.ª, Lda. Prosseguiu em expansão, com a abertura de uma filial no Porto, em 1914, na Rua de Sá da Bandeira. Manuel Freire da Cruz retirou-se da gerência em 1942, sucedendo-lhe o filho. No ano seguinte, entrou para a administração Racine Freire da Cruz. 


A empresa era sólida e vestia meia Lisboa das décadas de 50, 60 e 70. No último andar,  compravam-se as batas escolares. Entre elas, a do meu colégio, de bolinhas brancas sobre azul, sempre fabricada por encomenda. 


O carregador de embrulhos que ajudava os clientes mais frequentes era famoso desde os anos 20. Durante sete décadas, quando alguém era sobrecarregado de trabalho ou de embrulhos, dizia: 'Olha que eu não sou o preto da Casa Africana!' A expressão, que ainda aparece, sobreviveu à própria loja.


Nas últimas décadas do século XX, a Casa Africana manteve-se como referência do comércio tradicional lisboeta, continuando a atrair sucessivas gerações de clientes. As listas comerciais da Câmara Municipal de Lisboa registam-na em 1995. No levantamento de 1998, o mesmo edifício surge identificado como Naf Naf (loja francesa cuja presença estava a impor-se, nesse ano, na praça  lisboeta). A transição ocorreu entre essas duas datas, embora testemunho de antigos funcionários apontem para actividade ainda em 1999. 


Em 2000 o imóvel já não apresenta qualquer estabelecimento registado, encontrando-se provavelmente em remodelação. Em 2002 passou a Zara, que aí permaneceu até à abertura da mega-loja que agora ocupa todo um quarteirão do Rossio.



Marina Tavares Dias 






O símbolo da Casa Africana, 
célebre em Lisboa durante
décadas, na calçada do
passeio da Rua Augusta 

Interior do
primeiro andar

Vista nocturna
(Fotografia de H.Novaes)

Publicidade
do século XIX 

Cartaz da primeira 
década de 1900

Publicidade na contracapa
da 'Illustração Portugueza'

Papel de um embrulho
da década de 60




Anúncio numa parede 
do Porto 

Postal com logótipo da casa

Vitral da loja da Rua Augusta 

Em 1989 dirigi um suplemento 
no DIÁRIO DE LISBOA 
sobre as lojas históricas. 
A Casa Africana publicou
um anúncio de 1989
para comparação 
com o que eu escolhera,
então com mais de 50 anos


O último casaco 
comprado na Casa Africana 



















quarta-feira, 19 de agosto de 2026

AS RAIVAS, DOCES DE LISBOA

 





Habitualmente apresentadas como «Raivas de Aveiro», as raivas são, afinal, muito mais antigas do que essa identificação sugere. A documentação conhecida aponta insistentemente para a origem em Lisboa. No século XVIII já havia «bolos de raiva», que nos receituários lisboetas aparecem associados a diferentes casas religiosas da cidade. No século XIX, famosos, eram vendidos na Ajuda como 'especialidade das freiras do Bom Sucesso'. No princípio do século XX uma enumeração dos doces conventuais portugueses atribuiu expressamente as raivas ao Convento de Santana.


A referência mais antiga está num 'manuscrito culinário' das Visitandinas (ou Salésias) de Belém, hoje na Torre do Tombo (Manuscritos da Livraria, n.º 2403). O caderno, do final do século XVIII, reúne receitas certamente anteriores à própria compilação. Entre elas está (fólios 45-46) a «Receita dos bolos de raiva do Mosteiro do Sacramento». Ou seja, Mosteiro do Santíssimo Sacramento dos Eremitas de São Paulo, em Lisboa. Receita repescada, que já circulava com a proveniência: bolos de raiva «do Mosteiro do Sacramento».


Não é caso único. Noutro antigo receituário aparecem os 'bolos de raiva do Rato' (Mosteiro de Nossa Senhora dos Remédios da Santíssima Trindade). Seria comum esta circulação de receitas entre conventos, e um caderno duma comunidade pode copiar receitas de outra comunidade, por vezes conservando no próprio título o lugar de onde tinham vindo. Assim parece acontecer com as raivas «do Rato» e «do Sacramento».


Em 1788, a receita chega à imprensa. Sai (em Lisboa) a ‘Arte Nova, e Curiosa, para Conserveiros, Confeiteiros, e Copeiros, e mais pessoas que se occupaõ em fazer doces, e conservas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem á mesma Arte’, impressa na oficina de José de Aquino Bulhoens. Na página 107 encontramos simplesmente «Receita de bolos de raiva». Sem convento ou lugar no título, pois aparentemente o nome era suficientemente conhecido para dispensar explicações. Estes bolos levavam amêndoa, açúcar, manteiga, ovos, água de flor e um pouco de rolão. Apresentavam-nos em bolinhas, achatadas com um chavão antes de irem ao forno.


Nos primeiros anos de novecentos, no Convento do Bom Sucesso, em Belém, as dominicanas irlandesas faziam raivas para venda. A notícia é recolhida por Mário de Sampaio Ribeiro em ‘A Calçada da Ajuda’. Os biscoitos eram comercializados por José Pincel, figura ligada à toponímia popular da zona. É tradição que importa recuar até às fontes utilizadas por Sampaio Ribeiro, e que coloca outra casa religiosa lisboeta entre as produtoras.


Há ainda a zona do Campo de Santana. No ‘Portugal - Dicionário Histórico’, publicado no início do século XX, a distribuição das especialidades conventuais de Lisboa é esmiuçada assim: Santa Marta com broas, as Mónicas com caramelo, as Flamengas com rebuçados de ovos, as Albertas com arroz-doce, a Esperança com 'queijinhos de espécie' e o Convento de de Santana com as raivas e as ferraduras. Quando chega a Odivelas, o dicionário enumera marmelada em quadrados, manjar real, manjar branco, suspiros, esquecidos e bolo podre - mas não raivas.


Odivelas acabaria, contudo, por se juntar à história. O receituário que esteve na posse da última freira contém a tal versão dos «bolos de raiva do Rato», receita que o próprio título atribui a outra casa religiosa. Em bibliografia muito posterior, as raivas passaram a ser apresentadas como especialidade de Odivelas. Associação que exige alguma prudência: possuir ou copiar uma receita não significa tê-la inventado.


Temos, portanto, Sacramento, Rato, Bom Sucesso, Santana e Odivelas - cinco ligações conventuais às raivas, todas na área de Lisboa - e uma receita impressa já em 1788. Isto parece indicar não tanto a criação isolada de um doce por determinado convento mas algo que circulou entre várias comunidades, adquirindo variantes e, às vezes, o nome da casa onde passava a ser feita.


Entretanto, as raivas viajaram para mais longe. No final do século XIX já estavam implantadas na região de Aveiro. Uma tradição familiar de Albergaria-a-Velha recorda que a receita chegou através de 'uma senhora de Aveiro'. Hoje são vendidas e divulgadas como «Raivas de Aveiro», apresentadas como biscoitos conventuais com mais de dois séculos. A antiguidade é perfeitamente verosímil, mas a origem aveirense é obviamente questionável. Fontes que conseguimos recuar até ao século XVIII contam uma história essencialmente lisboeta.

E talvez devamos recuperar também o nome antigo. Não eram simplesmente 'as raivas'. Eram bolos de raiva.


A receita conservada no caderno das Salésias de Belém (atribuída ao Mosteiro do Sacramento) diz assim:


«Receita dos bolos de raiva do Mosteiro do Sacramento».



Ora aqui fica ela:


RECEITA DAS RAIVAS DE LISBOA 


«Um arrátel de amêndoa pilada e muito bem pisada, um arrátel de açúcar em pó bom e se mistura com a dita amêndoa, que fique muito unido e se lhe deita uma quarta de manteiga derretida e se amassa muito bem; depois se lhe deitam nove ovos, dois com claras e se torna a amassar, depois de tudo unido se lhe vai deitando rolão, muito fino, até que se possam estar em termos de se fazerem as broas e se lhe dão uns riscos com a faca e se põem nas bacias e se vão tendendo, com as palmas da mão untada com manteiga e nas bacias se bota rolão.»


Não teriam sempre a complicada forma que reconhecemos imediatamente como 'raiva de Aveiro'. Eram riscadas à faca. Mas chamavam-se raivas - e em Lisboa já existiam, com tal nome, há mais de duzentos anos.



MARINA TAVARES DIAS





bom sucesso 1
Capela do Convento (hoje colégio)
do Bom Sucesso




sábado, 8 de agosto de 2026

DOIS LEÕES E UMA CONFUSÃO

 «Depois veio a vida. Nessa noite levaram-me a cear ao Leão. Tenho ainda a memória dos bifes no paladar da saudade — bifes, sei ou suponho, como hoje ninguém faz ou eu não como.»

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

«Lembro-me tanto de certo jantar no Leão d'Ouro… numa noite chuvosa de Dezembro… Acompanhavam-me dois actores e um dramaturgo.»

Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio

«A Cervejaria Leão (1878), representada no quadro de Columbano, fechou em 1938 e reabriu em 1945 como Café-Restaurante Restauração [...]»

A frase vem no Expresso desta semana e coincide com a velha confusão lisboeta entre dois estabelecimentos com nomes semelhantes e destinos diferentes. A Cervejaria Leão, aberta em 1878, foi efectivamente encerrada em 1938 e deu lugar, em 1945, ao Café-Restaurante Restauração. Mas não era o restaurante do célebre quadro de Columbano. O Grupo do Leão foi pintado para decorar o vizinho Leão d’Ouro, inaugurado em 16 de Abril de 1885. Entre uma porta e a outra vão poucos metros. Historicamente, porém, vão duas casas.

A história começa em Arroios. Em 1878, João Varela, António Monteiro e um terceiro sócio, referido por João Paulo Freire como França — e como Jacinto Franco numa história posterior da Central de Cervejas —, todos antigos empregados da Fábrica de Cerveja Jansen, fundaram a Fábrica de Cerveja Leão. Ficava num pátio da Rua Direita de Arroios, nos números 46-A a 50, ocupando parte do antigo palácio dos condes dos Arcos.

Foi daquela fábrica, e da cerveja ali produzida, que veio o nome da Cervejaria Leão aberta na Baixa. O estabelecimento instalou-se na Rua do Príncipe, no ângulo com o Largo do Duque de Cadaval, aproveitando uma casa anterior conhecida como Cervejaria Varella. A mais antiga referência actualmente localizada à nova Cervejaria Leão é uma folha com desenhos de Rodrigues Vieira e Moura Girão, feitos no local e datados de Setembro de 1878. Em Janeiro de 1879, o nome já aparece na imprensa.

Os artistas começaram a reunir-se ali. Entre os frequentadores estavam Silva Porto, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, João Vaz, António Ramalho, Moura Girão, Rodrigues Vieira e Ribeiro Cristino. O criado preferido era Manuel de Vasconcelos, conhecido por Manuel Fidalgo. O grupo ficou conhecido como Grupo do Leão.

Em 1885, os sócios separaram-se. António Monteiro ficou com a antiga sala de bilhares da cervejaria e adquiriu ainda o contíguo Café Mandarim Chinês, de José Augusto Sales. João Varela continuou à frente da primitiva Cervejaria Leão, que, depois de obras e de uma nova decoração, reabriu em 14 de Fevereiro de 1885.

Dois meses depois, nasceu quase ao lado um concorrente muito mais ambicioso.

António Monteiro pensara inicialmente revestir de espelhos o novo restaurante. Segundo a história recolhida por João Paulo Freire, terá sido Manuel de Vasconcelos, que acompanhara Monteiro na mudança, a sugerir que se chamassem os artistas. Estes aceitaram decorar a casa com obras executadas expressamente para as suas paredes. Monteiro financiou o trabalho e comprou telas, tintas e molduras.

O Restaurante Leão d’Ouro foi inaugurado em 16 de Abril de 1885, já com as pinturas, o reposteiro bordado e a grande escultura do leão em madeira dourada. A imprensa fora convidada a visitar a casa na véspera. Uma gravura de Ribeiro Cristino, desenhada do natural e publicada nesse mesmo ano, mostra a sala atravessada por sucessivos arcos de cantaria, com os grandes quadros suspensos nas paredes e o público sentado às mesas.

A decoração reunia obras de Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Silva Porto, João Vaz, Rafael Bordalo Pinheiro, Rodrigues Vieira, Moura Girão e Ribeiro Cristino. Maria Augusta Bordalo Pinheiro bordou um leão rompente num reposteiro de cor grenat; Leandro Braga esculpiu o grande Leão de Ouro colocado sobre o balcão. Columbano pintou o retrato de António Monteiro e a enorme tela do Grupo do Leão, com mais de três metros e meio de largura.

É este o quadro que o Expresso agora atribui à Cervejaria Leão de 1878. A tela foi concebida para o novo Leão d’Ouro e permaneceu nas suas paredes durante décadas. O grupo nascera na cervejaria antiga, mas mudara-se para o restaurante novo, talvez, segundo a tradição, para continuar a ser servido pelo Manuel Fidalgo.

A diferença entre as duas casas tornou-se depressa matéria de humor lisboeta. A primitiva Cervejaria Leão, mais modesta do que o brilhante vizinho, passou a ser chamada Leão Triste e também Leão Pobre. O novo restaurante era o Leão d’Ouro.

O anúncio de 1900 não deixa dúvidas quanto à localização da casa antiga. Sob a figura de um leão lê-se: «Cervejaria Leão — Café Restaurant — Rua do Príncipe, 81 a 85», tendo como proprietário João Luís Ferreira. Depois da mudança do nome da rua, em 1908, e da alteração da numeração das portas, esses números corresponderam aos actuais 103 a 107 da Rua do 1.º de Dezembro. O Leão d’Ouro histórico ocupava os actuais 95 a 99, alargando-se em 1905 às dependências vizinhas e transferindo a cozinha para o número 89.

Em 1915, António Monteiro passou o Leão d’Ouro ao genro, José da Costa. Em 1937, este tentou vender ao Estado a colecção de pintura, mas recusou uma proposta que abrangia apenas três obras. Em Fevereiro de 1939 promoveu um leilão, do qual saiu apenas o Paúl da Outra Banda, de José Malhoa, comprado por Alfredo da Silva. O restaurante foi trespassado à firma Vasques, Fortes & Domingues, proprietária do Café Suísso.

Foi a outra casa, a Cervejaria Leão de 1878, que encerrou para obras em 1938. Em 1945, o espaço dos actuais números 103 a 107 reabriu como Café Restauração, propriedade da firma Saúl, Garcia & Albuquerque, L.da. O nome aludia simultaneamente à Rua do 1.º de Dezembro e ao imaginário histórico ainda alimentado pelas comemorações de 1940.

A remodelação foi projectada pelo arquitecto Vasco Regaleira. Os painéis de azulejos foram desenhados por Jorge Colaço e executados na Fábrica de Sant’Anna. Uma reportagem de O Século Ilustrado, publicada em 23 de Junho de 1945, mostrou o novo café poucos dias depois da inauguração.

É, pois, exacta a sequência Cervejaria Leão — encerramento em 1938 — Café-Restaurante Restauração em 1945. O que não é exacto é colocar nessa sequência o quadro de Columbano e o restaurante inaugurado com a galeria de pintura em 1885. Esses pertencem ao Leão d’Ouro histórico, a segunda casa.

A confusão agravou-se no fim do século XX. O nome Leão de Ouro acabou por ser usado também no espaço da antiga Cervejaria Leão e do Café Restauração, nos números 103 a 107. Ali foram colocados uma reprodução fotográfica do quadro de Columbano e o leão de madeira esculpido por Leandro Braga, retirado da casa original. O nome e a imagem foram deslocados.

Mas os edifícios ainda contam a história. No Leão d’Ouro inaugurado em 1885 sobrevivem os grandes arcos desenhados por Ribeiro Cristino. Durante anos procurei fotografá-los. Um dia encontrei a porta aberta, com a casa fechada para obras, as paredes despidas e os arcos de cantaria novamente à vista. A fotografia coincide quase ponto por ponto com a gravura publicada no ano da inauguração.

Bastava olhar para os arcos. Em Lisboa, às vezes, as paredes são mais rigorosas do que os jornais.


Marina Tavares Dias


Notícia da inauguração do Leão d'Ouro,
em 1885
(«Diário Illustrado»)


O Leão d’Ouro no dia da inauguração, em 16 de Abril de 1885. Desenho do natural por João Ribeiro Cristino, mostrando a sucessão de arcos da sala e os quadros executados para a nova casa pelos artistas do Grupo do Leão. Esta estrutura arquitectónica sobrevive ainda no verdadeiro Leão d’Ouro, nos números 89 a 99 da rua 

Interior do Leão d'Ouro em 2020, após o último encerramento. Pode inclusivamente situar-se o local do quadro de Columbano  (à entrada, à esquerda)



Publicidade na «Revista Municipal»


Última versão do Leão d'Ouro: Buffet do Leão (2008)

O leão de metal que adornou a fachada original do número
89 foi deslocado para o restaurante do gaveto


Leão d'Ouro, aqui já como Buffet do Leão,
em 2008 (fotografia de Marina Tavares Dias)


Café Restauração, depois 
segundo Restaurante Leão d'Ouro


Pequeno vídeo de 2024 que
permite avaliar a distância
entre o Restaurante Leão d'Ouro (Buffet do Leão)
e a Cervejaria Leão (Café Restauração/novo Leão d'Ouro),
no gaveto da Rua Primeiro de Dezembro