O lugar de Telheiras consistia em menos de quatro dezenas de casas térreas, albergando, ao todo, por volta de 1860, cerca de 150 pessoas. O núcleo histórico designado por «Telheiras velha» incluía ainda, quando ali fui em 1992, algumas das casas do tempo, assim como vestígios das muitas quintas contíguas. O convento franciscano da aldeia, dedicado a Nossa Senhora da Porta do Céu e habitualmente datado de 1633, foi pago por um príncipe asiático, D. João de Cândia, senhor de parte do Ceilão, que ali quis ser sepultado.
O príncipe nascera no Ceilão, em 1578. Ainda criança, foi desapossado do trono pelo próprio tio; levado para a ilha de Manar e, depois, para Goa. A viagem daí para Lisboa talvez lhe tenha sido imposta pelos frades portugueses que o haviam tomado sob protecção. D. João fê-la com a esperança de reclamar, junto dos espanhóis, então senhores de toda a península, o reino perdido.
O caso foi esquecido, tacticamente, entre os mil ofícios e desembargos que, todos os dias, ocupavam a Coroa. Renunciando à Cândia, à Cota, Ceitavaca e Cetecorlas, D. João tomou hábitos em 1625 e cingiu o cordão franciscano. Recebeu 4 mil cruzados da parte da coroa espanhola e uma autorização para fixar residência em Lisboa.
Comprou uma pequena quinta, no caminho entre os campos de Alvalade e o sítio da Luz. A instalação do oratório e do convento fez-se por etapas, nos anos seguintes, sob a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu. A data exacta da fundação conventual permanece discutida: importa não confundir a criação da irmandade, em 1625, com a construção dos edifícios e a instalação dos religiosos. Frei Agostinho de Santa Maria, no Santuário Mariano, diz que o príncipe esperava, nessa invocação, agraciar a Virgem, para que à alma, em tempos pecadora, Ela franqueasse as portas do paraíso.
D. João morreu em casa, no seu palácio da Mouraria, em Abril de 1642. Deixou testamento a favor dos frades e de uma filha, D. Maria de Cândia, freira franciscana na Vialonga. Mas nem o último desejo lhe respeitaram. Acabaram as pratas e os tapetes divididos pelos ministérios, apesar dos muitos rogos feitos pelos frades de Telheiras. Arrastaram-se os litígios até 1782, quando a rainha interveio a favor da confraria.
O terramoto arruinou bastante a igreja, danificando também a sepultura do fundador. Pombal considerou o lugar de Telheiras digno da sua visita, tendo ordenado reconstrução imediata do templo. As obras terminaram em 1768, como atesta a placa da fachada.
Recuperado o antigo esplendor, os novos altares contavam com inúmeros devotos que, de propósito, vinham de Lisboa. A 4 de Outubro, dia de romarias, celebravam-se as festas da Senhora da Porta do Céu. Na capela da banda da Epístola, o altar da Senhora do Bom Parto — a chamada Virgem do Ó — também motivava grande devoção.
Mas a maldição que sempre perseguira o príncipe D. João arrastou-se durante séculos no convento por ele fundado. Durante a guerra civil, Telheiras estava em pleno campo de batalha. A igreja foi saqueada em 1833; paramentos e alfaias, roubados; a biblioteca, completamente destruída. Desmontaram-se os sinos e o relógio da torre e vendeu-se tudo a pataco.
No final do século XIX, a talha de madeira do altar-mor apodrecia a olhos vistos e o sobrado da sacristia tinha sido levado para guarnecer a casa de um ministro. A igreja escapou por um triz de ser vendida em hasta pública e passar a cocheira. Mas as imagens que nela restavam partiram de vez, em direcção à ermida do Campo Grande.
O golpe de misericórdia foi dado pelo assalto de 1910. Arrancaram-se as lápides e profanaram-se as sepulturas. Do túmulo do príncipe sobreviveram a pedra com a inscrição e o brasão, recolhidos em 1927 no Museu Arqueológico do Carmo. Quanto às ossadas, a história publicada pela paróquia refere que, no restauro de 1941, foram reunidas no antigo carneiro, juntamente com as dos restantes defuntos da capela-mor. Não é, porém, uma identificação individual dos restos de D. João.
Vendido o convento, as antigas dependências passaram a abrigar inúmeras famílias. A tradicional taberna ocupou-lhe a entrada e lá permanecia em 1992, quando visitei o local.
Quanto à igreja, conseguiu sobreviver ao longo calvário, reabrindo ao público no dia 22 de Agosto de 1941, com o coro reconstruído e paredes caiadas. Em 1992, era um templo sossegado, de frequentadores certos e devotos que continuavam a ir de propósito a Telheiras para assistir à missa. Num esforço para recuperar a memória do lugar, o Centro Cultural de Telheiras publicara, em 1991, o primeiro dos seus cadernos «Ceilão e Telheiras», parcialmente dedicado à história do convento.
Ao longo da antiga Estrada de Telheiras, fronteira ao templo, quase todas as casas pertenciam já à EPUL — Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. Os habitantes queixavam-se da degradação a que tinham chegado os prédios e da «pressão psicológica» para que abandonassem as casas onde muitos deles haviam nascido. A estrada antiga conservava o seu aspecto de aldeia, agora a dois passos das urbanizações, aprazível e silenciosa. Seria absurdo não aproveitar este núcleo histórico para valorizar toda a zona. Mas, enquanto nada se fazia, Telheiras velha ia caindo, do Pátio do Malaquias à Quinta de S. Vicente.
Texto de
Marina Tavares Dias
para o volume III da
LISBOA DESAPARECIDA (1992)
Depois de 1992:
O núcleo antigo conheceu, entretanto, algumas das intervenções que então eu reclamava. No antigo Solar da Nora abriu, em 18 de Dezembro de 2003, a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, trazendo uma nova utilização pública à casa recuperada.[3]
Em 2004 foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Porta do Céu. Mas a igreja voltou a fechar nesse mesmo ano, devido ao mau estado da cobertura. Uma campanha de restauro permitiu a sua reabertura, com inauguração solene e sagração do altar em 28 de Maio de 2006.[2]
A classificação como Monumento de Interesse Público chegou em 29 de Junho de 2012. Abrangeu apenas a igreja: em 2009, os serviços patrimoniais tinham justificado a exclusão das restantes dependências por do convento subsistir a estrutura edificada, mas nada restar do seu interior original. A recuperação do templo não deve, portanto, confundir-se com a recuperação integral do conjunto conventual.[1]
Também o antigo lagar da Quinta de S. Vicente ganhou utilização cultural e comunitária, acolhendo eventos da Junta de Freguesia do Lumiar.[4] Do restaurante guardo uma memória anterior: ali jantei em 1978, no dia em que fiz dezasseis anos. Em 1987 fui encontrá-lo fechado; em 1992, numa nova visita, continuava fechado. Não sei em que ano encerrara.
A própria EPUL pertence já à história: a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a sua extinção em 28 de Maio de 2013.[5] As referências à propriedade das casas e às queixas dos moradores ficam, por isso, datadas do momento em que as recolhi. E também a taberna que vi no antigo convento pertence, neste relato, a 1992: não consegui apurar quando terá encerrado.
Marina Tavares Dias
Fontes das emendas e acrescentos
[1] Património Cultural — Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu: ficha e processo de classificação.
[2] Paróquia de Telheiras — História e cronologia. Utilizada para o restauro e a reabertura de 2006 e, com atribuição expressa, para o relato relativo às ossadas. A data de classificação indicada nesta página não foi adoptada: prevalece a documentação patrimonial de 2012.
[3] Assembleia de Freguesia do Lumiar — Moção sobre a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro.
[4] Junta de Freguesia do Lumiar — Lagar de São Vicente.
[5] Câmara Municipal de Lisboa — Assembleia Municipal aprova extinção da EPUL, 28 de Maio de 2013.
Nota editorial: versão revista do texto, com actualização em Agosto de 2026. Conservou-se a narrativa histórica original nos pontos ainda não sujeitos a re-verificação documental integral. As visitas de 1987 e 1992 são da autora, e aos respectivos locais.





.jpg)
.jpg)






















