quinta-feira, 8 de outubro de 2026

RUA DO OURO

 

O plano de reconstrução da parte baixa de Lisboa determinou que se destruíssem todos os vestígios da malha urbana anterior a 1755 ali existentes, traçando-se em seu lugar dez ruas orientadas de norte para sul. A primeira a oriente, já fora da zona plana, é a Rua da Madalena; a primeira a ocidente existia já antes do terramoto, sendo aproveitada e alinhada depois: a Rua Nova do Almada. Destas, seis terminam no Terreiro do Paço e suas imediações, ficando quatro a desembocar na Rua dos Retroseiros (ou Rua da Conceição). São todas rasgadas por oito transversais correndo de nascente para poente, alinhadas e sóbrias, complementares das outras no que diz respeito a comércio e a serviços. Um bairro traçado a régua e esquadro, sem tempo nem meios para grandes diferenças entre os quarteirões, resume hoje o que foi uma verdadeira torre de Babel, dédalo de cantos e de recantos onde pululava a Lisboa gótica, suja e animada, com as suas misérias e grandezas, as suas tendas e os seus bazares, a sua alma intensa e incontrolável.

Os principais ramos de comércio da cidade setecentista foram distribuídos de acordo com o traçado das novas ruas, na base de um arruamento por profissão, bem ao modo iluminista, facilitando o abastecimento da cidade, o acesso a cada estabelecimento e a própria fiscalização. O decreto tem a data de 5 de Novembro de 1760, quando os quarteirões ainda estavam, em grande parte, por construir. “E reservando a distribuição das outras lojas daqueles ofícios que devem ter arruamentos, e que agora não puderam caber nas ruas que se acham abertas, para os determinar nas que tenho mandado alinhar, e abrir imediatamente, para complemento do plano da parte baixa da referida cidade […]” – reza o texto afixado em edital dez dias depois.

Comerciantes e artífices ficaram assim distribuídos: capelistas na Rua Nova d’El-Rei (mais tarde Rua dos Capelistas e Rua do Comércio); mercadores de tecidos nas ruas Augusta e de Santa Justa; ourives do ouro na Rua Áurea; ourives da prata e livreiros na Rua Bela da Rainha (mais tarde Rua da Prata); fanqueiros na Rua Nova da Princesa (mais tarde Rua dos Fanqueiros); latoeiros e douradores na Rua dos Douradores; correeiros e torneiros na Rua dos Correeiros; sapateiros na Rua dos Sapateiros; algibebes (adelos e ferros-velhos) na Rua de S. Julião; retroseiros na Rua da Conceição (cuja designação popular é ainda Rua dos Retroseiros); cerigueiros na Rua da Assunção; quinquilheiros nas ruas de S. Nicolau e da Vitória. 

Mais uma vez estamos perante um caso de topónimo duplo. A designação oficial da via é, desde 1760 e sem mudança até hoje, Rua Áurea. Mas o povo começou a chamar-lhe Rua do Ouro logo no início do século XIX e assim ela ficou em todas as bocas, em quase todos os documentos e mesmo no papel timbrado das firmas ali sediadas. Pastor de Macedo escreveu que “a Rua do Ouro é o Chiado da Baixa”, ou seja, “a artéria por onde a determinadas horas do dia passa tudo que em Lisboa deseja mostrar-se e deseja ver os que se mostram”. Júlio Cezar Machado retrata esse movimento em meados de Oitocentos com palavras de quem conhece aquilo de que fala: “A rua tinha duas horas ao dia de um tal ou qual movimento: à entrada e à saída das secretarias. Depois, pelo dia adiante, uma carruagem de vez em quando, alguma traquitana de praça, o omnibus da companhia, e os clássicos carros chiando estridulamente pelos eixos.”

Rapidamente a Rua do Ouro se transformou na artéria mais concorrida da Baixa, justificando mesmo o título de um livro de Alfredo Mesquita, editado em 1905 (“A Rua do Ouro – Romance Lisboeta”). Segundo este escritor, era ela “um símbolo […], a ficção do amor, a ficção do talento, a ficção do luxo, a ficção da honra […] Tudo o que luz mas não é oiro.” As fachadas sóbrias e homogéneas, com as suas montras em destaque e o remate em mansarda, ganharam patine e cores próprias, com janelas diversas e, sobretudo, com os cartazes, os toldos, os alpendres e os vidros publicitários.



Fotografias (de Paulo Guedes, Joshua Benoliel e C.A. Lima) 
cujos negativos pertencem hoje ao arquivo municipal de Lisboa




terça-feira, 6 de outubro de 2026

O PALÁCIO DO COLÉGIO LUSITANO

Aqui está o Palácio Peyssoneau, sede da secção masculina do Colégio Instituto Lusitano, na Estrada de Benfica, n.º 765, no gaveto com a Estrada de A-da-Maia. A escola instalou-se nesta antiga quinta de recreio a 31 de Janeiro de 1938, ali permanecendo até meados da década de 1950. A propriedade prolongava-se na direcção das Portas de Benfica e era limitada a sul pela Ribeira de Benfica (Alcântara). Ostentava jardins frondosos, lago, estatuária, árvores exóticas, terrenos agrícolas e instalações para criação de gado (que forneciam leite, fruta e legumes para as cozinhas do colégio). Adquirida por uma empresa de construção civil no início dos anos 50, a quinta seria totalmente demolida e loteada. Em 1961, já se encontrava neste gaveto o prédio onde funcionou o posto dos CTT e, mais tarde, uma agência bancária.



Estrada de Benfica, 765.
Bilhete-postal ilustrado sem data
[c. 1938]. Memorabilia/ArquivoMTD 



Fotografia da Estrada de Benfica, 765, em 1961,
depois da demolição do palácio e da quinta.
Artur I. Bastos, Arquivo Municipal de Lisboa.





terça-feira, 29 de setembro de 2026

O CAFÉ MARRARE DO POLIMENTO

 



António Marrare, antigo copeiro napolitano dos marqueses de Niza, fundou quatro botequins, hoje muito confundidos entre si de cada vez que se fala dos cafés oitocentistas: o chamado Marrare de S. Carlos (na Rua Anchieta), o Marrare das Sete Portas (na Rua dos Sapateiros, ou Rua do Arco do Bandeira), o Marrare do Cais do Sodré (no número 9 da praça), e - finalmente - o mais célebre de todos, a inenarrável coroa de louros do Romantismo, o "botequim sem-par" cuja frequência valia um estatuto: o Marrare do Polimento, em pleno Chiado. Todos estes cafés tiveram inauguração no primeiro quartel do século XIX. O Marrare do Polimento, inaugurado no primeiro dia do ano de 1820, assumiu quase automaticamente a sua invejável notoriedade. Vendia-se ali a mais saborosa neve, o mais aromático café, a torrada mais estaladiça, o melhor champanhe francês. Franquear aquelas portas era, só por si, um estatuto. Lá dentro encontravam-se facilmente as tertúlias mais celebradas da época. Delas faziam parte Garrett, Herculano, Passos Manuel, Bulhão Pato, além dos elegantes membros de todas as "claques" de S. Carlos, combinando pateadas monumentais a qualquer rival da sua cantora favorita.

A fina-flor da geração "chiadense" frequentava os bailes das Laranjeiras e as noites de estreia em todos os teatros. Reunia-se com os políticos às mesas do café, escutando José Estevão conspirar contra os Cabrais e Passos Manuel em plena propaganda maçónica. Era a época em que uma primeira incursão no Marrare exigia apresentação feita por qualquer veterano da casa. Aos desconhecidos que ousavam o sacrilégio eram lançados olhares de alto a baixo, os criados não os serviam de pronto e alguns jovens “dandies” mais irreverentes chegavam a convidá-los a sair. Por isso, muitos pais de família aconselhavam os filhos a não passar ali à porta, e era comum ver burgueses atravessando para o passeio em frente, quando havia aglomerações à entrada do café.

O Marrare foi, nas palavras sabedoras de Tinop, “o primeiro parlatório e pasmatório do Chiado, o mais notável centro de parolagem da velha Olisipo”*, tendo desempenhado em Lisboa um papel semelhante ao do Tortoni em Paris. A inauguração aparece assim anunciada, na "Gazeta de Lisboa" de 8 de Janeiro de 1820: "António Marrare transferiu a sua loja de vinhos engarrafados, sita na Rua das Portas de Santa Catarina, número 33, ao Chiado, para a mesma rua, número 25, a qual se abriu no 1º do corrente, com todas as qualidades de vinhos engarrafados, licores, cervejas, etc." Ocupava a zona térrea – a “loja”, uma sobre-loja e todo o primeiro andar, este último destinado a habitação do botequineiro. Sigamos, pois, a descrição de Tinop:

“O napolitano António Marrare chegou a Lisboa na última década do século XVIII e embarcou para o Brasil, onde serviu de copeiro no quartel-general de Porto-Alegre em 1797. Regressando em 1800, fundou uma loja de bebidas e de conservas no prédio que torneja da Rua da Anchieta (antiga Rua da Figueira) para a Rua Capelo (antiga travessa da Parreirinha), defronte do Governo Civil. Principiou logo por fornecer o Botequim de S. Carlos. A loja em que estabeleceu o café e a conservaria fora anteriormente ocupada pelo bilhar e depósito de vinhos do francês Mr. Dique. Aquele café, denominado o Marrare de S. Carlos, foi o confluente dos noveleiros no tempo dos franceses e um centro de palestreiros em épocas posteriores.”*

A proximidade do Teatro de S. Carlos equivaleu, para António Marrare, a uma verdadeira especialização nos hábitos de ócio da Lisboa elegante. Rotundo, corado, sonolento, grande apreciador da farta cozinha italiana*, o botequineiro mais célebre de Lisboa pavoneava-se entre os elegantes de S. Carlos como peixe na água. Até 1828 foi ele quem esteve encarregue do fornecimento de bebidas e ceias ao próprio teatro, tendo ficado célebre o banquete ali dado pelo senado da Câmara na noite de 12 de Outubro de 1814. Marrare forneceu a comida, os refrescos e toda a decoração do salão nobre. Acabou perdido de amores por uma das bailarinas da companhia, Margarida Bruni, mais tarde empresária do próprio teatro.

Mas mesmo S. Carlos, na sua ofuscante glória de 1820, não constituía paralelo para aquele que em breve se tornou o mais conhecido ponto de reunião do Chiado: o Marrare do Polimento. Os lisboetas que, contrafeitos, já tinham sido – nos alvores do século – forçados a tomar por café mistelas horríveis, adulteradas com casca de piorno e fel de vaca, deliciavam-se agora com uma mistura mais aromática e agradável (embora as críticas à qualidade da infusão continuassem sempre). A principal mudança era a própria ambiência: em lugar dos bancos de pinho de antigas tascas do velho Chiado, havia agora mobiliário de luxo, sendo a bebida provada entre celebridades e servida por criados de libré em cafeteiras de prata. Zacarias de Aça escreveria mais tarde (1883), nos seus folhetins do “Diário da Manhã”, que “sem a consagração do Marrare do Polimento não havia talentos nesta terra, nem artistas que prestassem, nem governos sólidos, nem mulheres bonitas, nem touradas excepcionais”. As bebidas eram todas excepcionais, os gelados eram puros e “com o encanto indefinível da neve polar”*. O champanhe, nas suas garrafas interminavelmente alinhadas pelas prateleiras, era a própria sugestão das noitadas boémias. E o Marrare abrigou alguns janotas boémios que deram brado na Lisboa do seu tempo: Bernardino Ruffo, João Aboim, Duarte Sá e o célebre Lima da Cardiga, “estróina incomparável” no dizer de Tinop, que conheceu pessoalmente a Dama das Camélias (Marguerite Gautier) e distribuiu várias fortunas por inúmeras amantes e incontáveis cenas de bebedeira.

O fascínio póstumo exercido pelo Marrare surtiu o seu efeito na obra de Eça de Queiroz – que nem deve ter chegado a conhecer o café, cujo encerramento data precisamente do ano em que vem morar para Lisboa. É à mesa do Marrare que Pedro da Maia, pai do Carlos de “Os Maias”, inicia as noites de boémia após o desgosto pela morte da mãe, e nelas escreve depois as suas cartas de amor. Da porta do Marrare avista Pedro, pela primeira vez, Maria Monforte*. Este “flash-back” de quem, como Eça, nunca viveu os anos dourados do mais célebre café da Lisboa romântica, vale como prova do fascínio exercido pelo Marrare mesmo nas gerações posteriores ao seu encerramento.

Júlio César Machado, irónico, classifica o botequim como “uma espécie de monumento histórico” que Lisboa suporta porque não pode já passar sem ele. Um sítio “onde nem todos têm o direito de entrar, apesar de ser público”. E adianta que o direito a franquear as preciosas portas se adquire mediante a condição insubstituível de “ser um homem fora do comum”. A descrição seguinte é elucidativa: “Consideram-se homens fora do comum os homens de talento, os janotas, os ociosos puros e todos os exceptuados da sociedade constituída que descobriram modo de gastar dinheiro sem ter dinheiro, ir ao teatro sem comprar bilhete, ter fato sem o pagar, andar de sege sem saber a conta”.*

Esta aparente censura à dissolução dos costumes caía muito bem nos leitores duma Lisboa cinzenta, onde o Chiado acendia, sozinho, a luz do cosmopolitismo. Mas Júlio César Machado, também ele frequentador do Marrare, não chegava ao arrojo extremo de imaginar mulheres neste território exclusivamente masculino. “Homens fora do comum”; nunca mulheres. Quem poderia imaginá-las, por muito libertinas, à mesa do Marrare, entregues à boémia e ao jogo? – E, no entanto, as crónicas registaram pelo menos uma presença feminina entre os clientes do café. Era inglesa, visitou Lisboa em 1852 e chamava-se Julia Wilson. Miss Wilson vivia com o ministro da Áustria na corte portuguesa e frequentava amiúde as récitas de S. Carlos, onde alugara a frisa com o número 23. Era comum verem-na envergando trajes masculinos e usando bengala de estoque. No Marrare, apresentou-se do seguinte modo para um jogo de bilhar “entre homens”: calças à cavaleiro, sobrecasaca, bengala e chapéu à patuleia (estilo sombreiro). E apesar dos desacatos frequentes, pelos quais o café também era célebre, não constou para a posteridade que a presença da inglesa tivesse causado qualquer perturbação nessa noite.

Por morte do fundador, em 1839, passou o Marrare para a posse do sobrinho deste, José Marrare, que entregou o serviço de copa a Francisco Cagiani, outro italiano em tempos copeiro dos marqueses de Niza. Quando, após um breve aluguer a Matias Ferrari, o Marrare fechou definitivamente as portas, “a alma do Chiado cobriu-se de um véu de lágrimas”*. Foi em 1866. Pouco depois, abria no mesmo local a Sapataria Lourenço. Muito mais tarde, após arranjo da fachada ao estilo neo-clássico (por José dos Passos Mesquita), o antigo café albergou a primeira casa de modas Piccadilly, posteriormente transferida para o lado oposto da rua. E só em 1925 voltaria o som da cavaqueira e dos talheres, o aroma e o fumo do café e dos charutos a sair por aquelas portas, derramando-se sobre a rua agora com o nome de Garrett. De 1925 até 1963, o antigo Marrare reviveu brevemente, na vocação do Café Chiado. 


sábado, 26 de setembro de 2026

AS BARCAS DE BANHOS

 

A higiene é, na Lisboa do século XIX - e com base nos hábitos de asseio setecentistas -, uma extravagância. A maior parte das casas lisboetas não conhece compartimentos destinados ao banho; os balneários públicos são raros. Assim, recomendam-se, como profilácticas, as águas do rio. E - mais do que as praias - as barcas, que vão até fora de pé, permitindo a imersão do corpo. A selha para banho não é objecto comum nas casas particulares. Quase sempre, existem apenas bacias, para lavagens locais, com múltiplos usos. O costume dos banhos no rio vulgariza-se, provocando algumas anedotas nas publicações da época: a água do Tejo, nessas escassas oportunidades de lavar o corpo, era o "banho usado ontem" por outros utentes das chamadas barcas de banhos.

Segundo Ramalho Ortigão, o Tejo "tranquilo, sereno como um lago", proporcionava "o melhor dos banhos, na maré enchente, para as crianças fraquinhas, para as mulheres débeis, fatigadas" (As Praias de Portugal, 1876). Confiantes nas virtudes do rio, as barcas fizeram época e história. Já nos primeiros anos de Oitocentos, elas ancoravam no Cais do Sodré, na Ribeira Nova ou na praia da Junqueira, esperando fregueses até perto do meio-dia. A época balnear começava só em Setembro, porque Agosto era, por excelência, o mês consagrado às quintas dos arredores saloios.




Barcas de banhos no Tejo 
(em: Sketches of Portuguese Life, 
Manners, Costume, and Character : 
illustrated by twenty coloured plates 
 by A. P. D. G.. - London,
printed for Geo. B. Whittaker 
 by R. Gilbert, St. 1826.)


Barca de banhos Gratidão
fundeada em Belém
(fotografia geralmente atribuída 
a Amedée de Ternante, c. 1858)


sábado, 19 de setembro de 2026

O BALÃO DO ARSENAL

Muito antes de Nova Iorque celebrar a passagem do ano com a descida da bola de Times Square, Lisboa tinha o seu próprio «balão do tempo». Todos os dias, à uma da tarde, uma esfera negra caía sobre o Arsenal da Marinha, anunciando a hora oficial da cidade e permitindo aos navios do Tejo acertar os cronómetros.

O Balão do Arsenal fazia parte do Observatório Astronómico da Marinha e destinava-se, sobretudo, à ajuda da navegação. Mas o sinal era igualmente utilizado por todos os relógios públicos e muitos dos relógios particulares da capital. Entrou em funcionamento em Novembro de 1858. O aviso publicado no ‘Diário do Governo’ de 9 desse mês informa que, todos os dias, o balão subiria a meio mastro quinze minutos antes da uma da tarde, elevar-se-ia ao topo cinco minutos antes e cairia exactamente quando o relógio do Observatório marcasse a uma hora média. Em dias nublados, quando não fosse possível determinar com rigor a passagem meridiana do Sol, o Observatório advertia que poderiam ocorrer pequenas diferenças na indicação da hora.

Desde a década de 1830 que os grandes portos marítimos adoptavam as chamadas ‘time balls’, esferas que caíam a uma hora rigorosamente determinada para que os navios pudessem acertar cronómetros de bordo. A mais famosa era a de Greenwich (ainda hoje em funcionamento), mas existiam outras em Portsmouth, Liverpool, Edimburgo, Hamburgo, Sydney, Cidade do Cabo, Hong Kong e muitas mais cidades portuárias. 

Este primeiro balão era extremamente simples, accionado manualmente por uma corda. Augusto Ramos Costa, vice-almirante, viria mesmo a classificá-lo como um «irrisório», acrescentando que o sistema era alvo de troça e descrédito, ao ponto de almanaques náuticos ingleses e franceses alertarem para a pouca confiança que mereciam os sinais horários de Lisboa.

A situação alterou-se com a inauguração, a 15 de Agosto de 1885, de novo balão, concebido sob direcção do oficial da Armada e engenheiro-hidrógrafo Frederico Augusto Oom (primeiro director do Real Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda). Junto ao dique do Arsenal, era uma notável obra de engenharia para a sua época. O mastro tinha sete metros de altura e o balão, pintado de negro, tinha um metro de diâmetro, pesando quase 24 quilos. Cinco minutos antes da hora era içado a meio mastro; nos três minutos seguintes subia lentamente até ao topo, onde permanecia até cair automaticamente, accionado por um contacto eléctrico vindo do Observatório da Ajuda e situado a cerca de quatro quilómetros.

Logo que o balão descia, ouviam-se muitos apitos das embarcações no Tejo, em manifestação festiva. Por breves instantes, aquilo animava a cidade. Estava previsto que a queda seria acompanhada por um enorme tiro, bastando ao oficial de serviço premir o botão eléctrico, mas esse complemento não chegou a generalizar-se. Quando o mecanismo falhava ou o mau tempo impedia o seu funcionamento, içavam um cilindro vermelho (aviso aos observadores de que o sinal não devia ser considerado válido).

Continuaram as críticas, porque muitos navios mercantes não conseguiam observar correctamente a queda, quer pela reduzida dimensão da esfera, quer porque esta se projectava sobre os telhados escuros do Arsenal. 

Augusto Ramos da Costa chegou a defender a transferência do sistema para a margem sul do Tejo, onde seria mais visível. Em 1911 foi nomeada uma comissão para estudar a substituição do Balão do Arsenal por sistema mais moderno. Entretanto, Portugal adoptava oficialmente o meridiano de Greenwich e reorganizava todo o serviço da hora legal. Segundo Augusto Vieira da Silva, o balão deu o seu último sinal às treze horas de 31 de Dezembro de 1915. Mário Costa chama contudo a atenção para uma gravura da Sala do Risco, realizada após o incêndio de 18 de Abril de 1916, onde o velho balão ainda aparece no seu lugar, sugerindo que a desmontagem não terá sido imediata. Sabe-se igualmente que o primeiro balão foi conservado como peça de museu na Sala do Risco, desaparecendo no incêndio.

A partir de 1914, a função de regulador da hora oficial passou gradualmente para o grande relógio do Cais do Sodré, ligado electricamente ao Observatório Astronómico. O Balão do Arsenal ficou como memória de uma Lisboa em que bastava olhar para o céu para acertar o relógio.


Marina Tavares Dias 




Balão do Arsenal
em 1887

 

Balão de Edimburgo

(litografia de 1861⁠)


Torre do balão de Deal, Kent 

(postal ilustrado, c. 1910)


'Time-ball’ de Boston, EUA, em 1881


Observatório de Greenwich, década de 1870.

No pequeno torreão, o balão e o seu mastro


Mecanismo dos 
balões das horas
(gravura oitocentista)






sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O TOLAN E A LISBOA DOS ANOS 80

«Pareces o Tolan», dizia-se, em Lisboa, de quem parecia apático ou indiferente. «Bodas à Tolan» eram de quem nunca mais casava. Perante qualquer coisa difícil, que não havia meio de acontecer, era: «Primeiro, ainda rebocam o Tolan!» O nome do barco entrou na gíria mais ou menos galhofeira como sinónimo de estar encalhado, de pessoa a quem ninguém conseguia «dar a volta». Havia os «jantares Tolan» para solteiros.

Não admira que alguém tivesse tido a ideia de chamar Tolan a um restaurante. Ainda existe, no n.º 134 da Rua dos Remédios (em Alfama), obviamente decorado com motivos náuticos alusivos. Nos anos 80, passava por lá aos sábados, quando costumava ir à Feira da Ladra. O nome fazia-me rir. Era também ponto de encontro dos feirantes, que trocavam piropos do estilo «Eh pá, bebes mais que o Tolan!»». Na Feira, havia quem vendesse fotografias e desenhos do Terreiro do Paço com o Tolan ao fundo. Toda a gente vivia suspensa no desenlace da história.

O verdadeiro Tollan foi um porta-contentores britânico que, na manhã de 16 de Fevereiro de 1980, sob um nevoeiro cerrado, colidiu no Tejo com o cargueiro sueco Barranduna. Virou-se. Dos dezasseis tripulantes, morreram quatro. Entre as vítimas encontrava-se um jovem casal indiano (Kanwaljit Singh Sandhu e Kulwinder Kaur) e a mulher do chefe da casa das máquinas Colin Campbell. Nos dias subsequentes, alguns mergulhadores conseguiram penetrar na carcaça, mas já não puderam salvar os que tinham ficado para trás. 

Os restos do Tollan ficaram ali tanto tempo que deixaram de ser apenas um naufrágio. Faziam parte da paisagem do Cais das Colunas, estilo monumento. Enorme, avermelhado, de quilha para cima, o cargueiro virado ficou a posar para Lisboa. As tentativas para o retirar sucediam-se e falhavam todas. Entretanto, havia excursões para o ver, anedotas, rábulas, canções, cafés, restaurantes e até animais baptizados com o seu nome. Na Rádio Renascença, António Sala anunciava, logo pela manhã: «O Tollan ainda está encalhado».

Assim permaneceu três anos, oito meses e quinze dias. Finalmente, na noite de 2 de Dezembro de 1983, às oito e vinte, uma gigantesca grua flutuante conseguiu finalmente dar-lhe a tão aguardada cambalhota. Lisboa perdia uma presença absurda, trágica e persistente, que já era quase sua. Os barcos todos do Tejo apitaram em uníssono nessa memorável hora. 


Marina Tavares Dias




sábado, 5 de setembro de 2026

LAMBERTINI NA AVENIDA DA LIBERDADE



No número 166 da Avenida da Liberdade subsiste uma das mais singulares fachadas da Lisboa do princípio do século XX. A casa foi mandada edificar por Michel Angelo Lambertini, músico, compositor, crítico, editor e comerciante de instrumentos musicais, descendente de uma família italiana estabelecida em Portugal desde 1836. Para desenhar essa residência escolheu outro italiano, o arquitecto veneziano Nicola Bigaglia, (autor do Palácio Lima Mayer, situado quase em frente).

O projecto deu entrada na CML em Agosto de 1901 e a construção prolongou-se durante três anos, obrigando Bigaglia a pedir sucessivas prorrogações da licença. Em Dezembro de 1904, Lambertini escrevia ao amigo José Relvas anunciando que a decoração estava terminada e que já podia recebê-lo naquilo a que chamava «o meu museu».

A casa foi concebida como habitação, como lugar para ouvir música, centro de convívio e exposição das colecções do proprietário. A fachada, de inspiração italiana, combina cantaria, ferro forjado, arcos, colunas e uma loggia superior, evocando simultaneamente os palácios florentinos e arquitectura veneziana. Mosaicos dourados ornamentam a grande janela do rés-do-chão. Vieram expressamente de Veneza. Em duas cartelas lê-se ainda a inscrição latina 'Domus quieta — Facultas certa': Casa tranquila, fortuna segura.

Por trás dessa janela ficava a sala de música, verdadeiro coração da morada. Decorada em estilo Luís XV, recebeu pinturas de José Malhoa alusivas a músicos consagrados. Bigaglia desenhou também a decoração interior e o mobiliário, em linhas Arte Nova. Quando a Ilustração Portugueza mostrou a casa aos leitores, em Junho de 1906, chamou-lhe «ninho de arte».

Tal felicidade doméstica durou pouco. Depois da morte da mulher (Maria Luciana Gomes) em 1914, Lambertini pôs o palacete e parte do recheio à venda. Em Dezembro de 1915, a propriedade passou para Elvira Martins Pereira de Carvalho. O seu antigo dono morreu em 1920, sem conseguir ver realizado o grande projecto a que dedicara os últimos anos: a criação do Museu Instrumental em Lisboa.

Comprada em 1939 pelo Grémio dos Importadores e Armazenistas de Bacalhau e Arroz, a casa sofreu profundas alterações (dirigidas por Raul Tojal). Perdeu parte dos interiores, ganhou nova escada, elevador e mais um piso. Outro projecto, apresentado em 1956 (que teria destruído a fachada), foi recusado pela CML. A Lambertini sbreviveu, embora modificada. E é ainda uma vaga recordação de Veneza, bem no centro de Lisboa.












'Illustração Portugueza',
Junho de 1906



Miguel Angelo Lambertini,
proprietário da casa, editor e comerciante de
instrumentos musicais em Lisboa




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A CASA DE SAÚDE DE BENFICA

A antiga Casa de Saúde de Benfica, cuja designação oficial era Portugal e Brasil, estava instalada numa zona ainda rural, então designada Bairro Herédia. O local é hoje ocupado pelo Hospital da Cruz Vermelha (actual Rua Duarte Galvão). O primeiro postal ilustrado, de 1910, circulou em 1911. O segundo, mostrando as instalações ampliadas, circulou em 1921. Na fotografia vê-se a fachada voltada para o parque, com galerias e terraços destinados à permanência dos doentes. São inúmeras as referências a internamentos e intervenções cirúrgicas aqui, na imprensa das décadas de 1910 a 1930.

A 30 de Novembro de 1961, o ministro das Obras Públicas, Eduardo de Arantes e Oliveira, visitou as obras de adaptação do edifício para o futuro Hospital de Santo António da Convalescença (Cruz Vermelha Portuguesa). O Hospital da Cruz Vermelha seria inaugurado a 1 de Fevereiro de 1965 e profundamente remodelado em 1998. Este antigo edifício, sucessivamente ampliado e transformado, ficou integrado no actual complexo de saúde, perdendo de todo a fisionomia aqui documentada.






Bilhetes-postais ilustrados da Casa de Saúde de Benfica.
Edição própria. Memorabilia/Arquivo MTD



Publicidade de 1910








quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CASA AFRICANA

Durante mais de um século, vendiam-se ali tecidos, vestidos casacos, camisas, atoalhados, batas de escola e de serviço… em suma, vendia-se de tudo. Vendiam-se também pedaços da vida lisboeta. A minha tia Luiza costumava dizer que, aos quinze anos, foi à Casa Africana comprar um casaco e acabou por ‘comprar’ o marido, que também andava às compras por lá. Setenta anos depois, guardei um casaco da Relicário apenas porque a loja fechou. Entre um casaco e outro,  passaram gerações da mesma família. É por isso que o desaparecimento de uma loja nunca é só o desaparecimento de uma coisa comercial. É por isso que fotografo ‘tudo’. Mesmo assim, cada fotografia mostra um lugar e também a ausência de todos aqueles que nunca cheguei a fotografar, precisamente porque pareciam ‘eternos’. 


A Casa Africana foi fundada em 1872 pela firma Raymundo Seixas & Fonseca, estabelecendo-se na Rua da Vitória (números 33 a 37). Pouco depois, alargou actividade à Rua Augusta (154 e 156), no edifício onde mais tarde se instalaria a Rosado & Pires. A empresa passou pelas firmas Loureiro & Paes e Loureiro, Rumina & Azevedo. 


Em 1901, foi adquirida por Manuel Freire da Cruz. Transferiu-se para o grande edifício da Rua Augusta (157 a 171), com frentes também para a Rua da Vitória (66 a 80), e Rua dos Sapateiros, (98 a 104). Ocupava inicialmente o rés-do-chão mas após longas obras de adaptação, expandiu secções por todos os andares do imóvel. Em 1911, com a saída do sócio José Mendes Cogumbreiro, a firma passou a designar-se Freire da Cruz & C.ª, Lda. Prosseguiu em expansão, com a abertura de uma filial no Porto, em 1914, na Rua de Sá da Bandeira. Manuel Freire da Cruz retirou-se da gerência em 1942, sucedendo-lhe o filho. No ano seguinte, entrou para a administração Racine Freire da Cruz. 


A empresa era sólida e vestia meia Lisboa das décadas de 50, 60 e 70. No último andar,  compravam-se as batas escolares. Entre elas, a do meu colégio, de bolinhas brancas sobre azul, sempre fabricada por encomenda. 


O carregador de embrulhos que ajudava os clientes mais frequentes era famoso desde os anos 20. Durante sete décadas, quando alguém era sobrecarregado de trabalho ou de embrulhos, dizia: 'Olha que eu não sou o preto da Casa Africana!' A expressão, que ainda aparece, sobreviveu à própria loja.


Nas últimas décadas do século XX, a Casa Africana manteve-se como referência do comércio tradicional lisboeta, continuando a atrair sucessivas gerações de clientes. As listas comerciais da Câmara Municipal de Lisboa registam-na em 1995. No levantamento de 1998, o mesmo edifício surge identificado como Naf Naf (loja francesa cuja presença estava a impor-se, nesse ano, na praça  lisboeta). A transição ocorreu entre essas duas datas, embora testemunho de antigos funcionários apontem para actividade ainda em 1999. 


Em 2000 o imóvel já não apresenta qualquer estabelecimento registado, encontrando-se provavelmente em remodelação. Em 2002 passou a Zara, que aí permaneceu até à abertura da mega-loja que agora ocupa todo um quarteirão do Rossio.



Marina Tavares Dias 






O símbolo da Casa Africana, 
célebre em Lisboa durante
décadas, na calçada do
passeio da Rua Augusta 

Interior do
primeiro andar

Vista nocturna
(Fotografia de H.Novaes)

Publicidade
do século XIX 

Cartaz da primeira 
década de 1900

Publicidade na contracapa
da 'Illustração Portugueza'

Papel de um embrulho
da década de 60




Anúncio numa parede 
do Porto 

Postal com logótipo da casa

Vitral da loja da Rua Augusta 

Em 1989 dirigi um suplemento 
no DIÁRIO DE LISBOA 
sobre as lojas históricas. 
A Casa Africana publicou
um anúncio de 1989
para comparação 
com o que eu escolhera,
então com mais de 50 anos


O último casaco 
comprado na Casa Africana