Tempos houve em que gritos de mil pregoeiros cruzavam Lisboa, numa tradição que parecia eterna. O clarim dos pregões anunciava quase tudo o que a cidade consumia: melancias, broas, pinhões, amoras, queijo, favas, marmelos, figos, mexilhão, morangos, azeitonas, ostras, ameijoas, azeite, tremoços, agulhas e alfinetes, garrafas, castiçais, abat-jours , etc, etc.
Os primeiros pregões, na
Roma antiga, constituíam uma espécie de jornal falado com as novidades do
Império. O pregão cantado nasceu depois, com a venda ambulante de produtos, e
foi uma constante em todas as cidades da Europa, do século XVI até ao século
XIX. Algumas povoações portuguesas tiveram vendedores ambulantes que compunham
verdadeiros madrigais. Os rapazes e as raparigas eram destinados, desde cedo,
ao futuro que cada voz garantia. Um pregão melodioso podia salvar da fome uma
família.
Em Lisboa, a tradição
também compunha algumas heranças inevitáveis. Muitas varinas da Madragoa, por
exemplo, passaram o seu pregão e a sua canastra de mãe para filha, até ao final
dos anos 50 deste século, altura em que muitos dos pregões mais conhecidos já
não ecoavam pelas ruas da cidade. Cem anos antes, no apogeu da venda ambulante,
elas não tinham ainda o seu estatuto de ex-libris
lisboeta. Os pregões eram tantos e tão típicos que ninguém poderia com justeza
assinalar interesse maior ou originalidade ímpar em qualquer deles.
Pela manhã dentro, os
vendedores de fruta, hortaliça, leite e doces chegavam dos arredores saloios.
Cabaz à cabeça ou burro pela arreata, eram esperados em todos os bairros.
Muitos pregões necessitariam de tradução, se não fossem já bem conhecidos dos
lisboetas: "Tamari-dôôôô!"; "A vinte-cincô-salami!";
"Éééé-chega-lá-vaquííínha-chega!".
Os forasteiros
espantavam-se com o hermetismo de algumas destas mensagens publicitárias, e com
o facto de em Lisboa tudo se mercar à porta de cada um, como se não houvesse
locais para tal destinados. Assim, o investigador portuense Alberto Pimentel,
ao ver passar os vendores ambulantes e os seus burros, carregados de alforges
com tudo aquilo de que uma cozinha gasta, espanta-se ao ponto de considerar
que, se no Porto a Praça do Anjo é uma necessidade, em Lisboa a Praça da
Figueira é um luxo: "Passa tudo pela porta, e basta só ter o incómodo de
descer à rua para comprar o jantar, porque os alforges das azêmolas são outras
tantas praças da Figueira ambulantes. Depois, passa-se tudo isso pelo lume, e
pode servir-se o jantar." (Photographias
de Lisboa, 1874).
Alguns produtos vinham,
de facto, já prontos para consumo, especialmente quando se destinavam às
classes mais pobres. Nos bancos do Rossio ou no Cais das Colunas, os
carregadores e os vendilhões sentavam-se em grupos, com um pequeno prato de
folha da Flandres nos joelhos, para comerem o mexilhão cozido que as negras de
saiotes de tarlatana vendiam pelas ruas, com grandes caldeirões à cabeça e um
grito repetido e famoso: "I...érre-érre, mexilhão!". Temperado com
colorau, tomate, cebola e alho, era a
refeição mais barata da Lisboa popular. Ia bem com o ambiente das tabernas, complementava
o vinho tinto. E, dizia Júlio Cezar Machado, "para o verdadeiro amador da
mexilhonada, a preta é essencial". Assim como o pregão singular, os seus
dois "R R", de cujo apogeu pelas ruas foi ela a única protagonista.
Mais recentemente - pelo
menos até à década de 50 - o pregão do "I..érre-érre" ouvia-se ainda,
ao cair da noite, entre Abril e Setembro, cantarolado pelos peixeiros e
peixeiras, muitas vezes com menu
completo, assim: "I...érre-érre, mexilhão / com molho à fragateira / e seu
alho zaraquitalho / e azeite de Santarém / ele é pouco mas sabe bem!".
Também a fava-rica, mercada aos alvores do dia,
vinha pronta para consumo, ensopada de azeite e pimenta. Por volta de 1850, a fava-rica era também segredo exclusivo
das negras. Secavam-na ao pé dos dentinhos de alho, para apaladar, e
deixavam-na a nadar no caldo em que ia ao lume. O transporte era, por isso,
muito arriscado. Sobre as rodilhas de trapos, equilibravam uma teiga de esparto
com duas vazilhas que se aconchegavam mutuamente. Se os garotos das rocas e palitos passavam correndo,
atirando com um safanão, havia caldeirada
sobre as saias de tarlatana e frasejar menos poético do que o poético pregão.
Alguns dos anúncios
ambulantes mais repetidos ao longo de todo o século XIX são impossíveis de
reproduzir graficamente. O ferro-velho,
por exemplo, que se resumia num rangido áspero, estridente, interminável. Ou o
silvado da gaita do amola-tesouras-e-navalhas,
hoje sobrevivente quase isolado no cancioneiro
das ruas.



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