sexta-feira, 22 de maio de 2026

NAVEGAR NO NIASSA

 O paquete Niassa, onde seguiram muitos militares portugueses rumo a Moçambique durante a Guerra Colonial, foi originalmente um navio civil de passageiros da Companhia Nacional de Navegação. Construído nos estaleiros Harland & Wolff, em Belfast (os mesmos de onde, em 1912, saíra o Titanic), entrou ao serviço em 1955, ligando Lisboa a Angola e Moçambique numa época em que as viagens marítimas ainda eram a grande ligação entre Portugal e o Ultramar. Tinha restaurantes, salões, convés de passeio e camarotes de várias classes, funcionando como verdadeiro transatlântico tropical do Estado Novo. 

Na fotografia, vê-se já a segunda vida do navio: a dos anos da guerra. centenas de soldados apinham-se nos conveses do Niassa durante a partida, enquanto famílias e amigos acenam do cais com lenços brancos. 

A partir de 1961, com o início da Guerra Colonial, o Niassa tornou-se um dos principais transportes de tropas para Angola, Guiné e Moçambique, realizando sucessivas viagens militares ao longo da década de 1960. Manteve durante anos muito do conforto e da atmosfera civil dos grandes paquetes portugueses, criando uma sensação quase irreal para os soldados: viajavam para a guerra em salões de navio com a elegância das rotas coloniais. 

Após o 25 de Abril, com o fim do império português em África, o Niassa participou no transporte de civis regressados das ex-colónias. Pouco depois, foi vendido ao estrangeiro, mudando várias vezes de nome até acabar desmantelado em Taiwan, em 1985. 

Para toda uma geração, o nome Niassa ficou ligado a esta imagem da despedida no cais: o último olhar para Portugal antes da travessia rumo à guerra.





sexta-feira, 15 de maio de 2026

A FADISTA MARIA VICTORIA

 Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.

Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.

Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.

Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.

Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.

A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia. 

Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.

Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.

O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.

Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.

A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa. 

Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

O INESQUECÍVEL ACTOR TABORDA

 O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.

Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.

Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil. 

O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.

Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.

Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.

Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.





domingo, 3 de maio de 2026

A LISBOA DE EMILIO BIEL

 Estas duas imagens — Avenida da Liberdade (N.º 82) e Praça de D. Pedro IV (N.º 72) — pertencem a um momento muito preciso da fotografia portuguesa: a maturidade da casa de Emílio Biel, na viragem do século XIX para o século XX. São a parte mais rara (Lisboa em estereoscopia) do seu sistema de produção de imagens com numeração, legenda e marca editorial.

Emílio Biel, alemão de origem, instala-se no Porto na década de 1860 e, a partir de 1874, ao adquirir a antiga Fotografia Fritz, transforma-se numa verdadeira fábrica de produção de imagens. O estúdio deixa de ser apenas espaço de retratos e passa a funcionar como oficina múltipla: fotografia de vistas, documentação industrial, edição e circulação. A marca “Emílio Biel & C.ª – Porto”, impressa lateralmente, é o selo dessa organização.

As fotografias mostram Lisboa num tempo de transição. A Avenida da Liberdade, aberta anos antes, ainda tem o carácter ajardinado, com árvores jovens, bancos alinhados e circulação pedonal tranquila. A presença da água, do gradeamento e das alamedas revela um espaço a afirmar-se como ‘boulevard’ moderno. O Rossio é um palco urbano. O quiosque com publicidade visível e a circulação de figuras mostram uma cidade viva mas ainda longe da densidade do século XX.

Tecnicamente, são provas fotográficas (albumina) montadas em cartão, com legenda tipográfica. Não são fototipias de álbum de grande circulação, mas também não seriam provas únicas: pertencem a série numerada, provavelmente vendida em livrarias e tabacarias. A numeração (72, 82) sugere um conjunto mais vasto, hoje apenas parcialmente conhecido, onde Biel organizava o território (Porto, Lisboa, outras cidades e paisagens) como reportório visual coerente.

Ao contrário de muitos fotógrafos contemporâneos, Emílio Biel trabalhava com lógica quase industrial: as mesmas chapas podiamm dar origem a diferentes formatos (prova montada, reprodução em álbum, fototipia ou imagem estereoscópica). Essa circulação de matrizes explica a consistência visual e a repetição de certos enquadramentos.

A datas do ‘clichés’ originais estarão entre 1890 e 1900. Já a Lisboa moderna, mas ainda com ritmos oitocentistas. São mais que documentos: constituem fragmentos de um projecto maior, que era fixar visualmente o país todo, em vários tipos de suporte fotográfico. Nesse sentido, são igualmente reflexo do trabalho do próprio fotógrafo, que organizou e difundiu a imagem de Portugal como quem constrói um arquivo para o futuro.