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sábado, 4 de julho de 2026

O GRANDE AMARANTE

Em Setembro de 1915, quando o escândalo provocado pela revista Orpheu ainda dominava as conversas de Lisboa, Estevão Amarante já fazia rir o público do Éden com uma rábula inspirada nas "poesias do Orfeu". Um poema publicado no Correio Popular de 19 de Setembro desse ano elogiava o jovem actor e aludia precisamente às "poesias do Orfeu" como um dos temas do seu repertório humorístico, testemunho raro da forma como o Modernismo passou quase de imediato da polémica literária para o palco da revista.

Nascido em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1889, Estevão Amarante começou a representar ainda criança. Estreou-se em 1900 e passou por peças infantis e pelas barracas das feiras de Alcântara e Algés. Desenvolveu um raro talento para observar e imitar  tipos populares. A estreia profissional, em 1906 no Teatro Avenida, iniciou a carreira fulgurante que o transformou num dos actores mais populares do país.

Ao longo de mais de cinquenta anos, interpretou dezenas de personagens inesquecíveis, sobretudo no teatro de revista, na opereta e na comédia musicada. Com Luísa Satanella fundou uma das mais bem-sucedidas companhias do seu tempo, responsável por sucessivos êxitos que estiveram meses em cena, como João Ratão e Água-Pé. Mais tarde, integrou a companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, demonstrando também qualidades no teatro declamado. Terminou a carreira entre o palco e o cinema, participando, entre outros filmes, em O Grande Elias e O Hóspede do Quarto 13. Morreu subitamente num restaurante do Porto, a 6 de Dezembro de 1951, quando continuava em plena actividade artística. Há cerca de duas décadas e meia, comprei parte do seu espólio, cujas fotografias e documentos evidenciam a polivalência e a energia com que se dedicava a tudo.

As imagens mostram um jovem elegante, consciente da sua imagem pública, mas também o artista de grande versatilidade e entusiasmo e a sua carreira ao longo de décadas. Entre retratos de estúdio, inúmeras fotografias caracterizado para os mais diversos papéis, programas de teatro, postais ilustrados, partituras impressas, licenças profissionais de artista dramático, inscrições como cocheiro amador e até matrículas de motociclista com side-car, o espólio permite descobrir o homem por trás do actor. O Grande Amarante: curioso, moderno, apaixonado pela técnica e pelos novos meios de transporte e sempre disponível para experimentar novas personagens e novos desafios.


Marina Tavares Dias
















sexta-feira, 15 de maio de 2026

A FADISTA MARIA VICTORIA

 Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.

Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.

Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.

Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.

Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.

A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia. 

Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.

Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.

O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.

Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.

A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa. 

Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

O INESQUECÍVEL ACTOR TABORDA

 O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.

Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.

Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil. 

O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.

Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.

Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.

Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.