Mostrar mensagens com a etiqueta #Lisboa #olisipografia #History #books #livro #Lisbon #Portugal #books #MarinaTavaresDias #Avenida da Liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #Lisboa #olisipografia #History #books #livro #Lisbon #Portugal #books #MarinaTavaresDias #Avenida da Liberdade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

RUA DO OURO

 

O plano de reconstrução da parte baixa de Lisboa determinou que se destruíssem todos os vestígios da malha urbana anterior a 1755 ali existentes, traçando-se em seu lugar dez ruas orientadas de norte para sul. A primeira a oriente, já fora da zona plana, é a Rua da Madalena; a primeira a ocidente existia já antes do terramoto, sendo aproveitada e alinhada depois: a Rua Nova do Almada. Destas, seis terminam no Terreiro do Paço e suas imediações, ficando quatro a desembocar na Rua dos Retroseiros (ou Rua da Conceição). São todas rasgadas por oito transversais correndo de nascente para poente, alinhadas e sóbrias, complementares das outras no que diz respeito a comércio e a serviços. Um bairro traçado a régua e esquadro, sem tempo nem meios para grandes diferenças entre os quarteirões, resume hoje o que foi uma verdadeira torre de Babel, dédalo de cantos e de recantos onde pululava a Lisboa gótica, suja e animada, com as suas misérias e grandezas, as suas tendas e os seus bazares, a sua alma intensa e incontrolável.

Os principais ramos de comércio da cidade setecentista foram distribuídos de acordo com o traçado das novas ruas, na base de um arruamento por profissão, bem ao modo iluminista, facilitando o abastecimento da cidade, o acesso a cada estabelecimento e a própria fiscalização. O decreto tem a data de 5 de Novembro de 1760, quando os quarteirões ainda estavam, em grande parte, por construir. “E reservando a distribuição das outras lojas daqueles ofícios que devem ter arruamentos, e que agora não puderam caber nas ruas que se acham abertas, para os determinar nas que tenho mandado alinhar, e abrir imediatamente, para complemento do plano da parte baixa da referida cidade […]” – reza o texto afixado em edital dez dias depois.

Comerciantes e artífices ficaram assim distribuídos: capelistas na Rua Nova d’El-Rei (mais tarde Rua dos Capelistas e Rua do Comércio); mercadores de tecidos nas ruas Augusta e de Santa Justa; ourives do ouro na Rua Áurea; ourives da prata e livreiros na Rua Bela da Rainha (mais tarde Rua da Prata); fanqueiros na Rua Nova da Princesa (mais tarde Rua dos Fanqueiros); latoeiros e douradores na Rua dos Douradores; correeiros e torneiros na Rua dos Correeiros; sapateiros na Rua dos Sapateiros; algibebes (adelos e ferros-velhos) na Rua de S. Julião; retroseiros na Rua da Conceição (cuja designação popular é ainda Rua dos Retroseiros); cerigueiros na Rua da Assunção; quinquilheiros nas ruas de S. Nicolau e da Vitória. 

Mais uma vez estamos perante um caso de topónimo duplo. A designação oficial da via é, desde 1760 e sem mudança até hoje, Rua Áurea. Mas o povo começou a chamar-lhe Rua do Ouro logo no início do século XIX e assim ela ficou em todas as bocas, em quase todos os documentos e mesmo no papel timbrado das firmas ali sediadas. Pastor de Macedo escreveu que “a Rua do Ouro é o Chiado da Baixa”, ou seja, “a artéria por onde a determinadas horas do dia passa tudo que em Lisboa deseja mostrar-se e deseja ver os que se mostram”. Júlio Cezar Machado retrata esse movimento em meados de Oitocentos com palavras de quem conhece aquilo de que fala: “A rua tinha duas horas ao dia de um tal ou qual movimento: à entrada e à saída das secretarias. Depois, pelo dia adiante, uma carruagem de vez em quando, alguma traquitana de praça, o omnibus da companhia, e os clássicos carros chiando estridulamente pelos eixos.”

Rapidamente a Rua do Ouro se transformou na artéria mais concorrida da Baixa, justificando mesmo o título de um livro de Alfredo Mesquita, editado em 1905 (“A Rua do Ouro – Romance Lisboeta”). Segundo este escritor, era ela “um símbolo […], a ficção do amor, a ficção do talento, a ficção do luxo, a ficção da honra […] Tudo o que luz mas não é oiro.” As fachadas sóbrias e homogéneas, com as suas montras em destaque e o remate em mansarda, ganharam patine e cores próprias, com janelas diversas e, sobretudo, com os cartazes, os toldos, os alpendres e os vidros publicitários.



Fotografias (de Paulo Guedes, Joshua Benoliel e C.A. Lima) 
cujos negativos pertencem hoje ao arquivo municipal de Lisboa




domingo, 3 de maio de 2026

A LISBOA DE EMILIO BIEL

 Estas duas imagens — Avenida da Liberdade (N.º 82) e Praça de D. Pedro IV (N.º 72) — pertencem a um momento muito preciso da fotografia portuguesa: a maturidade da casa de Emílio Biel, na viragem do século XIX para o século XX. São a parte mais rara (Lisboa em estereoscopia) do seu sistema de produção de imagens com numeração, legenda e marca editorial.

Emílio Biel, alemão de origem, instala-se no Porto na década de 1860 e, a partir de 1874, ao adquirir a antiga Fotografia Fritz, transforma-se numa verdadeira fábrica de produção de imagens. O estúdio deixa de ser apenas espaço de retratos e passa a funcionar como oficina múltipla: fotografia de vistas, documentação industrial, edição e circulação. A marca “Emílio Biel & C.ª – Porto”, impressa lateralmente, é o selo dessa organização.

As fotografias mostram Lisboa num tempo de transição. A Avenida da Liberdade, aberta anos antes, ainda tem o carácter ajardinado, com árvores jovens, bancos alinhados e circulação pedonal tranquila. A presença da água, do gradeamento e das alamedas revela um espaço a afirmar-se como ‘boulevard’ moderno. O Rossio é um palco urbano. O quiosque com publicidade visível e a circulação de figuras mostram uma cidade viva mas ainda longe da densidade do século XX.

Tecnicamente, são provas fotográficas (albumina) montadas em cartão, com legenda tipográfica. Não são fototipias de álbum de grande circulação, mas também não seriam provas únicas: pertencem a série numerada, provavelmente vendida em livrarias e tabacarias. A numeração (72, 82) sugere um conjunto mais vasto, hoje apenas parcialmente conhecido, onde Biel organizava o território (Porto, Lisboa, outras cidades e paisagens) como reportório visual coerente.

Ao contrário de muitos fotógrafos contemporâneos, Emílio Biel trabalhava com lógica quase industrial: as mesmas chapas podiamm dar origem a diferentes formatos (prova montada, reprodução em álbum, fototipia ou imagem estereoscópica). Essa circulação de matrizes explica a consistência visual e a repetição de certos enquadramentos.

A datas do ‘clichés’ originais estarão entre 1890 e 1900. Já a Lisboa moderna, mas ainda com ritmos oitocentistas. São mais que documentos: constituem fragmentos de um projecto maior, que era fixar visualmente o país todo, em vários tipos de suporte fotográfico. Nesse sentido, são igualmente reflexo do trabalho do próprio fotógrafo, que organizou e difundiu a imagem de Portugal como quem constrói um arquivo para o futuro.