Em Setembro de 1915, quando o escândalo provocado pela revista Orpheu ainda dominava as conversas de Lisboa, Estevão Amarante já fazia rir o público do Éden com uma rábula inspirada nas "poesias do Orfeu". Um poema publicado no Correio Popular de 19 de Setembro desse ano elogiava o jovem actor e aludia precisamente às "poesias do Orfeu" como um dos temas do seu repertório humorístico, testemunho raro da forma como o Modernismo passou quase de imediato da polémica literária para o palco da revista.
Nascido em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1889, Estevão Amarante começou a representar ainda criança. Estreou-se em 1900 e passou por peças infantis e pelas barracas das feiras de Alcântara e Algés. Desenvolveu um raro talento para observar e imitar tipos populares. A estreia profissional, em 1906 no Teatro Avenida, iniciou a carreira fulgurante que o transformou num dos actores mais populares do país.
Ao longo de mais de cinquenta anos, interpretou dezenas de personagens inesquecíveis, sobretudo no teatro de revista, na opereta e na comédia musicada. Com Luísa Satanella fundou uma das mais bem-sucedidas companhias do seu tempo, responsável por sucessivos êxitos que estiveram meses em cena, como João Ratão e Água-Pé. Mais tarde, integrou a companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, demonstrando também qualidades no teatro declamado. Terminou a carreira entre o palco e o cinema, participando, entre outros filmes, em O Grande Elias e O Hóspede do Quarto 13. Morreu subitamente num restaurante do Porto, a 6 de Dezembro de 1951, quando continuava em plena actividade artística. Há cerca de duas décadas e meia, comprei parte do seu espólio, cujas fotografias e documentos evidenciam a polivalência e a energia com que se dedicava a tudo.
As imagens mostram um jovem elegante, consciente da sua imagem pública, mas também o artista de grande versatilidade e entusiasmo e a sua carreira ao longo de décadas. Entre retratos de estúdio, inúmeras fotografias caracterizado para os mais diversos papéis, programas de teatro, postais ilustrados, partituras impressas, licenças profissionais de artista dramático, inscrições como cocheiro amador e até matrículas de motociclista com side-car, o espólio permite descobrir o homem por trás do actor. O Grande Amarante: curioso, moderno, apaixonado pela técnica e pelos novos meios de transporte e sempre disponível para experimentar novas personagens e novos desafios.
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