sábado, 6 de junho de 2026

 

Este raríssimo postal ilustrado documenta a transferência da histórica camisaria de Avelino de Magalhães Pitta para a Rua Augusta. 'O Pitta' sempre foi uma referência da elegância lisboeta, e este documento revela mais sobre a sua história que as actuais informações hoje online, fontes de repetição sem verificação documental.

A camisaria foi fundada em 1885, na Rua de São Julião, por Avelino de Magalhães Pitta, comerciante lisboeta cujo nome surge frequentemente abreviado como A. M. Pitta. Sei que era filho de José Rodrigues Pitta e de Josefa Maria de Magalhães,e a sua figura permaneceu durante décadas simbolicamente presente na loja, através de um retrato emoldurado, mesmo quando já poucos conheciam a sua identidade completa.

Em 1902, Avelino de Magalhães Pitta surge como solicitando obras no edifício da Rua Augusta, data que coincide com a mudança da camisaria para a morada que a tornaria célebre. A fachada representada neste postal — ainda nova, cuidadosamente preparada para a fotografia promocional — exibe a designação «CAMISEIRO» em destaque, com o apelido PITTA funcionando quase como assinatura de qualidade. O enquadramento frontal, as montras meticulosamente organizadas e a figura colocada à entrada revelam claramente uma imagem concebida para anunciar a nova instalação da firma aos seus clientes.

Nos últimos anos da Monarquia Constitucional, a casa consolidou reputação de excelência no vestuário masculino como fornecedora do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Integrava o restrito círculo de estabelecimentos associados à elegância da corte lisboeta, e a ligação à Família Real tornou-se uma das marcas da sua identidade.

Tudo o que hoje se lê on-line repete as mesmas informações, muitas vezes com datas contraditórias e erros que foram sendo copiados de texto para texto. A cronologia da mudança para a Rua Augusta aparece frequentemente deturpada por sucessivos «copy-paste», fenómeno agravado pelo desaparecimento do arquivo histórico da empresa (estava depositado num cofre do Chiado e ardeu em 1988), pela perda da memória familiar e e pelo trespasse da casa, em 1977 (para um antigo empregado). 

Depois de mais de 130 anos de actividade, a histórica camisaria encerrou definitivamente em 31 de Maio de 2018. Nem a integração no programa municipal das Lojas com História conseguiu evitar o desaparecimento da casa, considerada por muitos a mais antiga camisaria da Península Ibérica. A fachada histórica da Rua Augusta foi preservada, mas o interior perdeu a função que lhe dera fama durante mais de um século.

O Pitta Camiseiro chegou também ao cinema português. Em 'O Costa do Castelo' (de Arthur Duarte, 1943), num diálogo frequentemente citado de forma errada, António Silva, ao tocar no tecido de uma camisa de seda, exclama simplesmente:

«Isto é Pitta!»

A frase bastava para o público compreender imediatamente a referência. Numa Lisboa onde o nome da camisaria era sinónimo de qualidade, não era necessária qualquer explicação adicional.





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