Durante mais de um século, vendiam-se ali tecidos, vestidos casacos, camisas, atoalhados, batas de escola e de serviço… em suma, vendia-se de tudo. Vendiam-se também pedaços da vida lisboeta. A minha tia Luiza costumava dizer que, aos quinze anos, foi à Casa Africana comprar um casaco e acabou por ‘comprar’ o marido, que também andava às compras por lá. Setenta anos depois, guardei um casaco da Relicário apenas porque a loja fechou. Entre um casaco e outro, passaram gerações da mesma família. É por isso que o desaparecimento de uma loja nunca é só o desaparecimento de uma coisa comercial. É por isso que fotografo ‘tudo’. Mesmo assim, cada fotografia mostra um lugar e também a ausência de todos aqueles que nunca cheguei a fotografar, precisamente porque pareciam ‘eternos’.
A Casa Africana foi fundada em 1872 pela firma Raymundo Seixas & Fonseca, estabelecendo-se na Rua da Vitória (números 33 a 37). Pouco depois, alargou actividade à Rua Augusta (154 e 156), no edifício onde mais tarde se instalaria a Rosado & Pires. A empresa passou pelas firmas Loureiro & Paes e Loureiro, Rumina & Azevedo.
Em 1901, foi adquirida por Manuel Freire da Cruz. Transferiu-se para o grande edifício da Rua Augusta (157 a 171), com frentes também para a Rua da Vitória (66 a 80), e Rua dos Sapateiros, (98 a 104). Ocupava inicialmente o rés-do-chão mas após longas obras de adaptação, expandiu secções por todos os andares do imóvel. Em 1911, com a saída do sócio José Mendes Cogumbreiro, a firma passou a designar-se Freire da Cruz & C.ª, Lda. Prosseguiu em expansão, com a abertura de uma filial no Porto, em 1914, na Rua de Sá da Bandeira. Manuel Freire da Cruz retirou-se da gerência em 1942, sucedendo-lhe o filho. No ano seguinte, entrou para a administração Racine Freire da Cruz.
A empresa era sólida e vestia meia Lisboa das décadas de 50, 60 e 70. No último andar, compravam-se as batas escolares. Entre elas, a do meu colégio, de bolinhas brancas sobre azul, sempre fabricada por encomenda.
O carregador de embrulhos que ajudava os clientes mais frequentes era famoso desde os anos 20. Durante sete décadas, quando alguém era sobrecarregado de trabalho ou de embrulhos, dizia: 'Olha que eu não sou o preto da Casa Africana!' A expressão, que ainda aparece, sobreviveu à própria loja.
Nas últimas décadas do século XX, a Casa Africana manteve-se como referência do comércio tradicional lisboeta, continuando a atrair sucessivas gerações de clientes. As listas comerciais da Câmara Municipal de Lisboa registam-na em 1995. No levantamento de 1998, o mesmo edifício surge identificado como Naf Naf (loja francesa cuja presença estava a impor-se, nesse ano, na praça lisboeta). A transição ocorreu entre essas duas datas, embora testemunho de antigos funcionários apontem para actividade ainda em 1999.
Em 2000 o imóvel já não apresenta qualquer estabelecimento registado, encontrando-se provavelmente em remodelação. Em 2002 é a Zara, que aí permanece. Mais uma Zara…
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