sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O TOLAN E A LISBOA DOS ANOS 80

«Pareces o Tolan», dizia-se, em Lisboa, de quem parecia apático ou indiferente. «Bodas à Tolan» eram de quem nunca mais casava. Perante qualquer coisa difícil, que não havia meio de acontecer, era: «Primeiro, ainda rebocam o Tolan!» O nome do barco entrou na gíria mais ou menos galhofeira como sinónimo de estar encalhado, de pessoa a quem ninguém conseguia «dar a volta». Havia os «jantares Tolan» para solteiros.

Não admira que alguém tivesse tido a ideia de chamar Tolan a um restaurante. Ainda existe, no n.º 134 da Rua dos Remédios (em Alfama), obviamente decorado com motivos náuticos alusivos. Nos anos 80, passava por lá aos sábados, quando costumava ir à Feira da Ladra. O nome fazia-me rir. Era também ponto de encontro dos feirantes, que trocavam piropos do estilo «Eh pá, bebes mais que o Tolan!»». Na Feira, havia quem vendesse fotografias e desenhos do Terreiro do Paço com o Tolan ao fundo. Toda a gente vivia suspensa no desenlace da história.

O verdadeiro Tollan foi um porta-contentores britânico que, na manhã de 16 de Fevereiro de 1980, sob um nevoeiro cerrado, colidiu no Tejo com o cargueiro sueco Barranduna. Virou-se. Dos dezasseis tripulantes, morreram quatro. Entre as vítimas encontrava-se um jovem casal indiano (Kanwaljit Singh Sandhu e Kulwinder Kaur) e a mulher do chefe da casa das máquinas Colin Campbell. Nos dias subsequentes, alguns mergulhadores conseguiram penetrar na carcaça, mas já não puderam salvar os que tinham ficado para trás. 

Os restos do Tollan ficaram ali tanto tempo que deixaram de ser apenas um naufrágio. Faziam parte da paisagem do Cais das Colunas, estilo monumento. Enorme, avermelhado, de quilha para cima, o cargueiro virado ficou a posar para Lisboa. As tentativas para o retirar sucediam-se e falhavam todas. Entretanto, havia excursões para o ver, anedotas, rábulas, canções, cafés, restaurantes e até animais baptizados com o seu nome. Na Rádio Renascença, António Sala anunciava, logo pela manhã: «O Tollan ainda está encalhado».

Assim permaneceu três anos, oito meses e quinze dias. Finalmente, na noite de 2 de Dezembro de 1983, às oito e vinte, uma gigantesca grua flutuante conseguiu finalmente dar-lhe a tão aguardada cambalhota. Lisboa perdia uma presença absurda, trágica e persistente, que já era quase sua. Os barcos todos do Tejo apitaram em uníssono nessa memorável hora. 


Marina Tavares Dias




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