No número 166 da Avenida da Liberdade subsiste uma das mais singulares fachadas da Lisboa do princípio do século XX. A casa foi mandada edificar por Michel Angelo Lambertini, músico, compositor, crítico, editor e comerciante de instrumentos musicais, descendente de uma família italiana estabelecida em Portugal desde 1836. Para desenhar essa residência escolheu outro italiano, o arquitecto veneziano Nicola Bigaglia, (autor do Palácio Lima Mayer, situado quase em frente).
O projecto deu entrada na CML em Agosto de 1901 e a construção prolongou-se durante três anos, obrigando Bigaglia a pedir sucessivas prorrogações da licença. Em Dezembro de 1904, Lambertini escrevia ao amigo José Relvas anunciando que a decoração estava terminada e que já podia recebê-lo naquilo a que chamava «o meu museu».
A casa foi concebida como habitação, como lugar para ouvir música, centro de convívio e exposição das colecções do proprietário. A fachada, de inspiração italiana, combina cantaria, ferro forjado, arcos, colunas e uma loggia superior, evocando simultaneamente os palácios florentinos e arquitectura veneziana. Mosaicos dourados ornamentam a grande janela do rés-do-chão. Vieram expressamente de Veneza. Em duas cartelas lê-se ainda a inscrição latina 'Domus quieta — Facultas certa': Casa tranquila, fortuna segura.
Por trás dessa janela ficava a sala de música, verdadeiro coração da morada. Decorada em estilo Luís XV, recebeu pinturas de José Malhoa alusivas a músicos consagrados. Bigaglia desenhou também a decoração interior e o mobiliário, em linhas Arte Nova. Quando a Ilustração Portugueza mostrou a casa aos leitores, em Junho de 1906, chamou-lhe «ninho de arte».
Tal felicidade doméstica durou pouco. Depois da morte da mulher (Maria Luciana Gomes) em 1914, Lambertini pôs o palacete e parte do recheio à venda. Em Dezembro de 1915, a propriedade passou para Elvira Martins Pereira de Carvalho. O seu antigo dono morreu em 1920, sem conseguir ver realizado o grande projecto a que dedicara os últimos anos: a criação do Museu Instrumental em Lisboa.
Comprada em 1939 pelo Grémio dos Importadores e Armazenistas de Bacalhau e Arroz, a casa sofreu profundas alterações (dirigidas por Raul Tojal). Perdeu parte dos interiores, ganhou nova escada, elevador e mais um piso. Outro projecto, apresentado em 1956 (que teria destruído a fachada), foi recusado pela CML. A Lambertini sbreviveu, embora modificada. E é ainda uma vaga recordação de Veneza, bem no centro de Lisboa.












