sábado, 19 de setembro de 2026

O BALÃO DO ARSENAL

Muito antes de Nova Iorque celebrar a passagem do ano com a descida da bola de Times Square, Lisboa tinha o seu próprio «balão do tempo». Todos os dias, à uma da tarde, uma esfera negra caía sobre o Arsenal da Marinha, anunciando a hora oficial da cidade e permitindo aos navios do Tejo acertar os cronómetros.

O Balão do Arsenal fazia parte do Observatório Astronómico da Marinha e destinava-se, sobretudo, à ajuda da navegação. Mas o sinal era igualmente utilizado por todos os relógios públicos e muitos dos relógios particulares da capital. Entrou em funcionamento em Novembro de 1858. O aviso publicado no ‘Diário do Governo’ de 9 desse mês informa que, todos os dias, o balão subiria a meio mastro quinze minutos antes da uma da tarde, elevar-se-ia ao topo cinco minutos antes e cairia exactamente quando o relógio do Observatório marcasse a uma hora média. Em dias nublados, quando não fosse possível determinar com rigor a passagem meridiana do Sol, o Observatório advertia que poderiam ocorrer pequenas diferenças na indicação da hora.

Desde a década de 1830 que os grandes portos marítimos adoptavam as chamadas ‘time balls’, esferas que caíam a uma hora rigorosamente determinada para que os navios pudessem acertar cronómetros de bordo. A mais famosa era a de Greenwich (ainda hoje em funcionamento), mas existiam outras em Portsmouth, Liverpool, Edimburgo, Hamburgo, Sydney, Cidade do Cabo, Hong Kong e muitas mais cidades portuárias. 

Este primeiro balão era extremamente simples, accionado manualmente por uma corda. Augusto Ramos Costa, vice-almirante, viria mesmo a classificá-lo como um «irrisório», acrescentando que o sistema era alvo de troça e descrédito, ao ponto de almanaques náuticos ingleses e franceses alertarem para a pouca confiança que mereciam os sinais horários de Lisboa.

A situação alterou-se com a inauguração, a 15 de Agosto de 1885, de novo balão, concebido sob direcção do oficial da Armada e engenheiro-hidrógrafo Frederico Augusto Oom (primeiro director do Real Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda). Junto ao dique do Arsenal, era uma notável obra de engenharia para a sua época. O mastro tinha sete metros de altura e o balão, pintado de negro, tinha um metro de diâmetro, pesando quase 24 quilos. Cinco minutos antes da hora era içado a meio mastro; nos três minutos seguintes subia lentamente até ao topo, onde permanecia até cair automaticamente, accionado por um contacto eléctrico vindo do Observatório da Ajuda e situado a cerca de quatro quilómetros.

Logo que o balão descia, ouviam-se muitos apitos das embarcações no Tejo, em manifestação festiva. Por breves instantes, aquilo animava a cidade. Estava previsto que a queda seria acompanhada por um enorme tiro, bastando ao oficial de serviço premir o botão eléctrico, mas esse complemento não chegou a generalizar-se. Quando o mecanismo falhava ou o mau tempo impedia o seu funcionamento, içavam um cilindro vermelho (aviso aos observadores de que o sinal não devia ser considerado válido).

Continuaram as críticas, porque muitos navios mercantes não conseguiam observar correctamente a queda, quer pela reduzida dimensão da esfera, quer porque esta se projectava sobre os telhados escuros do Arsenal. 

Augusto Ramos da Costa chegou a defender a transferência do sistema para a margem sul do Tejo, onde seria mais visível. Em 1911 foi nomeada uma comissão para estudar a substituição do Balão do Arsenal por sistema mais moderno. Entretanto, Portugal adoptava oficialmente o meridiano de Greenwich e reorganizava todo o serviço da hora legal. Segundo Augusto Vieira da Silva, o balão deu o seu último sinal às treze horas de 31 de Dezembro de 1915. Mário Costa chama contudo a atenção para uma gravura da Sala do Risco, realizada após o incêndio de 18 de Abril de 1916, onde o velho balão ainda aparece no seu lugar, sugerindo que a desmontagem não terá sido imediata. Sabe-se igualmente que o primeiro balão foi conservado como peça de museu na Sala do Risco, desaparecendo no incêndio.

A partir de 1914, a função de regulador da hora oficial passou gradualmente para o grande relógio do Cais do Sodré, ligado electricamente ao Observatório Astronómico. O Balão do Arsenal ficou como memória de uma Lisboa em que bastava olhar para o céu para acertar o relógio.


Marina Tavares Dias 




Balão do Arsenal
em 1887

 

Balão de Edimburgo

(litografia de 1861⁠)


Torre do balão de Deal, Kent 

(postal ilustrado, c. 1910)


'Time-ball’ de Boston, EUA, em 1881


Observatório de Greenwich, década de 1870.

No pequeno torreão, o balão e o seu mastro


Mecanismo dos 
balões das horas
(gravura oitocentista)






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