A higiene é, na Lisboa do
século XIX - e com base nos hábitos de asseio setecentistas -, uma
extravagância. A maior parte das casas lisboetas não conhece compartimentos
destinados ao banho; os balneários públicos são raros. Assim, recomendam-se,
como profilácticas, as águas do rio. E - mais do que as praias - as barcas, que
vão até fora de pé, permitindo a imersão do corpo. A selha para banho não é
objecto comum nas casas particulares. Quase sempre, existem apenas bacias, para
lavagens locais, com múltiplos usos. O costume dos banhos no rio vulgariza-se,
provocando algumas anedotas nas publicações da época: a água do Tejo, nessas escassas
oportunidades de lavar o corpo, era o "banho usado ontem" por outros
utentes das chamadas barcas de banhos.
Segundo Ramalho Ortigão,
o Tejo "tranquilo, sereno como um lago", proporcionava "o melhor
dos banhos, na maré enchente, para as crianças fraquinhas, para as mulheres
débeis, fatigadas" (As Praias de
Portugal, 1876). Confiantes nas virtudes do rio, as barcas fizeram época e história. Já nos primeiros anos de
Oitocentos, elas ancoravam no Cais do Sodré, na Ribeira Nova ou na praia da
Junqueira, esperando fregueses até perto do meio-dia. A época balnear começava só em Setembro, porque Agosto era, por
excelência, o mês consagrado às quintas dos arredores saloios.

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