sábado, 26 de setembro de 2026

AS BARCAS DE BANHOS

 

A higiene é, na Lisboa do século XIX - e com base nos hábitos de asseio setecentistas -, uma extravagância. A maior parte das casas lisboetas não conhece compartimentos destinados ao banho; os balneários públicos são raros. Assim, recomendam-se, como profilácticas, as águas do rio. E - mais do que as praias - as barcas, que vão até fora de pé, permitindo a imersão do corpo. A selha para banho não é objecto comum nas casas particulares. Quase sempre, existem apenas bacias, para lavagens locais, com múltiplos usos. O costume dos banhos no rio vulgariza-se, provocando algumas anedotas nas publicações da época: a água do Tejo, nessas escassas oportunidades de lavar o corpo, era o "banho usado ontem" por outros utentes das chamadas barcas de banhos.

Segundo Ramalho Ortigão, o Tejo "tranquilo, sereno como um lago", proporcionava "o melhor dos banhos, na maré enchente, para as crianças fraquinhas, para as mulheres débeis, fatigadas" (As Praias de Portugal, 1876). Confiantes nas virtudes do rio, as barcas fizeram época e história. Já nos primeiros anos de Oitocentos, elas ancoravam no Cais do Sodré, na Ribeira Nova ou na praia da Junqueira, esperando fregueses até perto do meio-dia. A época balnear começava só em Setembro, porque Agosto era, por excelência, o mês consagrado às quintas dos arredores saloios.




Barcas de banhos no Tejo 
(em: Sketches of Portuguese Life, 
Manners, Costume, and Character : 
illustrated by twenty coloured plates 
 by A. P. D. G.. - London,
printed for Geo. B. Whittaker 
 by R. Gilbert, St. 1826.)


Barca de banhos Gratidão
fundeada em Belém
(fotografia geralmente atribuída 
a Amedée de Ternante, c. 1858)


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