Em 1837, foi fundada a primeira companhia dos Transportes Colectivos de Lisboa. E começou a era do omnibus.
O omnibus partia do Largo do Pelourinho e fazia carreiras para Belém e Pedrouços. Lá dentro, era o fim do mundo. As mulheres usavam crinolinas e ocupavam o lugar de três passageiros, os homens admoestavam o cocheiro pela lentidão do serviço, e a mistura das classes - novidade absoluta - nem sempre respondia pacificamente aos palavrões das peixeiras. Contavam-se coisas épicas: aquelas bisarmas passavam rente aos prédios, à altura de um terceiro andar, arrancavam varandas e arrastavam os ramos das árvores. Geralmente, aconselhava-se prudência e acesso normalizado pela porta do fundo... através da qual as saias de balão nem sequer cabiam. Foi o advento dos transportes públicos que acabou de vez com a moda das crinolinas.
Fialho de Almeida considerou os omnibus "uma aplicação prática da nau de Vasco da Gama ao trânsito das ruas". Aquilo, que ia pelas calçadas "cascalhando ferragens, numa estrupida de cadeiras que batiam", era uma aventura antes da qual convinha redigir testamento. Os moradores dos andares altos situados na passagem do monstro "já não caíam em descer as escadas do prédio: quando o omnibus vinha na vertical, passavam as pernas fora da varanda, e ei-los no tejadilho do carro dando bons dias aos outros passageiros".
Mesmo assim, "uma pessoa metia-se no omnibus, e sabia que, embora devagar, com mais solavanco menos solavanco, mais hora menos hora, mais dor nos rins menos dor nos rins, chegaria ao seu destino com vida, com alegria, com a graça de Deus" (Alfredo Mesquita, Alfacinhas). O progresso em movimento. Mas devagar. Do Pelourinho a Benfica, pelas ruas quase desertas, levava-se hora e meia, quando não havia delongas. Os fregueses liam o jornal do dia ou dormiam a sesta. O bilhete comprava-se de véspera e os melhores lugares já estavam tomados uma hora antes da partida. Os pretendentes ao passeio eram sempre mais do que a lotação permitia (de 16 a 24 lugares e mais oito no tejadilho).
De início, só muito raramente se utilizava o omnibus nos afazeres quotidianos. Em caso de pressa, continuava a ser melhor ir pelo próprio pé. Depois, os caixeiros da Baixa começaram a habituar-se à ideia de irem apinhados "como sardinha em tijela", e só então nasceu o transporte público, no conceito que ainda hoje Lisboa dele faz. Tal é a herança do homérico omnibus. E bem sabiam o que faziam as lavadeiras de Caneças, que se benziam dez vezes - como se tivessem visto o fim do mundo -, ao vê-lo passar, no seu bumba-bumba, pela calçada de S. Sebastião da Pedreira.
Quando arderam as cocheiras e morreram dezenas de cavalos, a companhia decretou o fim dos magestáticos caixotes. Desapareceram oficialmente em 1865, deixando a todos os veículos seus herdeiros uma tarefa doravante muito fácil: retomar sem esforço os hábitos de transporte público que Lisboa tinha adquirido.

Sem comentários:
Enviar um comentário