sábado, 24 de outubro de 2026

O OMNIBUS

Em 1837, foi fundada a primeira companhia dos Transportes Colectivos de Lisboa. E começou a era do omnibus.

O omnibus partia do Largo do Pelourinho e fazia carreiras para Belém e Pedrouços. Lá dentro, era o fim do mundo. As mulheres usavam crinolinas e ocupavam o lugar de três passageiros, os homens admoestavam o cocheiro pela lentidão do serviço, e a mistura das classes - novidade absoluta - nem sempre respondia pacificamente aos palavrões das peixeiras. Contavam-se coisas épicas: aquelas bisarmas passavam rente aos prédios, à altura de um terceiro andar, arrancavam varandas e arrastavam os ramos das árvores. Geralmente, aconselhava-se prudência e acesso normalizado pela porta do fundo... através da qual as saias de balão nem sequer cabiam. Foi o advento dos transportes públicos que acabou de vez com a moda das crinolinas.

Fialho de Almeida considerou os omnibus "uma aplicação prática da nau de Vasco da Gama ao trânsito das ruas". Aquilo, que ia pelas calçadas "cascalhando ferragens, numa estrupida de cadeiras que batiam", era uma aventura antes da qual convinha redigir testamento. Os moradores dos andares altos situados na passagem do monstro "já não caíam em descer as escadas do prédio: quando o omnibus vinha na vertical, passavam as pernas fora da varanda, e ei-los no tejadilho do carro dando bons dias aos outros passageiros".

Mesmo assim, "uma pessoa metia-se no omnibus, e sabia que, embora devagar, com mais solavanco menos solavanco, mais hora menos hora, mais dor nos rins menos dor nos rins, chegaria ao seu destino com vida, com alegria, com a graça de Deus" (Alfredo Mesquita, Alfacinhas). O progresso em movimento. Mas devagar. Do Pelourinho a Benfica, pelas ruas quase desertas, levava-se hora e meia, quando não havia delongas. Os fregueses liam o jornal do dia ou dormiam a sesta. O bilhete comprava-se de véspera e os melhores lugares já estavam tomados uma hora antes da partida. Os pretendentes ao passeio eram sempre mais do que a lotação permitia (de 16 a 24 lugares e mais oito no tejadilho). 

De início, só muito raramente se utilizava o omnibus nos afazeres quotidianos. Em caso de pressa, continuava a ser melhor ir pelo próprio pé. Depois, os caixeiros da Baixa começaram a habituar-se à ideia de irem apinhados "como sardinha em tijela", e só então nasceu o transporte público, no conceito que ainda hoje Lisboa dele faz. Tal é a herança do homérico omnibus. E bem sabiam o que faziam as lavadeiras de Caneças, que se benziam dez vezes - como se tivessem visto o fim do mundo -, ao vê-lo passar, no seu bumba-bumba, pela calçada de S. Sebastião da Pedreira.

Quando arderam as cocheiras e morreram dezenas de cavalos, a companhia decretou o fim dos magestáticos caixotes. Desapareceram oficialmente em 1865, deixando a todos os veículos seus herdeiros uma tarefa doravante muito fácil: retomar sem esforço os hábitos de transporte público que Lisboa tinha adquirido.



Interior de um omnibus
(ónibus). Carte-de-visite com
reprodução de desenho, c. 1865


Gravura ampliada a partir do 
cabeçalho das acções
da companhia de transportes
colectivos de Lisboa
(1837)






sexta-feira, 16 de outubro de 2026

TELHEIRAS, ARRABALDE AMENO

O lugar de Telheiras consistia em menos de quatro dezenas de casas térreas, albergando, ao todo, por volta de 1860, cerca de 150 pessoas. O núcleo histórico designado por «Telheiras velha» incluía ainda, quando ali fui em 1992, algumas das casas do tempo, assim como vestígios das muitas quintas contíguas. O convento franciscano da aldeia, dedicado a Nossa Senhora da Porta do Céu e habitualmente datado de 1633, foi pago por um príncipe asiático, D. João de Cândia, senhor de parte do Ceilão, que ali quis ser sepultado.

O príncipe nascera no Ceilão, em 1578. Ainda criança, foi desapossado do trono pelo próprio tio; levado para a ilha de Manar e, depois, para Goa. A viagem daí para Lisboa talvez lhe tenha sido imposta pelos frades portugueses que o haviam tomado sob protecção. D. João fê-la com a esperança de reclamar, junto dos espanhóis, então senhores de toda a península, o reino perdido.

O caso foi esquecido, tacticamente, entre os mil ofícios e desembargos que, todos os dias, ocupavam a Coroa. Renunciando à Cândia, à Cota, Ceitavaca e Cetecorlas, D. João tomou hábitos em 1625 e cingiu o cordão franciscano. Recebeu 4 mil cruzados da parte da coroa espanhola e uma autorização para fixar residência em Lisboa.

Comprou uma pequena quinta, no caminho entre os campos de Alvalade e o sítio da Luz. A instalação do oratório e do convento fez-se por etapas, nos anos seguintes, sob a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu. A data exacta da fundação conventual permanece discutida: importa não confundir a criação da irmandade, em 1625, com a construção dos edifícios e a instalação dos religiosos. Frei Agostinho de Santa Maria, no Santuário Mariano, diz que o príncipe esperava, nessa invocação, agraciar a Virgem, para que à alma, em tempos pecadora, Ela franqueasse as portas do paraíso.

D. João morreu em casa, no seu palácio da Mouraria, em Abril de 1642. Deixou testamento a favor dos frades e de uma filha, D. Maria de Cândia, freira franciscana na Vialonga. Mas nem o último desejo lhe respeitaram. Acabaram as pratas e os tapetes divididos pelos ministérios, apesar dos muitos rogos feitos pelos frades de Telheiras. Arrastaram-se os litígios até 1782, quando a rainha interveio a favor da confraria.

O terramoto arruinou bastante a igreja, danificando também a sepultura do fundador. Pombal considerou o lugar de Telheiras digno da sua visita, tendo ordenado reconstrução imediata do templo. As obras terminaram em 1768, como atesta a placa da fachada.

Recuperado o antigo esplendor, os novos altares contavam com inúmeros devotos que, de propósito, vinham de Lisboa. A 4 de Outubro, dia de romarias, celebravam-se as festas da Senhora da Porta do Céu. Na capela da banda da Epístola, o altar da Senhora do Bom Parto — a chamada Virgem do Ó — também motivava grande devoção.

Mas a maldição que sempre perseguira o príncipe D. João arrastou-se durante séculos no convento por ele fundado. Durante a guerra civil, Telheiras estava em pleno campo de batalha. A igreja foi saqueada em 1833; paramentos e alfaias, roubados; a biblioteca, completamente destruída. Desmontaram-se os sinos e o relógio da torre e vendeu-se tudo a pataco.

No final do século XIX, a talha de madeira do altar-mor apodrecia a olhos vistos e o sobrado da sacristia tinha sido levado para guarnecer a casa de um ministro. A igreja escapou por um triz de ser vendida em hasta pública e passar a cocheira. Mas as imagens que nela restavam partiram de vez, em direcção à ermida do Campo Grande.

O golpe de misericórdia foi dado pelo assalto de 1910. Arrancaram-se as lápides e profanaram-se as sepulturas. Do túmulo do príncipe sobreviveram a pedra com a inscrição e o brasão, recolhidos em 1927 no Museu Arqueológico do Carmo. Quanto às ossadas, a história publicada pela paróquia refere que, no restauro de 1941, foram reunidas no antigo carneiro, juntamente com as dos restantes defuntos da capela-mor. Não é, porém, uma identificação individual dos restos de D. João.

Vendido o convento, as antigas dependências passaram a abrigar inúmeras famílias. A tradicional taberna ocupou-lhe a entrada e lá permanecia em 1992, quando visitei o local.

Quanto à igreja, conseguiu sobreviver ao longo calvário, reabrindo ao público no dia 22 de Agosto de 1941, com o coro reconstruído e paredes caiadas. Em 1992, era um templo sossegado, de frequentadores certos e devotos que continuavam a ir de propósito a Telheiras para assistir à missa. Num esforço para recuperar a memória do lugar, o Centro Cultural de Telheiras publicara, em 1991, o primeiro dos seus cadernos «Ceilão e Telheiras», parcialmente dedicado à história do convento.

Ao longo da antiga Estrada de Telheiras, fronteira ao templo, quase todas as casas pertenciam já à EPUL — Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. Os habitantes queixavam-se da degradação a que tinham chegado os prédios e da «pressão psicológica» para que abandonassem as casas onde muitos deles haviam nascido. A estrada antiga conservava o seu aspecto de aldeia, agora a dois passos das urbanizações, aprazível e silenciosa. Seria absurdo não aproveitar este núcleo histórico para valorizar toda a zona. Mas, enquanto nada se fazia, Telheiras velha ia caindo, do Pátio do Malaquias à Quinta de S. Vicente.

Texto de

Marina Tavares Dias 

para o volume III da

LISBOA DESAPARECIDA (1992)


Depois de 1992:

O núcleo antigo conheceu, entretanto, algumas das intervenções que então eu reclamava. No antigo Solar da Nora abriu, em 18 de Dezembro de 2003, a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, trazendo uma nova utilização pública à casa recuperada.[3]

Em 2004 foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Porta do Céu. Mas a igreja voltou a fechar nesse mesmo ano, devido ao mau estado da cobertura. Uma campanha de restauro permitiu a sua reabertura, com inauguração solene e sagração do altar em 28 de Maio de 2006.[2]

A classificação como Monumento de Interesse Público chegou em 29 de Junho de 2012. Abrangeu apenas a igreja: em 2009, os serviços patrimoniais tinham justificado a exclusão das restantes dependências por do convento subsistir a estrutura edificada, mas nada restar do seu interior original. A recuperação do templo não deve, portanto, confundir-se com a recuperação integral do conjunto conventual.[1]

Também o antigo lagar da Quinta de S. Vicente ganhou utilização cultural e comunitária, acolhendo eventos da Junta de Freguesia do Lumiar.[4] Do restaurante guardo uma memória anterior: ali jantei em 1978, no dia em que fiz dezasseis anos. Em 1987 fui encontrá-lo fechado; em 1992, numa nova visita, continuava fechado. Não sei em que ano encerrara.

A própria EPUL pertence já à história: a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a sua extinção em 28 de Maio de 2013.[5] As referências à propriedade das casas e às queixas dos moradores ficam, por isso, datadas do momento em que as recolhi. E também a taberna que vi no antigo convento pertence, neste relato, a 1992: não consegui apurar quando terá encerrado.

Marina Tavares Dias



Igreja e convento de
Nossa Senhora da Porta do Céu
(desenho de Gonzaga Pereira, 1833)






Fontes das emendas e acrescentos

[1] Património Cultural — Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu: ficha e processo de classificação.

[2] Paróquia de Telheiras — História e cronologia. Utilizada para o restauro e a reabertura de 2006 e, com atribuição expressa, para o relato relativo às ossadas. A data de classificação indicada nesta página não foi adoptada: prevalece a documentação patrimonial de 2012.

[3] Assembleia de Freguesia do Lumiar — Moção sobre a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro.

[4] Junta de Freguesia do Lumiar — Lagar de São Vicente.

[5] Câmara Municipal de Lisboa — Assembleia Municipal aprova extinção da EPUL, 28 de Maio de 2013.

Nota editorial: versão revista do texto, com actualização em Agosto de 2026. Conservou-se a narrativa histórica original nos pontos ainda não sujeitos a re-verificação documental integral. As visitas de 1987 e 1992 são da autora, e aos respectivos locais.



Entrada para o antigo Restaurante 
da Quinta de S. Vicente
em 1968



Vista do Convento 
de Nossa Senhora da Porta do Céu
(colorido digitalmente)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

RUA DO OURO

 

O plano de reconstrução da parte baixa de Lisboa determinou que se destruíssem todos os vestígios da malha urbana anterior a 1755 ali existentes, traçando-se em seu lugar dez ruas orientadas de norte para sul. A primeira a oriente, já fora da zona plana, é a Rua da Madalena; a primeira a ocidente existia já antes do terramoto, sendo aproveitada e alinhada depois: a Rua Nova do Almada. Destas, seis terminam no Terreiro do Paço e suas imediações, ficando quatro a desembocar na Rua dos Retroseiros (ou Rua da Conceição). São todas rasgadas por oito transversais correndo de nascente para poente, alinhadas e sóbrias, complementares das outras no que diz respeito a comércio e a serviços. Um bairro traçado a régua e esquadro, sem tempo nem meios para grandes diferenças entre os quarteirões, resume hoje o que foi uma verdadeira torre de Babel, dédalo de cantos e de recantos onde pululava a Lisboa gótica, suja e animada, com as suas misérias e grandezas, as suas tendas e os seus bazares, a sua alma intensa e incontrolável.

Os principais ramos de comércio da cidade setecentista foram distribuídos de acordo com o traçado das novas ruas, na base de um arruamento por profissão, bem ao modo iluminista, facilitando o abastecimento da cidade, o acesso a cada estabelecimento e a própria fiscalização. O decreto tem a data de 5 de Novembro de 1760, quando os quarteirões ainda estavam, em grande parte, por construir. “E reservando a distribuição das outras lojas daqueles ofícios que devem ter arruamentos, e que agora não puderam caber nas ruas que se acham abertas, para os determinar nas que tenho mandado alinhar, e abrir imediatamente, para complemento do plano da parte baixa da referida cidade […]” – reza o texto afixado em edital dez dias depois.

Comerciantes e artífices ficaram assim distribuídos: capelistas na Rua Nova d’El-Rei (mais tarde Rua dos Capelistas e Rua do Comércio); mercadores de tecidos nas ruas Augusta e de Santa Justa; ourives do ouro na Rua Áurea; ourives da prata e livreiros na Rua Bela da Rainha (mais tarde Rua da Prata); fanqueiros na Rua Nova da Princesa (mais tarde Rua dos Fanqueiros); latoeiros e douradores na Rua dos Douradores; correeiros e torneiros na Rua dos Correeiros; sapateiros na Rua dos Sapateiros; algibebes (adelos e ferros-velhos) na Rua de S. Julião; retroseiros na Rua da Conceição (cuja designação popular é ainda Rua dos Retroseiros); cerigueiros na Rua da Assunção; quinquilheiros nas ruas de S. Nicolau e da Vitória. 

Mais uma vez estamos perante um caso de topónimo duplo. A designação oficial da via é, desde 1760 e sem mudança até hoje, Rua Áurea. Mas o povo começou a chamar-lhe Rua do Ouro logo no início do século XIX e assim ela ficou em todas as bocas, em quase todos os documentos e mesmo no papel timbrado das firmas ali sediadas. Pastor de Macedo escreveu que “a Rua do Ouro é o Chiado da Baixa”, ou seja, “a artéria por onde a determinadas horas do dia passa tudo que em Lisboa deseja mostrar-se e deseja ver os que se mostram”. Júlio Cezar Machado retrata esse movimento em meados de Oitocentos com palavras de quem conhece aquilo de que fala: “A rua tinha duas horas ao dia de um tal ou qual movimento: à entrada e à saída das secretarias. Depois, pelo dia adiante, uma carruagem de vez em quando, alguma traquitana de praça, o omnibus da companhia, e os clássicos carros chiando estridulamente pelos eixos.”

Rapidamente a Rua do Ouro se transformou na artéria mais concorrida da Baixa, justificando mesmo o título de um livro de Alfredo Mesquita, editado em 1905 (“A Rua do Ouro – Romance Lisboeta”). Segundo este escritor, era ela “um símbolo […], a ficção do amor, a ficção do talento, a ficção do luxo, a ficção da honra […] Tudo o que luz mas não é oiro.” As fachadas sóbrias e homogéneas, com as suas montras em destaque e o remate em mansarda, ganharam patine e cores próprias, com janelas diversas e, sobretudo, com os cartazes, os toldos, os alpendres e os vidros publicitários.



Fotografias (de Paulo Guedes, Joshua Benoliel e C.A. Lima) 
cujos negativos pertencem hoje ao arquivo municipal de Lisboa




terça-feira, 6 de outubro de 2026

O PALÁCIO DO COLÉGIO LUSITANO

Aqui está o Palácio Peyssoneau, sede da secção masculina do Colégio Instituto Lusitano, na Estrada de Benfica, n.º 765, no gaveto com a Estrada de A-da-Maia. A escola instalou-se nesta antiga quinta de recreio a 31 de Janeiro de 1938, ali permanecendo até meados da década de 1950. A propriedade prolongava-se na direcção das Portas de Benfica e era limitada a sul pela Ribeira de Benfica (Alcântara). Ostentava jardins frondosos, lago, estatuária, árvores exóticas, terrenos agrícolas e instalações para criação de gado (que forneciam leite, fruta e legumes para as cozinhas do colégio). Adquirida por uma empresa de construção civil no início dos anos 50, a quinta seria totalmente demolida e loteada. Em 1961, já se encontrava neste gaveto o prédio onde funcionou o posto dos CTT e, mais tarde, uma agência bancária.



Bilhete-postal ilustrado sem data
[c. 1938]. Memorabilia/ArquivoMTD 



Fotografia da Estrada de Benfica, 765, em 1961,
depois da demolição do palácio e da quinta.
Artur I. Bastos, Arquivo Municipal de Lisboa.