quarta-feira, 12 de novembro de 2014

LAVADEIRAS DOS ARRRABALDES

MARINA TAVARES DIAS
em LISBOA DESAPARECIDA
 capítulo sobre «Os Saloios»:


«[...] Quem deixou a principal referência da iconografia saloia foi uma figura que as estampas representam sempre de trouxa à cabeça: a lavadeira dos arrabaldes. A caravana atulhada de roupa branca, já lavada nas frescas águas das ribeiras mais próximas, chegava a Lisboa pela manhã. Distribuíam-se os fardos e renovava-se a encomenda. Certas estalagens alfacinhas transformaram-se em quartéis-generais do acolhimento ao saloio: A dos Camilos, ao pé da Praça da Figueira, e algumas outras no Poço dos Negros ou na Rua dos Poiais de S. Bento. Eram um misto de taberna, estábulo e casa de pasto [...]» (continua no livro)







domingo, 9 de novembro de 2014

A saga do namoro do final de Oitocentos não tem capítulo dedicado à privacidade






MARINA TAVARES DIAS

em
LISBOA DESAPARECIDA:

[...]
A saga do namoro lisboeta do final de Oitocentos não tem capítulo dedicado à privacidade. Nenhuma rede social da Internet poderá, hoje em dia, expor ao ridículo um namoro, do modo como era exposto, por força das circunstâncias, ainda em 1910. Todos os bilhetes trocados eram entregues a galegos moços-de-fretes, todas as confidências feitas da rua para o terceiro andar eram conhecidas pelos vizinhos e pelo guarda nocturno de giro. Um beijo era calamidade a discutir entre parentes, e a noiva raras vezes sabia do casamento antes dos familiares mais velhos terem acordado a data. 

Vários anos após a proclamação da República, ainda Mário de Sá-Carneiro conota Lisboa com casas escuras, cheiro a alfazema e «parentes que não deixam sair as raparigas». É perante este quotidiano que surge, em 1909, uma Liga Republicana das Mulheres Portuguesas defendendo já a promulgação da lei do divórcio. Entre as pioneiras estão, obviamente, as intelectuais da época, nomeadamente a única mulher que futuramente aparecerá retratada como um dos pioneiros da República: Ana de Castro Osório.
[CONTINUA NO LIVRO]

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

CAMPOLIDE

Marina Tavares Dias 
em volume III 
da 
Lisboa Desaparecida

[...] O Colégio de Campolide, construído na antiga Quinta da Torre, onde morou o guarda-jóias de D. João V. [...] vista do alto da torre em 1906, vendo-se o colégio à esquerda. Entre Monsanto, a ribeira e a encosta de Campolide, apenas se viam hortas e latadas.





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Rainha D. Estefânia







A 8 de Julho de 1857, dia de Corpus Chisti, Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen terá decidido que casaria com o rei de Portugal. A ideia parece ter partido – e as Memórias do conde de Lavradio apontam nesse sentido – , mais uma vez, do príncipe Alberto de Inglaterra. [.../...] D. Estefânia parecia ser a única princesa católica à altura [...], proveniente de uma casa liberal, habituada como estava a um estilo de vida simples e conhecida que era a sua vocação para o estudo e para a caridade. A fama das virtudes do jovem monarca português [D. Pedro V] chegara [...] a Dusseldorf, sobretudo após a sua arriscada permanência em Lisboa durante o surto de cólera que [...] assolara a capital. [.../...] 
Os pais da princesa, concedendo-lhe opção sobre o assunto [...], não deixaram contudo de regozijar-se pelo pedido da sua mão.

Excertos de 
«D. Estefânia, 
uma Rainha, um Hospital e um Bairro de Lisboa»
em
Lisboa Desaparecida
volume VII
de
Marina Tavares Dias

domingo, 2 de novembro de 2014

OLISIPÓGRAFOS

MARINA TAVARES DIAS

em

prefácio a

HISTÓRIAS DE LISBOA

[...] Mercê do seu estatuto de anfíbio (é preciso não esquecer que muitas zonas urbanizadas da Lisboa actual foram, num passado remoto, rios e esteiros), o olisipógrafo sabe, sobretudo, remar contra a maré. E pouco se importa que as manhas centenárias raramente lhe paguem mais do que uma casa muito pequena, no centro de um bairro popular, riquíssimo de história e ostensivamente desprezado pela Polícia e pela vereação. Hoje como ontem, o olisipógrafo está só, perante o passado e o futuro, com Lisboa aos pés.

Como qualquer outro mortal, também o olisipógrafo é um anão aos ombros de gigantes. A sabedoria que tenta conquistar bebe inspiração no trabalho de milhares de autores, anónimos ou não, que escreveram muito antes de a palavra olisipografia ter sido inventada. Autores de relatos e de relatórios, de escritos e de descrições, de rotas e de roteiros, de registos, de assentos, de escrituras, de notícias curtas ou longas, assinadas ou não. Autores de poesia e de prosa, de ficção e de ensaio, de boa e de má literatura. Autores aparentemente imortais e autores totalmente esquecidos. A todos o olisipógrafo recorre, na sua insana busca de um dado concreto para uma homenagem, para um inventário, para uma simples cronologia. E a todos a seu modo ressuscita – ou gosta de pensar que tal faz – esperando dar-lhes, em troca do apoio prestado, um público de novas gerações, entre os escassos privilegiados que sabem ser a memória a mãe de todas as musas.


(CONTINUA NO LIVRO)


Em baixo:
Júlio de Castilho, 
o «pai» da olisipografia,
na sua casa do Lumiar
(fotografado pelo amigo José Artur Leitão Bárcia)
e
o seu busto no miradouro de Santa Luzia
(fotografado por Marina Tavares Dias)








sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Em vésperas do Dia dos Mortos (Fiéis Defuntos)

Marina Tavares Dias
em
Lisboa Misteriosa:

"As piadas macabras sempre andaram associadas aos defuntos e aos enterros. No entanto, aparecem quase inocentemente na publicidade. Muitos anos depois da recolha do Taful de Luneta, já no início do século XX, fazia furor em Lisboa o letreiro de um retiro que, situado no caminho seguido pelos funerais para o Alto de S.João, procurava cativar potenciais clientes. Ir dar de beber à dor antes da descida do defunto à sepultura seria impensável. Mas, no regresso, haveria de se molhar o bico. A subida era acentuada e o caminho, sobretudo no Verão, percorrido com sacrifício. Assim, o célebre Manuel dos Passarinhos tinha, em letras garrafais, sobre a porta, a toda a largura da fachada: «Não se Esqueçam na Volta / Bons Vinhos e Bons Petiscos». 

Tendo em conta a feira em tempos instalada mesmo à porta do Cemitério dos Prazeres, este retiro nem era muito ofensivo para os familiares dos «fiéis defuntos». A gradual laicização da sociedade, sobretudo após implantação da República, levou a que os cemitérios principais de Lisboa passassem a ser conhecidos por Oriental e Ocidental. Mas as velhas designações de cada um dos locais acabariam por vingar, parecendo ainda hoje estranho que alguém mande seguir um féretro para os Prazeres. Em implícitas promessas de um mundo melhor, nada bate, contudo, a actual Funerária da Ajuda e Boa-Hora (ou Boa-Hora e Ajuda). Pode dizer-se que abarca, só na designação, o «pack» completo da arte de bem morrer.[...]" (continua no livro)






quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Caracol da Penha

Marina Tavares Dias 
em Lisboa Misteriosa

" [...] a Penha de França pelo pintor Thomaz de Anunciação (1818-1878). O caminho que parte da igreja era conhecido por «caracol da Penha» e o seu traçado subsiste nos arruamentos a que deu lugar. Em primeiro plano, a cena campestre desenrola-se nos terrenos da actual Avenida Almirante Reis."






sábado, 18 de outubro de 2014

A Câmara Municipal de Lisboa trata assim os olisipógrafos


Marina Tavares Dias nem um agradecimento recebeu, por 30 anos a escrever sobre a cidade. Júlio de Castilho, o seu Mestre, tem a casa onde viveu neste estado.
Património municipal!







                 
    Fotografia: FST para Arquivo Marina Tavares Dias


Júlio de Castilho, o Mestre que trouxe Marina Tavares Dias para a olisipografia, ou seja, para Historiadora de Lisboa, morreu pobre, obrigado a vender a sua própria biblioteca. Ainda assim, deixou tudo o que conseguiu preservar ao Estado: Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, etc. A casa, agora destruida, era o seu refúgio e a sua paixão. Aqui está o seu cantinho preferido em 1904. Agora, destruído, sem papel de parede, sem janelas, nem tecto ou telhado. Casa pertencente à CML! Ou, ainda mais grave, pela Câmara vendida há pouco tempo, e pela calada.




 Fotografia: FST 
para Arquivo Marina Tavares Dias


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

CAPOTE E LENÇO


O traje típico de Lisboa: capote e lenço. 
Em Lisboa Desaparecida,volume III, 
de Marina Tavares Dias :
«Quando o "josezinho" encarnado ficou sendo pertença exclusiva das saloias de Loures, Queluz ou Mafra, e os lenços de cambraia e musselina foram por estas substituídos pelos barretes, as alfacinhas começaram a talhar o capote em linhas direitas e austeras. O lenço inicial manteve-se, mas, de tão ensopada em goma, a tarlatana branca já nem tocava o pescoço. »
(continua no livro)









quarta-feira, 1 de outubro de 2014

«ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Convento antes de ser Palácio das Cortes, Assembleia Nacional e Assembleia da República, S. Bento foi também , no tempo da peste de 1569, hospital improvisado. O terramoto de 1755 pouco o afectou e, logo em 1757, veio instalar-se aqui o principal arquivo português: o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Em 1834, passou a albergar as câmaras dos Deputados e dos Pares. Destruído por um incêndio em 1895, o edifício estava ainda em obras no início do século XX, sob projecto de Ventura Terra. De 1917 a 1938, construíram-se as novas fachadas, assim como um corpo avançado com frontão e uma escadaria monumental [...]» 
(continua no livro)
PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA
por: Marina Tavares Dias.



Palácio das Cortes,
 antigo mosteiro de S. Bento, 
no início do último quartel do século XIX. 
Fotografia de Francesco Rocchini.