quarta-feira, 19 de agosto de 2026

AS RAIVAS, DOCES DE LISBOA

 





Habitualmente apresentadas como «Raivas de Aveiro», as raivas são, afinal, muito mais antigas do que essa identificação sugere. A documentação conhecida aponta insistentemente para a origem em Lisboa. No século XVIII já havia «bolos de raiva», que nos receituários lisboetas aparecem associados a diferentes casas religiosas da cidade. No século XIX, famosos, eram vendidos na Ajuda como 'especialidade das freiras do Bom Sucesso'. No princípio do século XX uma enumeração dos doces conventuais portugueses atribuiu expressamente as raivas ao Convento de Santana.


A referência mais antiga está num 'manuscrito culinário' das Visitandinas (ou Salésias) de Belém, hoje na Torre do Tombo (Manuscritos da Livraria, n.º 2403). O caderno, do final do século XVIII, reúne receitas certamente anteriores à própria compilação. Entre elas está (fólios 45-46) a «Receita dos bolos de raiva do Mosteiro do Sacramento». Ou seja, Mosteiro do Santíssimo Sacramento dos Eremitas de São Paulo, em Lisboa. Receita repescada, que já circulava com a proveniência: bolos de raiva «do Mosteiro do Sacramento».


Não é caso único. Noutro antigo receituário aparecem os 'bolos de raiva do Rato' (Mosteiro de Nossa Senhora dos Remédios da Santíssima Trindade). Seria comum esta circulação de receitas entre conventos, e um caderno duma comunidade pode copiar receitas de outra comunidade, por vezes conservando no próprio título o lugar de onde tinham vindo. Assim parece acontecer com as raivas «do Rato» e «do Sacramento».


Em 1788, a receita chega à imprensa. Sai (em Lisboa) a ‘Arte Nova, e Curiosa, para Conserveiros, Confeiteiros, e Copeiros, e mais pessoas que se occupaõ em fazer doces, e conservas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem á mesma Arte’, impressa na oficina de José de Aquino Bulhoens. Na página 107 encontramos simplesmente «Receita de bolos de raiva». Sem convento ou lugar no título, pois aparentemente o nome era suficientemente conhecido para dispensar explicações. Estes bolos levavam amêndoa, açúcar, manteiga, ovos, água de flor e um pouco de rolão. Apresentavam-nos em bolinhas, achatadas com um chavão antes de irem ao forno.


Nos primeiros anos de novecentos, no Convento do Bom Sucesso, em Belém, as dominicanas irlandesas faziam raivas para venda. A notícia é recolhida por Mário de Sampaio Ribeiro em ‘A Calçada da Ajuda’. Os biscoitos eram comercializados por José Pincel, figura ligada à toponímia popular da zona. É tradição que importa recuar até às fontes utilizadas por Sampaio Ribeiro, e que coloca outra casa religiosa lisboeta entre as produtoras.


Há ainda a zona do Campo de Santana. No ‘Portugal - Dicionário Histórico’, publicado no início do século XX, a distribuição das especialidades conventuais de Lisboa é esmiuçada assim: Santa Marta com broas, as Mónicas com caramelo, as Flamengas com rebuçados de ovos, as Albertas com arroz-doce, a Esperança com 'queijinhos de espécie' e o Convento de de Santana com as raivas e as ferraduras. Quando chega a Odivelas, o dicionário enumera marmelada em quadrados, manjar real, manjar branco, suspiros, esquecidos e bolo podre - mas não raivas.


Odivelas acabaria, contudo, por se juntar à história. O receituário que esteve na posse da última freira contém a tal versão dos «bolos de raiva do Rato», receita que o próprio título atribui a outra casa religiosa. Em bibliografia muito posterior, as raivas passaram a ser apresentadas como especialidade de Odivelas. Associação que exige alguma prudência: possuir ou copiar uma receita não significa tê-la inventado.


Temos, portanto, Sacramento, Rato, Bom Sucesso, Santana e Odivelas - cinco ligações conventuais às raivas, todas na área de Lisboa - e uma receita impressa já em 1788. Isto parece indicar não tanto a criação isolada de um doce por determinado convento mas algo que circulou entre várias comunidades, adquirindo variantes e, às vezes, o nome da casa onde passava a ser feita.


Entretanto, as raivas viajaram para mais longe. No final do século XIX já estavam implantadas na região de Aveiro. Uma tradição familiar de Albergaria-a-Velha recorda que a receita chegou através de 'uma senhora de Aveiro'. Hoje são vendidas e divulgadas como «Raivas de Aveiro», apresentadas como biscoitos conventuais com mais de dois séculos. A antiguidade é perfeitamente verosímil, mas a origem aveirense é obviamente questionável. Fontes que conseguimos recuar até ao século XVIII contam uma história essencialmente lisboeta.

E talvez devamos recuperar também o nome antigo. Não eram simplesmente 'as raivas'. Eram bolos de raiva.


A receita conservada no caderno das Salésias de Belém (atribuída ao Mosteiro do Sacramento) diz assim:


«Receita dos bolos de raiva do Mosteiro do Sacramento».



Ora aqui fica ela:


RECEITA DAS RAIVAS DE LISBOA 


«Um arrátel de amêndoa pilada e muito bem pisada, um arrátel de açúcar em pó bom e se mistura com a dita amêndoa, que fique muito unido e se lhe deita uma quarta de manteiga derretida e se amassa muito bem; depois se lhe deitam nove ovos, dois com claras e se torna a amassar, depois de tudo unido se lhe vai deitando rolão, muito fino, até que se possam estar em termos de se fazerem as broas e se lhe dão uns riscos com a faca e se põem nas bacias e se vão tendendo, com as palmas da mão untada com manteiga e nas bacias se bota rolão.»


Não teriam sempre a complicada forma que reconhecemos imediatamente como 'raiva de Aveiro'. Eram riscadas à faca. Mas chamavam-se raivas - e em Lisboa já existiam, com tal nome, há mais de duzentos anos.



MARINA TAVARES DIAS





bom sucesso 1
Capela do Convento (hoje colégio)
do Bom Sucesso




sábado, 8 de agosto de 2026

DOIS LEÕES E UMA CONFUSÃO

 «Depois veio a vida. Nessa noite levaram-me a cear ao Leão. Tenho ainda a memória dos bifes no paladar da saudade — bifes, sei ou suponho, como hoje ninguém faz ou eu não como.»

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

«Lembro-me tanto de certo jantar no Leão d'Ouro… numa noite chuvosa de Dezembro… Acompanhavam-me dois actores e um dramaturgo.»

Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio

«A Cervejaria Leão (1878), representada no quadro de Columbano, fechou em 1938 e reabriu em 1945 como Café-Restaurante Restauração [...]»

A frase vem no Expresso desta semana e coincide com a velha confusão lisboeta entre dois estabelecimentos com nomes semelhantes e destinos diferentes. A Cervejaria Leão, aberta em 1878, foi efectivamente encerrada em 1938 e deu lugar, em 1945, ao Café-Restaurante Restauração. Mas não era o restaurante do célebre quadro de Columbano. O Grupo do Leão foi pintado para decorar o vizinho Leão d’Ouro, inaugurado em 16 de Abril de 1885. Entre uma porta e a outra vão poucos metros. Historicamente, porém, vão duas casas.

A história começa em Arroios. Em 1878, João Varela, António Monteiro e um terceiro sócio, referido por João Paulo Freire como França — e como Jacinto Franco numa história posterior da Central de Cervejas —, todos antigos empregados da Fábrica de Cerveja Jansen, fundaram a Fábrica de Cerveja Leão. Ficava num pátio da Rua Direita de Arroios, nos números 46-A a 50, ocupando parte do antigo palácio dos condes dos Arcos.

Foi daquela fábrica, e da cerveja ali produzida, que veio o nome da Cervejaria Leão aberta na Baixa. O estabelecimento instalou-se na Rua do Príncipe, no ângulo com o Largo do Duque de Cadaval, aproveitando uma casa anterior conhecida como Cervejaria Varella. A mais antiga referência actualmente localizada à nova Cervejaria Leão é uma folha com desenhos de Rodrigues Vieira e Moura Girão, feitos no local e datados de Setembro de 1878. Em Janeiro de 1879, o nome já aparece na imprensa.

Os artistas começaram a reunir-se ali. Entre os frequentadores estavam Silva Porto, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, João Vaz, António Ramalho, Moura Girão, Rodrigues Vieira e Ribeiro Cristino. O criado preferido era Manuel de Vasconcelos, conhecido por Manuel Fidalgo. O grupo ficou conhecido como Grupo do Leão.

Em 1885, os sócios separaram-se. António Monteiro ficou com a antiga sala de bilhares da cervejaria e adquiriu ainda o contíguo Café Mandarim Chinês, de José Augusto Sales. João Varela continuou à frente da primitiva Cervejaria Leão, que, depois de obras e de uma nova decoração, reabriu em 14 de Fevereiro de 1885.

Dois meses depois, nasceu quase ao lado um concorrente muito mais ambicioso.

António Monteiro pensara inicialmente revestir de espelhos o novo restaurante. Segundo a história recolhida por João Paulo Freire, terá sido Manuel de Vasconcelos, que acompanhara Monteiro na mudança, a sugerir que se chamassem os artistas. Estes aceitaram decorar a casa com obras executadas expressamente para as suas paredes. Monteiro financiou o trabalho e comprou telas, tintas e molduras.

O Restaurante Leão d’Ouro foi inaugurado em 16 de Abril de 1885, já com as pinturas, o reposteiro bordado e a grande escultura do leão em madeira dourada. A imprensa fora convidada a visitar a casa na véspera. Uma gravura de Ribeiro Cristino, desenhada do natural e publicada nesse mesmo ano, mostra a sala atravessada por sucessivos arcos de cantaria, com os grandes quadros suspensos nas paredes e o público sentado às mesas.

A decoração reunia obras de Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Silva Porto, João Vaz, Rafael Bordalo Pinheiro, Rodrigues Vieira, Moura Girão e Ribeiro Cristino. Maria Augusta Bordalo Pinheiro bordou um leão rompente num reposteiro de cor grenat; Leandro Braga esculpiu o grande Leão de Ouro colocado sobre o balcão. Columbano pintou o retrato de António Monteiro e a enorme tela do Grupo do Leão, com mais de três metros e meio de largura.

É este o quadro que o Expresso agora atribui à Cervejaria Leão de 1878. A tela foi concebida para o novo Leão d’Ouro e permaneceu nas suas paredes durante décadas. O grupo nascera na cervejaria antiga, mas mudara-se para o restaurante novo, talvez, segundo a tradição, para continuar a ser servido pelo Manuel Fidalgo.

A diferença entre as duas casas tornou-se depressa matéria de humor lisboeta. A primitiva Cervejaria Leão, mais modesta do que o brilhante vizinho, passou a ser chamada Leão Triste e também Leão Pobre. O novo restaurante era o Leão d’Ouro.

O anúncio de 1900 não deixa dúvidas quanto à localização da casa antiga. Sob a figura de um leão lê-se: «Cervejaria Leão — Café Restaurant — Rua do Príncipe, 81 a 85», tendo como proprietário João Luís Ferreira. Depois da mudança do nome da rua, em 1908, e da alteração da numeração das portas, esses números corresponderam aos actuais 103 a 107 da Rua do 1.º de Dezembro. O Leão d’Ouro histórico ocupava os actuais 95 a 99, alargando-se em 1905 às dependências vizinhas e transferindo a cozinha para o número 89.

Em 1915, António Monteiro passou o Leão d’Ouro ao genro, José da Costa. Em 1937, este tentou vender ao Estado a colecção de pintura, mas recusou uma proposta que abrangia apenas três obras. Em Fevereiro de 1939 promoveu um leilão, do qual saiu apenas o Paúl da Outra Banda, de José Malhoa, comprado por Alfredo da Silva. O restaurante foi trespassado à firma Vasques, Fortes & Domingues, proprietária do Café Suísso.

Foi a outra casa, a Cervejaria Leão de 1878, que encerrou para obras em 1938. Em 1945, o espaço dos actuais números 103 a 107 reabriu como Café Restauração, propriedade da firma Saúl, Garcia & Albuquerque, L.da. O nome aludia simultaneamente à Rua do 1.º de Dezembro e ao imaginário histórico ainda alimentado pelas comemorações de 1940.

A remodelação foi projectada pelo arquitecto Vasco Regaleira. Os painéis de azulejos foram desenhados por Jorge Colaço e executados na Fábrica de Sant’Anna. Uma reportagem de O Século Ilustrado, publicada em 23 de Junho de 1945, mostrou o novo café poucos dias depois da inauguração.

É, pois, exacta a sequência Cervejaria Leão — encerramento em 1938 — Café-Restaurante Restauração em 1945. O que não é exacto é colocar nessa sequência o quadro de Columbano e o restaurante inaugurado com a galeria de pintura em 1885. Esses pertencem ao Leão d’Ouro histórico, a segunda casa.

A confusão agravou-se no fim do século XX. O nome Leão de Ouro acabou por ser usado também no espaço da antiga Cervejaria Leão e do Café Restauração, nos números 103 a 107. Ali foram colocados uma reprodução fotográfica do quadro de Columbano e o leão de madeira esculpido por Leandro Braga, retirado da casa original. O nome e a imagem foram deslocados.

Mas os edifícios ainda contam a história. No Leão d’Ouro inaugurado em 1885 sobrevivem os grandes arcos desenhados por Ribeiro Cristino. Durante anos procurei fotografá-los. Um dia encontrei a porta aberta, com a casa fechada para obras, as paredes despidas e os arcos de cantaria novamente à vista. A fotografia coincide quase ponto por ponto com a gravura publicada no ano da inauguração.

Bastava olhar para os arcos. Em Lisboa, às vezes, as paredes são mais rigorosas do que os jornais.


Marina Tavares Dias


Notícia da inauguração do Leão d'Ouro,
em 1885
(«Diário Illustrado»)


O Leão d’Ouro no dia da inauguração, em 16 de Abril de 1885. Desenho do natural por João Ribeiro Cristino, mostrando a sucessão de arcos da sala e os quadros executados para a nova casa pelos artistas do Grupo do Leão. Esta estrutura arquitectónica sobrevive ainda no verdadeiro Leão d’Ouro, nos números 89 a 99 da rua 

Interior do Leão d'Ouro em 2020, após o último encerramento. Pode inclusivamente situar-se o local do quadro de Columbano  (à entrada, à esquerda)



Publicidade na «Revista Municipal»


Última versão do Leão d'Ouro: Buffet do Leão (2008)

O leão de metal que adornou a fachada original do número
89 foi deslocado para o restaurante do gaveto


Leão d'Ouro, aqui já como Buffet do Leão,
em 2008 (fotografia de Marina Tavares Dias)


Café Restauração, depois 
segundo Restaurante Leão d'Ouro


Pequeno vídeo de 2024 que
permite avaliar a distância
entre o Restaurante Leão d'Ouro (Buffet do Leão)
e a Cervejaria Leão (Café Restauração/novo Leão d'Ouro),
no gaveto da Rua Primeiro de Dezembro

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

DUAS PASTELARIAS CHAMADAS COLOMBO

A Pastelaria Colombo foi inaugurada a 31 de Outubro de 1935, na Avenida da República, por antigos empregados da Versailles, entre os quais José da Silva Coito. Tinha salão de chá, restaurante e fabrico próprio de confeitaria. Durante décadas, foi das principais referências das Avenidas Novas, célebre pelo bolo-rei, pela cozinha tradicional, pelos banquetes de festa e pelo serviço de catering para o exterior. Manteve a decoração art-déco inicial (evocativa da viagem de Cristóvão Colombo), tanto na pastelaria como no primeiro andar.

Quando, em Outubro de 1990, a Colombo encerrou portas, a desmontagem do histórico letreiro e do recheio foi acompanhada pela Imprensa, em particular pelo ‘Diário de Lisboa’. Na época, poucos reconheciam que uma casa comercial também constituía património da cidade. 

Abriria ali, meses depois, o primeiro McDonald's de Lisboa. Mas boa parte do equipamento, do mobiliário e da identidade da Colombo subsistiu, transferida para a Pastelaria Mimo (Avenida Duque de Ávila), que em 1991 passou a chamar-se Rota do Colombo. Assumiu-se esta como continuadora da casa original, preservando o receituário de José da Silva Coito e alguns dos objectos históricos, entre os quais a antiga sorveteira manual Reliance, fabricada na Suécia pela Husqvarna nas primeiras décadas do século XX. 

O neto do fundador, Cândido Gonçalves, escreveu que a Colombo tinha «continuidade e testemunho vivo». Não terminou em 1990: continuou durante toda a primeira década do século XX, noutra morada, praticamente com as mesmas pessoas e com alguns dos seus adereços originais. A ‘segunda Colombo’ encerrou em 2012.


Marina Tavares Dias 


















segunda-feira, 27 de julho de 2026

FREIRE, GRAVADOR DA CASA REAL

Ayres Lourenço Freire, natural de Penela, veio para Lisboa com apenas doze anos, ficando entregue ao seu parente Marcolino Augusto Branco, gravador da Imprensa Nacional. Foi este quem lhe ensinou o ofício e descobriu o seu talento para o desenho. 

Trabalhando depois com mestres como Ferdinand Augusto Gérard, gravador do Banco de Portugal, e Cassiano Augusto Vidal da Maia, Ayres Freire aperfeiçoou os seus conhecimentos em Paris, na casa Ernest Lemoine, especializando-se na gravura em relevo. Novas viagens de estudo a França, Espanha, Áustria, Alemanha e Inglaterra permitiram-lhe acompanhar os progressos técnicos da época.

Em 1882, introduziu em Portugal os novos processos de fabrico, sendo apontado como o grande impulsionador da esmaltagem artística aplicada às tabuletas e publicidades, à bijutaria e à escultura.

Aos vinte e dois anos, Freire ampliou o seu estabelecimento, que passou a ocupar os números 158 a 164 da Rua do Ouro e 92 a 96 da Rua da Vitória. Era a mais importante casa de gravura artística e industrial, carimbos, sinetes, punções, cunhos, chapas esmaltadas, artigos para escritório, filigranas, ourivesaria artística e anéis com brasões e monogramas. Trabalhava para a Casa Real, para toda a nobreza, para os organismos públicos e para numerosas empresas. 

A qualidade da produção valeu-lhe muitos prémios, entre os quais uma medalha especial na Exposição Universal de Paris de 1889 (a exposição em que foi inaugurada a Torre Eiffel) e oito medalhas de ouro (incluindo a do primeiro prémio) na Exposição Industrial Internacional do Rio de Janeiro, em 1908.

Em 1943, com mais de sessenta anos, as instalações da Rua do Ouro foram completamente remodeladas e inaugurada nova fachada, de linhas consideradas modernas. A direcção passou então para os filhos do fundador — Ruy Lourenço Freire, Gustavo Lourenço Freire e Mário Lourenço Freire —, que procuraram conciliar a experiência adquirida ao longo de décadas com novos métodos industriais. Adoptaram como divisa da empresa a frase de Santo Agostinho «Parar é recuar.» A histórica casa manteve-se ainda em actividade durante praticamente três décadas. Em 1972, o espaço da loja e da cave foi ocupado pelo Centro do Livro Brasileiro.

A tradição familiar seria igualmente seguida noutra morada, desta vez pelo quarto filho do fundador, Aníbal Freire. Abriu este, em 1929, a Aníbal Gravador (Rua Nova do Almada, 64), dedicada também a gravura artística, brasões, monogramas, convites e cartões de visita. A pequena casa manteve vivo o prestígio do apelido Freire durante nove décadas e permaneceu aberta até 2018.


Marina Tavares Dias 



















sábado, 18 de julho de 2026

O DIA EM QUE OS NAZIS DESFILARAM EM LISBOA

Habitualmente, assume-se que a neutralidade portuguesa na Segunda Grande Guerra impediu quaisquer manifestações nazis em Lisboa. Não foi bem assim. Pelo menos no dia desta extraordinária fotografia. 

Houve uma missão militar portuguesa à Alemanha nazi. Teve lugar entre 12 de Agosto e 10 de Outubro de 1942. Integrada no plano de apetrechamento do Exército, reuniu doze oficiais portugueses, chefiados pelo coronel Álvaro Teles Ferreira de Passos. Percorreram fábricas de armamento, escolas militares e unidades em combate, chegando mesmo à Frente Oriental.

No dia 8 de Setembro, em Kursk, cidade russa ocupada pelos nazis, os militares portugueses visitaram uma igreja ortodoxa e as instalações de propaganda destinadas a prisioneiros. 


A missão deslocou-se depois à esquadrilha de caça Boelcke. Durante a demonstração militar, uma bomba incendiária de avião (que todos julgavam inerte), explodiu acidentalmente. O desastre feriu diversos militares alemães e nove dos doze oficiais portugueses. Ficaram gravemente atingidos o chefe da missão e os capitães Mariano Lopes Pires, Silva Freire e Fernandes.


Evacuado para o Hospital de Reserva número 122 (em Tempelhof, Berlim), Mariano Lopes Pires foi operado pelo célebre cirurgião Ferdinand Sauerbruch. Recebeu três transfusões de sangue mas, apesar dos esforços médicos, morreu na noite de 16 de Setembro de 1942, vítima da ruptura da artéria femoral. As autoridades nazis prestaram-lhe honras militares excepcionais. A 23 de Setembro realizou-se cerimónia religiosa de corpo presente, oficiada pelo capelão H. Kreutsberg. Discursou o general Olbricht e estiveram presentes o ministro de Portugal em Berlim (Conde de Tovar), o general Von Hase, (comandante militar da capital alemã), e numerosos oficiais portugueses e alemães. Após as honras prestadas por uma companhia da Luftwaffe, o féretro partiu de comboio para Portugal, acompanhado pelo major Von Arnim.


A viagem revelou-se complexa. A travessia da França ocupada decorreu sem incidentes, mas a mudança de bitola na fronteira franco-espanhola obrigou a improvisar uma capela ardente, guarda militar e novo transporte ferroviário. Em Irún, o corpo foi recebido pelo adido militar português em Madrid, major Jorge Santos Pedreira, seguindo depois para Vilar Formoso, onde tomou conta da trasladação o major Frederico Vilar e o tenente Ferraz Oliveira.


O comboio especial chegou à estação do Rossio às 10 horas e um quarto do dia 27 de Setembro de 1942. O funeral, com missa na Basílica da Estrela, teve guarda de honra e forte presença de militares alemães. Em destaque, as coroas de flores oferecidas pela Alemanha, todas ornamentadas com largas fitas vermelhas e a cruz suástica. O cortejo seguiu para o Cemitério dos Prazeres, perante uma multidão de lisboetas fascinados por verem desfilar os oficiais nazis.


Em Janeiro de 1944, o governo alemão condecorou todos os militares portugueses que participaram na missão. A viúva de Mariano Lopes Pires recebeu seis fotografias da cerimónia fúnebre realizada em Berlim. As imagens do desfile fúnebre em Portugal não foram divulgadas depois da guerra. Mas existem, e mostram que a Lisboa de 1942 saiu à rua para ver desfilar os nazis.



Marina Tavares Dias









sábado, 4 de julho de 2026

O GRANDE AMARANTE

Em Setembro de 1915, quando o escândalo provocado pela revista Orpheu ainda dominava as conversas de Lisboa, Estevão Amarante já fazia rir o público do Éden com uma rábula inspirada nas "poesias do Orfeu". Um poema publicado no Correio Popular de 19 de Setembro desse ano elogiava o jovem actor e aludia precisamente às "poesias do Orfeu" como um dos temas do seu repertório humorístico, testemunho raro da forma como o Modernismo passou quase de imediato da polémica literária para o palco da revista.

Nascido em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1889, Estevão Amarante começou a representar ainda criança. Estreou-se em 1900 e passou por peças infantis e pelas barracas das feiras de Alcântara e Algés. Desenvolveu um raro talento para observar e imitar  tipos populares. A estreia profissional, em 1906 no Teatro Avenida, iniciou a carreira fulgurante que o transformou num dos actores mais populares do país.

Ao longo de mais de cinquenta anos, interpretou dezenas de personagens inesquecíveis, sobretudo no teatro de revista, na opereta e na comédia musicada. Com Luísa Satanella fundou uma das mais bem-sucedidas companhias do seu tempo, responsável por sucessivos êxitos que estiveram meses em cena, como João Ratão e Água-Pé. Mais tarde, integrou a companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, demonstrando também qualidades no teatro declamado. Terminou a carreira entre o palco e o cinema, participando, entre outros filmes, em O Grande Elias e O Hóspede do Quarto 13. Morreu subitamente num restaurante do Porto, a 6 de Dezembro de 1951, quando continuava em plena actividade artística. Há cerca de duas décadas e meia, comprei parte do seu espólio, cujas fotografias e documentos evidenciam a polivalência e a energia com que se dedicava a tudo.

As imagens mostram um jovem elegante, consciente da sua imagem pública, mas também o artista de grande versatilidade e entusiasmo e a sua carreira ao longo de décadas. Entre retratos de estúdio, inúmeras fotografias caracterizado para os mais diversos papéis, programas de teatro, postais ilustrados, partituras impressas, licenças profissionais de artista dramático, inscrições como cocheiro amador e até matrículas de motociclista com side-car, o espólio permite descobrir o homem por trás do actor. O Grande Amarante: curioso, moderno, apaixonado pela técnica e pelos novos meios de transporte e sempre disponível para experimentar novas personagens e novos desafios.


Marina Tavares Dias
















sábado, 27 de junho de 2026

MAISON LOUVRE, PRIMAZ, NAIA, CANCAN: ESTRELAS DA BAIXA

No Rossio de quando era criança, uma coisa fascinava tanto como os rituais de dar milho aos pombos ou de caminhar sobre as grelhas de drenagem da chuva. Era a encenação de alguns miúdos a ajeitarem a roupa, em frente de um grande espelho de toucador que, na fachada da Primaz, dizia assim: ‘Componha o nó da sua gravata.’ 


Maison Louvre, Primaz, Naia e CanCan contam, todas juntas, uma história secular da moda em Lisboa. Estão as quatro ligadas à figura de Manuel Fernandes Carreira, regressado do Brasil em 1919 e criador de um dos mais importantes grupos comerciais da Baixa. 


A primeira casa do grupo foi a Maison Louvre, fundada a 31 de Maio de 1920 (Rossio, números 106 e 107) pela firma Carreira, Nogueira & Santos, Lda. (Manuel Fernandes Carreira, António Nogueira da Silva e Manuel Gomes dos Santos). Na década de 40 era já considerada a ‘mais antiga casa dedicada exclusivamente a roupa para crianças’. Sob direcção de Manuel Fernandes Carreira, manteve durante décadas essa sólida reputação de referência nacional no sector.


A 23 de Dezembro de 1952, Manuel Fernandes Carreira associou-se a Alberto S. Rodrigues (ligado à portuense Linaldeia), para fundar, ali ao lado, a Camisaria Primaz (Rossio, números 114 e 115). Dedicava-se a camisaria fina e acessórios masculinos —  gravatas, meias, gabardines, etc. — e foi apresentada como um dos estabelecimentos mais modernos do ramo. O grupo expandiu-se depois para o mercado feminino. Em 1960, abriu a Naia (Rua do Carmo, 45), com o projecto entregue a Francisco Conceição Silva (1922-1982), arquitecto da grande renovação comercial lisboeta dos anos 60. Dois anos mais tarde (1962), surgiu a CanCan (Rossio, 118), igualmente por ele projectada. Os fundadores completavam o segmento feminino já iniciado, especializando-se em lingerie, camisas de noite, robes, pijamas e fatos de banho. A Cancan tornou-se rapidamente a loja de lingerie mais conhecida da Baixa. Era célebre o seu slogan de Verão, quando íamos comprar o bikini: «Já foste à CanCan?»


Ao longo das décadas seguintes, as quatro marcas funcionaram como grupo comercial, abrindo sucursais na Avenida de Roma, em Campo de Ourique, em Cascais e, muito mais tarde, até no Centro Comercial Colombo.


Em 2008, a insolvência da empresa proprietária do grupo determinou acelerada decadência das lojas que, durante décadas, tinham marcado o comércio elegante. Juntas, foram todo um centro comercial: Maison Louvre para as crianças, Primaz para os homens, Naia para a moda feminina e CanCan para a lingerie. As quatro com produtos, marca e etiqueta próprios.


Por trás dessas etiquetas  tão conhecidas na Lisboa de há meio século está o empresário Manuel Fernandes Carreira, fundador e padrinho da Maison Louvre de 1920. Não se imaginava o Rossio sem as lojas dele.



Marina Tavares Dias




'Componha o nó da sua gravata '

A Primaz na década de 1950

Maison Louvre: a casa-mãe

Cancan na década de 1960
(fotografia de Mestre Horácio Novaes)

Cancan no início do século XXI 

As grandes novidades da moda,
na Primaz

As lojas num anúncio 
de Abril de 1974

Um quarteirão de elegância no Rossio

A sucursal da Avenida de Roma 

A horrível aridez do actual Rossio.
Da Primaz, resta 
o espectro de um alpendre




sábado, 20 de junho de 2026

O RESTAURANTE PALMEIRA DA RUA DO CRUCIFIXO

Quando, na década de 1990, aluguei uma sala para escritório num prédio fronteiro da Rua do Crucifixo, era aqui que vinha almoçar. O Palmeira servia os melhores pastéis de bacalhau de Lisboa, acompanhados por imperiais tiradas a preceito e pela conversa habitual dos empregados, que conheciam pelo nome grande parte da clientela. 

Como tantos outros restaurantes da Baixa, era uma extensão dos escritórios vizinhos, e onde se trabalhava, se almoçava e encontravam amigos sem necessidade de marcar hora.

Ocupava o número 69 da Rua do Crucifixo. As listas da década de 1950 permitem corrigir uma informação muitas vezes repetida, nos últimos anos da casa: o Palmeira não foi fundado em 1954, como fazia supor o letreiro da fachada, mas sim em 1939. A data de 1954 assinalava apenas a entrada do novo proprietário e gerente, José de Almeida, que assumiu a exploração do estabelecimento em Março desse ano.

Palmeira era também o nome de um restaurante do Porto, ao qual esteve ligado durante algum tempo. Especializou-se desde o início na cozinha do Norte e na importação directa de vinhos verdes, tornando-se ponto de encontro obrigatório para muitos clientes oriundos do Entre-Douro-e-Minho que viviam ou passavam por Lisboa.

Costumava ser comparado com o famoso restaurante Dupont de Paris: um interior que pouco mudaria ao longo de mais de meio século, grandes arcadas sucessivas, pilares robustos. As abóbadas do salão principal permaneceram praticamente intactas até ao encerramento. Quando fotografei o restaurante nos seus últimos anos, reconheciam-se ainda os espaços representados nas imagens da década de 1950. José de Almeida, excelente profissional da restauração, foi responsável pelo modernizar da casa e aumento da sua popularidade. Possuía outro estabelecimento, o Palmeirinha Bar, situado na Rua da Conceição, n.º 32 (gaveto com a Rua dos Douradores), cuja gerência viria a entregar ao seu conterrâneo Manuel Ferreira de Oliveira.

Durante décadas, o Palmeira foi um restaurante da Baixa para as pessoas da Baixa. Assim foi até ao encerramento, no final de 2015. Era dos raros interiores comerciais de Lisboa que ainda conservava, quase sem alterações, atmosfera e funções que possuía nos anos quarenta e cinquenta do século XX. Gerações sucessivas de lisboetas sentaram-se sob as mesmas arcadas para fazer exactamente a mesma coisa: almoçar, beber, conversar, regressar ao trabalho. O encerramento da melhor casa de pastéis, numa década em que já proliferavam as actuais ‘fábricas de pastel de bacalhau’ com sabores inventados e absurdos, é mais que uma perda. É um símbolo de como Lisboa passou a sacrificar o genuíno para reinventar em ‘kitsch’ a sua própria história. 


Marina Tavares Dias 








Interior do restaurante na década de 1950