quinta-feira, 18 de junho de 2026

AS SEMENTES DE SOARES & REBELO

Foi uma das fachadas comerciais mais bonitas da Baixa. Fundada em 1935 por Edmundo Luiz Soares e Manuel Martins Rebelo, a Soares & Rebelo permaneceu, durante quase nove décadas, uma das casas mais características de Lisboa. Inicialmente na Rua dos Correeiros, expandiu-se rapidamente para o gaveto da Rua do Amparo (Praça da Figueira), onde permaneceu até 2022.

A localização não era casual. Na época, a Praça da Figueira era ainda dominada pelo grande mercado que abastecia Lisboa. Por ali passavam diariamente lavradores, horticultores, vendedores de flores e comerciantes vindos dos arredores da capital. A Casa das Sementes encontrou nesse movimento constante de gente ligada à terra o ambiente ideal para desenvolver a sua actividade. A ligação ao mercado foi tão forte que a loja permaneceu, até ao fim, como um dos últimos testemunhos visíveis da vocação agrícola e abastecedora daquela zona da cidade.

Desde cedo, a empresa distinguiu-se pela importação directa de sementes provenientes da Holanda, França e Estados Unidos, pela venda por correspondência e pela preocupação com a selecção dos produtos comercializados. 

Num folheto publicado cerca de 1945, a firma afirmava possuir terrenos próprios para ensaio e cultura de sementes na Quinta do Pinhal Verde, em Caneças, onde experimentava variedades nacionais e estrangeiras antes de as colocar à venda. Apresentava-se, assim, não apenas como uma loja, mas como uma verdadeira casa especializada em horticultura.

A marca “Hortelão” tornou-se a sua imagem de referência. Primeiro representada por um hortelão masculino, símbolo do agricultor e do trabalho da terra, passou mais tarde a ser acompanhada por uma figura feminina carregando uma cesta de flores, frutos e hortaliças. 

Ambas as personagens vieram a figurar nos célebres painéis decorativos da fachada, executados sobre vidro e durante décadas um dos elementos mais emblemáticos da loja. Já bastante degradados nos últimos anos de funcionamento, constituíam um raro exemplo da publicidade comercial tradicional que outrora caracterizava a Baixa de Lisboa.

Embora continuasse a servir horticultores e pequenos agricultores, a Soares & Rebelo adaptou-se aos tempos. Em finais da década de 1990, uma parte significativa das vendas era feita por correspondência, incluindo numerosas encomendas enviadas para os países africanos de língua portuguesa. Comércio discreto que conservava uma rede de clientes espalhada muito para além da Baixa.

Quando encerrou portas, em 2022, desapareceu uma das últimas ligações físicas à antiga Praça da Figueira das bancas, das hortas e dos vendedores que durante séculos abasteceram Lisboa.


Marina Tavares Dias 


A loja em 2005

A loja em 1945


O hortelão, 
primeiro símbolo da casa


A vendedeira,
publicidade célebre 
da década de 50







sábado, 13 de junho de 2026

ACHILLES: O FOTÓGRAFO DAS CRIANÇAS DE LISBOA

Durante mais de meio século, o nome de Achilles (Aquiles Friscioni) foi familiar para todos os moradores da Avenida Almirante Reis. Antigo empregado da célebre Photographia Camacho (instalada no edifício dos Grandes Armazéns do Chiado), abriu estabelecimento próprio em 1898, precisamente o ano da morte de João Francisco Camacho. Nos primeiros cartões do novo atelier fazia questão de anunciar essa origem profissional, apresentando-se como «Empregado da Photographia Camacho», uma referência que o público reconhecia de imediato. Era o especialista em retratos infantis do estúdio, e fotografou toda uma geração de crianças lisboetas, incluindo Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.


Aquiles esperava suceder ao fundador da casa Camacho. A morte deste, em Setembro de 1898, levou porém a que o negócio permanecesse na esfera familiar, embora o filho tivesse já outro estúdio profissional. A sua oferta pelo trespasse do atelier do Chiado foi recusada, e Aquiles estabeleceu-se por conta própria. Recuperou a carteira de clientes que o conheciam e o  êxito do estabelecimento foi muito rápido.

A morada da Rua dos Anjos, n.º 36, (no núcleo urbano do Largo do Intendente Pina Manique) tornou-se ponto de encontro para todos os habitantes de Lisboa oriental. Em 1903, a Photographia Achilles expandiu-se para a loja com o número 7 do largo. Era um edifício de grande visibilidade, cuja fachada ostentava enormes inscrições publicitárias anunciando retratos, ampliações e processos fotográficos modernos.

O local não foi escolhido por acaso. O Intendente era o eixo de saída de Lisboa pela Rua dos Anjos e as estradas de Arroios e de Sacavém. Zona muito movimentada da cidade, mantinha também uma ligação histórica ao ensino secundário lisboeta. No antigo Palácio do Intendente funcionava o Liceu Central de Lisboa, antecessor do actual Liceu Passos Manuel. Aquiles tornou-se conhecido como o fotógrafo dos estudantes, numa época em que os alunos dos liceus ainda usavam capa e batina. Muitos dos seus clichés mostram rapazes de capa, retratos de fim de curso e jovens que procuravam assinalar fotograficamente uma etapa importante da vida escolar.

A maior especialidade da casa eram os retratos de crianças. Aquiles parecia possuir um raro talento para as fotografar. Numa época em que as exposições ainda exigiam paciência e imobilidade, conseguiu conquistar a confiança das famílias lisboetas. 

Os álbuns da minha família, residente na Avenida desde a segunda década do século XX, mostram bebés, crianças pequenas, primeiras comunhões, retratos escolares e adolescentes, acompanhando os mesmos clientes ao longo de muitos anos. Mais do que um fotógrafo ocasional, Aquiles é, neles, um cronista da infância lisboeta. Em 1907, o atelier passou para a Avenida Rainha D. Amélia, mais tarde Avenida Almirante Reis, n.º 1-E, onde continuou a funcionar durante sete décadas. Na nova morada, passou a revelar rolos fotográficos alheios, a  fazer ampliações e reproduzir retratos para sucessivas gerações de clientes. O nome do fundador tornou-se marca da cidade. As amplicópias e ampliações, mate ou esmaltadas, dos negativos da kodak da família trazem também esse carimbo: Achilles, Avenida Almirante Reis.

Todos os meus tios passaram pela objectiva de Aquiles. A  primeira fotografia do meu pai, ainda bebé, foi ali feita. Gerações de de bebés, crianças de laço, meninos vestidos à maruja, estudantes de viola e jovens sorridentes. São dezenas de imagens espalhadas por várias décadas, testemunhando uma fidelidade que não era exclusiva da nossa família. A minha avó resumia tudo numa frase simples que repetia todos os anos, quando se aproximava o mês de Outubro: «Vão começar as aulas, têm de ir ao Achilles.»

Hoje, poucos se lembram dos ‘fotógrafos de crianças’. O local onde Achilles trabalhou continua a existir. A zona envidraçada da actual Cervejaria Ramiro ocupa o espaço do antigo atelier de ‘luz natural’, na Avenida Almirante Reis. O arquivo fotográfico camarário é mesmo ali ao pé, mas as teses conhecidas põem o Achilles como fotógrafo pouco importante e desaparecido na década de 1930. Ainda tirei lá o meu ‘retrato infantil’ antes de, em 1970, passarmos todos para a Foto-Esmalte Lisbonense, algumas portas mais acima. Olho para o velho estúdio sempre que desço a pé a nossa Avenida. Fotografo-o muitas vezes. Onde agora se guardam mariscos, entrava a claridade ideal para fotografar crianças e estudantes. Foi ali que ficaram registadas as memórias de milhares de famílias lisboetas.


Marina Tavares Dias






sábado, 6 de junho de 2026

 

Este raríssimo postal ilustrado documenta a transferência da histórica camisaria de Avelino de Magalhães Pitta para a Rua Augusta. 'O Pitta' sempre foi uma referência da elegância lisboeta, e este documento revela mais sobre a sua história que as actuais informações hoje online, fontes de repetição sem verificação documental.

A camisaria foi fundada em 1885, na Rua de São Julião, por Avelino de Magalhães Pitta, comerciante lisboeta cujo nome surge frequentemente abreviado como A. M. Pitta. Sei que era filho de José Rodrigues Pitta e de Josefa Maria de Magalhães,e a sua figura permaneceu durante décadas simbolicamente presente na loja, através de um retrato emoldurado, mesmo quando já poucos conheciam a sua identidade completa.

Em 1902, Avelino de Magalhães Pitta surge como solicitando obras no edifício da Rua Augusta, data que coincide com a mudança da camisaria para a morada que a tornaria célebre. A fachada representada neste postal — ainda nova, cuidadosamente preparada para a fotografia promocional — exibe a designação «CAMISEIRO» em destaque, com o apelido PITTA funcionando quase como assinatura de qualidade. O enquadramento frontal, as montras meticulosamente organizadas e a figura colocada à entrada revelam claramente uma imagem concebida para anunciar a nova instalação da firma aos seus clientes.

Nos últimos anos da Monarquia Constitucional, a casa consolidou reputação de excelência no vestuário masculino como fornecedora do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Integrava o restrito círculo de estabelecimentos associados à elegância da corte lisboeta, e a ligação à Família Real tornou-se uma das marcas da sua identidade.

Tudo o que hoje se lê on-line repete as mesmas informações, muitas vezes com datas contraditórias e erros que foram sendo copiados de texto para texto. A cronologia da mudança para a Rua Augusta aparece frequentemente deturpada por sucessivos «copy-paste», fenómeno agravado pelo desaparecimento do arquivo histórico da empresa (estava depositado num cofre do Chiado e ardeu em 1988), pela perda da memória familiar e e pelo trespasse da casa, em 1977 (para um antigo empregado). 

Depois de mais de 130 anos de actividade, a histórica camisaria encerrou definitivamente em 31 de Maio de 2018. Nem a integração no programa municipal das Lojas com História conseguiu evitar o desaparecimento da casa, considerada por muitos a mais antiga camisaria da Península Ibérica. A fachada histórica da Rua Augusta foi preservada, mas o interior perdeu a função que lhe dera fama durante mais de um século.

O Pitta Camiseiro chegou também ao cinema português. Em 'O Costa do Castelo' (de Arthur Duarte, 1943), num diálogo frequentemente citado de forma errada, António Silva, ao tocar no tecido de uma camisa de seda, exclama simplesmente:

«Isto é Pitta!»

A frase bastava para o público compreender imediatamente a referência. Numa Lisboa onde o nome da camisaria era sinónimo de qualidade, não era necessária qualquer explicação adicional.





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sábado, 30 de maio de 2026

SANTO ANTÓNIO DOS CAPUCHOS

 No topo da colina de Santana, o Hospital de Santo António dos Capuchos nasceu já no século XIX, sobre o antigo convento. A transformação começou com o Asilo da Mendicidade de 1836, criado por D. Maria II, evoluindo gradualmente para estas funções hospitalares.

Como unidade de saúde, foi em 1928 integrado no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Antes disso, tinha funções assistenciais mistas: asilo, recolhimento, enfermarias para pobres, apoio social, etc. Em suma, um modelo muito oitocentista. A origem improvisada e adaptativa explicará, talvez, as críticas de muitos médicos: o conjunto nunca foi pensado de raiz como hospital moderno. Foi sendo adaptado: antigas celas tornadas gabinetes; corredores conventuais convertidos em circulação hospitalar; claustros fechados; enfermarias encaixadas em estruturas antigas; problemas permanentes de ventilação, acessos e infraestruturas técnicas.

Para a medicina contemporânea, com blocos operatórios, imagiologia pesada, circuitos estéreis, evacuação rápida, UTIs modernas, tudo é extremamente difícil de adaptar. Quem o critica vê-o como conjunto “romântico mas impraticável”.

Arquitectonicamente, em atmosfera, é dos sítios mais extraordinários de Lisboa. Tem algo que quase desapareceu na cidade: a sensação de continuidade histórica real. Caminha-se aqui entre camadas de convento franciscano, hospital oitocentista, azulejos barrocos, enfermarias republicanas e corredores do Estado Novo, tudo ao mesmo tempo.

Muitos hospitais modernos serão mais eficientes. Mas não têm esta densidade humana e histórica. Em Roma, Nápoles, Sevilha há locais com a mesma tensão entre património e funcionalidade. Os Capuchos pertencem a essa vasta família europeia. Com a actual tendência portuguesa para destruição dos locais com história, teme-se o pior para o seu futuro.






Fotografias de Marina Tavares Dias

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A FADISTA MARIA VICTORIA

 Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.

Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.

Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.

Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.

Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.

A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia. 

Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.

Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.

O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.

Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.

A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa. 

Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

O INESQUECÍVEL ACTOR TABORDA

 O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.

Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.

Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil. 

O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.

Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.

Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.

Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.





domingo, 3 de maio de 2026

A LISBOA DE EMILIO BIEL

 Estas duas imagens — Avenida da Liberdade (N.º 82) e Praça de D. Pedro IV (N.º 72) — pertencem a um momento muito preciso da fotografia portuguesa: a maturidade da casa de Emílio Biel, na viragem do século XIX para o século XX. São a parte mais rara (Lisboa em estereoscopia) do seu sistema de produção de imagens com numeração, legenda e marca editorial.

Emílio Biel, alemão de origem, instala-se no Porto na década de 1860 e, a partir de 1874, ao adquirir a antiga Fotografia Fritz, transforma-se numa verdadeira fábrica de produção de imagens. O estúdio deixa de ser apenas espaço de retratos e passa a funcionar como oficina múltipla: fotografia de vistas, documentação industrial, edição e circulação. A marca “Emílio Biel & C.ª – Porto”, impressa lateralmente, é o selo dessa organização.

As fotografias mostram Lisboa num tempo de transição. A Avenida da Liberdade, aberta anos antes, ainda tem o carácter ajardinado, com árvores jovens, bancos alinhados e circulação pedonal tranquila. A presença da água, do gradeamento e das alamedas revela um espaço a afirmar-se como ‘boulevard’ moderno. O Rossio é um palco urbano. O quiosque com publicidade visível e a circulação de figuras mostram uma cidade viva mas ainda longe da densidade do século XX.

Tecnicamente, são provas fotográficas (albumina) montadas em cartão, com legenda tipográfica. Não são fototipias de álbum de grande circulação, mas também não seriam provas únicas: pertencem a série numerada, provavelmente vendida em livrarias e tabacarias. A numeração (72, 82) sugere um conjunto mais vasto, hoje apenas parcialmente conhecido, onde Biel organizava o território (Porto, Lisboa, outras cidades e paisagens) como reportório visual coerente.

Ao contrário de muitos fotógrafos contemporâneos, Emílio Biel trabalhava com lógica quase industrial: as mesmas chapas podiamm dar origem a diferentes formatos (prova montada, reprodução em álbum, fototipia ou imagem estereoscópica). Essa circulação de matrizes explica a consistência visual e a repetição de certos enquadramentos.

A datas do ‘clichés’ originais estarão entre 1890 e 1900. Já a Lisboa moderna, mas ainda com ritmos oitocentistas. São mais que documentos: constituem fragmentos de um projecto maior, que era fixar visualmente o país todo, em vários tipos de suporte fotográfico. Nesse sentido, são igualmente reflexo do trabalho do próprio fotógrafo, que organizou e difundiu a imagem de Portugal como quem constrói um arquivo para o futuro.





domingo, 8 de março de 2026

A BAIXA QUE CONHECI por MARINA TAVARES DIAS

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.








terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

LISBOA NO CAIS

Marina Tavares Dias em 'Os Melhores Postais Antigos de Lisboa':

Paulo Guedes, editor deste exemplar - e, quase por certo, autor da própria fotografia - não foi o mais prolixo, entre inúmeros congéneres que inundaram de postais quiosques e tabacarias da Lisboa 1900. Mas foi o mais imaginativo. 

Quase sempre, por trás de cada escolha sobre postal, adivinha-se a sensibilidade do fotógrafo atento que conhecia a cidade de cor. Esta cena no cais da Ribeira Nova é o melhor exemplo disso. Pertence a uma série sobre costumes portugueses em geral, mas parece que, de algum modo, fazia parte da célebre colecção Lisboa na Rua (com 16 números conhecidos), e ficou de fora por misteriosas razões. 

Nenhum tema da citada colecção ilustraria, como este, tal legenda: Lisboa na rua ou no cais; o povo, os costumes, as cenas quotidianas e a sua assistência. Conhecida por «postal do burrinho", aqui está uma edição que reúne tudo: bom plano, animação, figuração de transportes (no caso, a fragata); tudo sem pose, com o seu aspecto de sempre. Acrescente-se-lhe o insólito com que a cena hoje se nos afigura - e teremos, neste burro, uma representação de Lisboa, tão digna como a imagem de qualquer varina ou galego aguadeiro.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O ELEVADOR DA ESTRELA

Subindo duas calçadas íngremes - a da Estrela e a do Combro - este era um dos elevadores mais procurados de Lisboa. Percorria grande parte do trajecto da posterior, e hoje tradicional, carreira de eléctrico número 28. Movido a acetileno, o Elevador da Estrela não sobreviveu ao desuso desse combustível, logo na segunda década do século XX. 

Note-se a total ausência de fios eléctricos sobre os carris, assim como a configuração da pequena locomotiva aberta. No entanto, o seu atrelado sugere, já, um futuro carro eléctrico no mesmo percurso. Entre os vários editores de postais lisboetas de 1900, apenas Faustino Martins parece ter conferido grande interesse turístico aos transportes sobre carris. É o único a dedicar-lhes três edições com fotografias em que estes aparecem num grande plano. Além do Elevador da Estrela, publicou ainda imagens de eléctricos abertos, com um ou dois trolleys. A par de «O Carro do Jorge» (edição Malva & Roque), constituem temática privilegiada entre todos os postais lisboetas. De outras cidades - Porto, Coimbra, etc. - não se conhecem verdadeiros grandes planos de eléctricos sobre postal antigo, ou exemplares cuja legenda refira apenas estes meios de transporte.