quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

 PRAÇA DA FIGUEIRA


Marina Tavares Dias em «Os Melhores Postais de Lisboa», 1995:

Lembrando os "halles" de Paris, as longas galerias de ferro da Praça da Figueira multiplicavam-se em bancas diversas, áreas especializadas, aromas do campo e do mar. Flores, legumes, carnes, peixes, pequenas inutilidades. Muitos lenços brancos, xailes pretos, muitos vestidos pobres, muitos pregões, regateares, elogios e descomposturas.

Não deixa de ser simbólico que a mais antiga representação do mercado sobre postal ilustrado seja, afinal, uma imagem do interior. Porque era cá dentro que se justificava todo um modo de vida. Era cá dentro que se reuniam Lisboa e os arredores, como se consumava o destino da boa criação musculada no campo para ir morrer nas abastadas cozinhas dos bairros residenciais.

Depois deste, apenas outro postal - já em fototipia - reproduziria uma imagem das galerias. No entanto, a opção pela parte mais animada do dia, o pormenor e retoque de cada presença, a alegria traçada no calor das cores, favorecem em muito esta edição. Veracidade e sortilégio da fotografia: quase podemos assegurar que - por uma vez - deles prescindimos de bom grado.




sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

A FEIRA DA LADRA EM POSTAIS



Marina Tavares Dias em «Os Melhores Postais de Lisboa»:

Não é o mais raro postal da Feira da Ladra, mas é, sem dúvida, o mais apelativo. Mostra a zona compreendida entre o Arco de S. Vicente e o Mercado de Santa Clara, onde ainda hoje se reúnem feirantes. As bancas especializavam-se, sobretudo, em móveis e livros usados. Também não é de crer que o jovem que posa, quase ao centro da imagem, estivesse munido de cartão de estudante. Esta é a Feira tradicional, à margem de burocracias. Apesar dos eventuais objectos roubados, era um lugar pacato, onde quase todos se conheciam.





domingo, 6 de outubro de 2024

COLUNAS AO CONTRÁRIO

NA RUA DA MOURARIA

O Colégio dos Meninos Órfãos foi construído em 1273, por iniciativa da Rainha D. Brites, mulher de D. Afonso III. Muito mais tarde, no século XVI, esteve sob protecção de D. Leonor, mulher de D. João III. Dessa data serão estas colunas posteriormente derrubadas pelo terramoto de 1755.
Quando o portal foi reconstruído, as colunas foram colocadas ao contrário: as bases em cima e os capitéis em baixo.
Assim podem ainda ver-se, no edifício que albergou a esquadra da Mouraria.




segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Carro eléctrico da Carris de Ferro


Carro #eléctrico aberto, no Largo de D. #Estefânia, na década de 1990.

O regresso fez-se como aquisição para o Museu da Carris.


A HISTÓRIA DO ELÉCTRICO DA #CARRIS (edição oficial do centenário)
#livro de


Marina Tavares Dias







sexta-feira, 25 de agosto de 2023

RECORDAR O CHiADO

 

No dia 25 de Agosto de 1988, o Chiado ardeu em parte, tendo perdido para sempre grande parte das suas loja históricas.


No Diário de Lisboa, Marina Tavares Dias iniciou uma série de reportagens em defesa da reconstrução, de acordo com a traça original dos edifícios e com a recuperação das lojas. Para tal, foi lançado um abaixo-assinado para entregar ao então Presidente da República, Mário Soares.


Apesar da reconstrução ter sido feita com respeito pelo traçado pombalino das casas, o plano de conjunto não podia incluir o destino final de cada edifício. As lojas (Eduardo Martins, Casa Batalha, Pastelaria Ferrari, Perfumaria da Moda, Casa José Alexandre, Grandes Armazéns do Chiado, Armazéns Grandella, etc.) não voltaram ao Chiado.




Interior dos Grandes Armazéns do Chiado
(Marina Tavares Dias, 1985)


segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A Ribeira de Sacavém (Rio Trancão)

   




No início do século XX, pescava-se aqui em barquinhos como este, velejando por recreio. Sacavém e Camarate, adornadas de vastas quintas, faziam bom destino para férias fora de portas, mesmo após o início da urbanização do outro arrabalde que, até então, com este rivalizara: Benfica (Bemfica).

A partir da década de 1940, as descargas poluentes quase mataram o rio. Hoje já não se pesca nem navega, mas pode de novo respirar-se nas suas margens. Embora Sacavém permaneça designação clássica, o rio deve nome oficial a Afonso Trancão, proprietário de salinas e de quintas que atravessava no século XIII. Ou seja, praticamente cem anos após D. Afonso Henriques ter travado, nestas margens, o primeiro combate com vista à futura entrada vitoriosa em Lisboa.

Finalmente, neste ano de 2013, as câmaras municipais de Lisboa e de Loures contribuíram para o projecto de recuperação da Ribeira de Sacavém, que pode finamente ser visitada e apreciada como o era há mais de um século.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Lisboa sem Avenida Almirante Reis

 


Vista da colina de São Gens (Nossa Senhora do Monte) sobre o Desterro e o Intendente, antes da existência da Avenida Almirante Reis. Vista estereoscópica do século  XIX (c. 1870). Ao centro, o local para onde seria depois mudado o Chafariz do Intendente. Em cima, à esquerda, a



Praça de Touros do Campo de Santana, no local onde viria a ser construída a Escola Médica. À direita o Hospital do Desterro, fronteiro à fonte para onde viria a ser deslocado Chafariz do Intendente.

sábado, 22 de outubro de 2022

A TORROAES DA RUA DA PRATA

 Fundada em 1909, no número 123 da Rua da Prata, a Ourivesaria e Relojoaria Torroaes era a obra sonhada de António de Sousa Torroaes. Aos 33 anos de idade, aventurou-se sozinho no ramo. Formado na prática do ofício, trabalhara desde os 13 em relojoaria, fazendo aprendizagem durante quase duas décadas na prestigiada Casa Angulo (da família Angulo e também na Rua da Prata). 

Em 1921, já com o negócio em expansão, instalou no número 119 uma oficina independente de relojoaria e criou secções independentes de ourivesaria e de pratas. António de Sousa Torroaes não chegou a assistir ao apogeu da empresa: morreu em 1928, deixando a casa ao filho, Raul de Sousa Torroaes.

Sob a direcção deste, a firma continuou a expandir-se. Em 1930, a oficina foi transferida para novas dependências no mesmo edifício e em 1936 fixou-se definitivamente no terceiro andar do número 133 da Rua da Prata. Três anos mais tarde (1939) foram inauguradas novas instalações comerciais dos números 127 a 131, que, juntamente com o 123, formavam um vasto conjunto dedicado à relojoaria, ourivesaria, pratas e joalharia. 

A fachada, de três característicos (inicialmente, eram cinco) letreiros vermelhos, arqueados, em bandeira de porta, com as palavras «Relojoaria», «Torroaes» e «Ourivesaria», transformou-se numa das imagens mais reconhecíveis da Rua da Prata. A casa era frequentemente incluída no chamado 'Livro de Our do Comércio' como uma das mais prestigiadas relojoarias portuguesas. À semelhança de algumas (poucas) congéneres, comecializava marca própria de relógios, a Torris Watch.

A 17 de Dezembro de 1976 foi constituída a sociedade Relojoaria e Ourivesaria Torroaes, Lda. ('Diário da República'), ainda instalada na mesma morada. A data do encerramento nunca foi oficializada. Fechou portas no final da década de 1980, mantendo a indicação de que reabriria, até ser declarada falência da firma, no princípio dos anos 90. Durante muito tempo, já sem actividade, a antiga fachada permaneceu abandonada e degradada, conservando ainda os seus antigos letreiros vermelhos sobre as portas, sobreviventes como um dos últimos vestígios da velha Baixa comercial. Oedifício acabou por ser ‘recuperado’, desaparecendo também essa memória. Durante quase um século, a Torreaes foi uma das mais importantes casas de relojoaria e ourivesaria de Lisboa.

O primo do fundador, Fernando de Sousa Torroaes, abriu em 1918 (com Felizardo Augusto Abranches) a Ourivesaria e Relojoaria F. de Sousa Torroaes, na Rua de São Paulo número 106 (firma Sousa & Abranches, Lda.). Também esta última acabou abandonada, com a fachada em ruínas durante anos, perante a indiferença de quem passava.


Marina Tavares Dias 




domingo, 12 de junho de 2022

A Expo de 1940

MARINA TAVARES DIAS

BELÉM 

E A 

EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS


Mapa desdobrável vendido na época e publicado no IV volume
de Lisboa Desaparecida 
de Marina Tavares Dias



*pequeno fragmento do texto
 [...] A Exposição do Mundo Português será a coroa de glória das opções assumidas por [António] Ferro e apenas esboçadas anos antes, quer na Exposição Industrial do Porto quer na Internacional de Paris, em 1937, onde o pavilhão concebido pelo jovem arquitecto Keil do Amaral rompia com tudo aquilo que, até então, Portugal apresentara ao estrangeiro. 

 No guia da Exposição do Mundo Português, o comissário Augusto de Castro escreve: "Sendo um olhar lançado sobre o passado, [a exposição] não terá um carácter exclusivamente erudito - e muito menos arqueológico. Deverá ser, ao contrário, uma lição de energia, uma perspectiva do génio português através de todos os estímulos de grandeza, um balanço de forças espirituais." [...]

 [...] Outros panfletos salientam tratar-se da primeira grande exposição histórica do Mundo. Esse mesmo mundo agora - historicamente - em guerra, ajudando a gerar, à volta desta paz sacralizante e sacralizada, o ambiente de um paraíso do absurdo.

sábado, 11 de junho de 2022

OS VENCIDOS DA VIDA

 Marina Tavares Dias 

em A LISBOA DE EÇA DE QUEIROZ:


Os Vencidos da Vida (com excepção de António Cândido) fotografados por Augusto Bobone em 1889, no jardim da casa do conde de Arnoso, na Rua de S. Domingos à Lapa: marquês de Soveral (Luiz Pinto de Soveral, 1850-1922), Carlos Lima Mayer (1846-1910), conde de Sabugosa (António José de Mello Cezar de Menezes, 1854-1923), Oliveira Martins (1846-1894), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), Eça (1845-1900), Ramalho Ortigão (1836-1915), Guerra Junqueiro (1850-1923), conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Mello, 1855-1911) e conde de Ficalho (Francisco Manoel de Mello Breyner, 1837-1903)

«Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa... deu-nos a nós – que diabo!»
- Eça de Queiroz em carta a Ramalho Ortigão, 20 de Julho de 1873.
Acompanhe-os. No livro ou aqui:





Várias peças originais, com a fotografia, em alta resolução,
dos Vencidos da Vida. À venda em: 
https://www.redbubble.com/people/MTD-Archives/shop