segunda-feira, 28 de abril de 2014

OS GALEGOS

Em 1800, os galegos imigrados em Portugal são já perto de 80 mil. Ao longo dos 100 anos seguintes, dedicar-se-ão sobretudo à venda ambulante de água pelas ruas de Lisboa. Estão por todo o lado: entre o Rossio e a Arcada do Terreiro do Paço, entre os ministérios e o cais, à porta dos armazéns, à esquina das ruas da Baixa, aos montes no Chiado, onde havia um largo conhecido por "Ilha dos Galegos". 

Só aguadeiros, em Lisboa, são 3.454 por volta de 1830. Mas servem ainda para levar a trazer recados, para entregar encomendas ou fazer mudanças de casa. Dois galegos e uma corda podiam transportar quase toda a mobília de uma sala, dizia-se então. 

E dizia-se também que um amor sem galego era um amor sem pés. Que seria dos namorados sem este distribuidor de bilhetes amorosos, num tempo em que quase todos os romances tinham de 
esconder-se da ira paterna?




quinta-feira, 24 de abril de 2014

O 25 de Abril do José Antunes

Já ouvi e li esta fotografia atribuída a mais de dez pessoas.
Quem morreu não se defende; mas quem a tirou, num ano em que eu ainda andava nos bancos da escola, foi o meu futuro colega do 'Diário Popular', o grande fotógrafo da sua geração: José Antunes.

E sim, vi o negativo, e a sequência toda. Não é no Carmo. É à porta do elegante Paris em Lisboa, no Chiado. Após eventual fuga de agentes da PIDE, vindos da António Maria Cardoso. Havia uns 40 fotógrafos neste sítio. Mas esta fotografia específica, que se transformou num dos logótipos do 25 de Abril, é do JOSÉ ANTUNES.

Através dela aproveito para homenagear aquela geração de repórteres de mão-cheia, que apanhei no apogeu da carreira quando, aos 18 anos, comecei a escrever e a publicar.
Saudades vossas. Saudades de Abril, também.

Saudosista, eu? - Nem por isso. Sempre escrevi sobre a História da cidade. Nada que tivesse visto. Nada que tivesse sido meu.
Mas de vós, sim, tenho saudades. Do tempo em que ser jornalista era partir em busca da notícia. Aprendi tudo convosco. Os que vieram depois não sabem o que perderam.'

MARINA TAVARES DIAS


Esta prova fotográfica específica
foi impressa por José Antunes 
em grande formato e oferecida
à Direcção Geral da Comunicação Social.
Durante anos, o fundador 
da Fototeca do Palácio Foz,
Avelino Soares, 
teve-a em destaque, à entrada
deste precioso arquivo fotográfico 
(extinto quando Carrilho foi ministro da Cultura)

sábado, 5 de abril de 2014

O HOSPITAL OFERECIDO PELA RAINHA À CIDADE





Stéphanie (técnica mista; Arquivo Marina Tavares Dias)



«D. Estefânia, calma e breve, foi uma das rainhas mais queridas pelos lisboetas do seu tempo. A sua sombra estende o nome por todo um bairro da capital, construído à volta do hospital pediátrico com que sonhou.

[...]No ano em que D. Estefânia chegou a Lisboa (1858), os terrenos onde seria construído o hospital pertenciam à velha Quinta da Bemposta [...]. A sua ideia de prover a cidade de um hospital pediátrico foi rapidamente acarinhada pelo marido, D. Pedro V, que pediu ao Príncipe Alberto, marido da Rainha Vitória, que lhe enviasse um plano traçado por arquitectos ingleses e que correspondesse ao que de mais moderno se construía na Europa desse tempo. Mortos prematuramente D. Estefânia e D. Pedro V, foi já no reinado do irmão deste último, D. Luís, (a 17 de Julho de 1877) que decorreu a inauguração.» [...] (continua no livro)

MARINA TAVARES DIAS
LISBOA DESAPARECIDA,
capítulo: 
«D. Estefânia: 
uma Rainha, 
um hospital, 
um bairro» (2001)


terça-feira, 1 de abril de 2014

By the seaside, Tejo adiante.

Histórias à beira-Tejo plantadas, para turista ler:

http://lostlisbonportugal.blogspot.pt/2014/04/by-seaside.html

Ou seja: Lisboa desde a moda da pele assustada pelo Sol
aos tempos do bronzeado.
De Pedrouços até Cascais.






segunda-feira, 31 de março de 2014

CHIADO ABAIXO




...numa manhã do Outono de 1912, duas costureiras dos elegantes armazéns trazem consigo a merenda da tarde. Vestem de acordo com o figurino importado, mas o tecido é, provavelmente, dos saldos do Grandella: fim de peça e fim de estação. O fotógrafo Benoliel retratou dezenas de costureirinhas para reportagens da "Illustração Portugueza" sobre os novos hábitos da mulher trabalhadora a "viver fora de casa". Na foto, à esquerda, a montra da casa Ao Último Figurino (mais tarde, Novo Figurino), fundada em 1910. Mais acima, a loja de ferragens Shefield House e um salão de chá, onde mais tarde se instalaria A Pompadour.

Em MARINA TAVARES DIAS
PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA

sábado, 29 de março de 2014

A FEIRA DAS VERDADES

"QUEM NÃO VIU,
uma vez sequer, a Feira da Ladra, não imagina quanta vitalidade se contém na morte!" - assim escreveu Júlio de Castilho. A origem poderá ser tão antiga como a conquista de Lisboa, e a designação Feira da Ladra aparece pela primeira vez numa postura de 1610. Mas a feira que ainda se realiza, todas as terças-feiras e todos os sábados, no Campo de Santa Clara, está aqui apenas desde 1882. Antes disso esteve no Campo de Santana, na Praça da Alegria de Cima, no Rossio e perto do Castelo de S. Jorge.
[...]

MARINA TAVARES DIAS


em


PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA


Na década de 1960

sexta-feira, 28 de março de 2014

Um "estylo digno de uma cidade civilizada"





EX-LIBRIS de uma época, o Prémio Valmor foi instituído, por disposição testamentária do 2º visconde deValmor, em 1898. Distinguir-se-ia, todos os anos, a melhor "casa" ou "prédio" cujo estilo arquitectónico fosse "Classico Grego ou Romano, Romano Gotico ou de Renascença ou algum typo artistico Portuguez enfim um estylo digno de uma cidade civilizada". Em 1909, este edifício concebido por Adolpho Antonio Marques da Silva (colaborador de Ventura Terra) recebeu uma das menções honrosas. Ocupava o número 72 da Av. Duque de Loulé e desapareceu em 1965 [...]

MARINA TAVARES DIAS
em
PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA

quinta-feira, 27 de março de 2014

A DEMOLIÇÃO DA MOURARIA

Marina Tavares Dias

Lisboa nos Anos 40 | Longe da Guerra
Capítulo III

À medida que iam crescendo edifícios e arruamentos nas novas áreas urbanas a norte da Avenida Almirante Reis ia desaparecendo, a sul, a velha Mouraria. A degradação das casas mais antigas justificava, aos olhos do poder, uma devastação completa: “arrancar o mal pela raiz”. Semana após semana, tombavam por terra algumas referências alfacinhas, como a Ourivesaria da Guia, o Palácio do Marquês de Alegrete ou a Igreja do Socorro. Demolições que continuariam ainda pelas décadas de 50 e de 60, com o desaparecimento do Teatro Apolo e do último arco da cerca fernandina. Mas a Mouraria ocidental não morreu em vão: serviu como exemplo dos erros da demolição sem critério. Antes que o desaparecimento de outros bairros históricos fosse por diante, já tinham mudado os tempos, as vontades e as modas urbanísticas.

Rua e Arco do Marquês de Alegrete.
A Baixa Mouraria foi 
totalmente destruída entre 1946 e 1963.
Aguarela de Roque Gameiro (s/d)

terça-feira, 25 de março de 2014

BELÉM: A parte histórica demolida em 1939


fotografia de Eduardo Portugal, 1938


«[...] O processo do edifício número 138 da Rua de Belém não consta hoje de qualquer arquivo consultável. Em vão tentei localizá-lo, ao longo de meses, enquanto procedia à análise de todos os outros documentos referentes aos demolidos em 1939. Proprietários dos restantes prédios foram informados sobre indemnizações e prazos. Mesmo quando estes eram propriedade municipal, o respectivo processo inclui documentos referentes às lojas que albergavam. Porquê, então, esta misteriosa omissão do número 138?

Acontece que, confirmando aquilo que diziam as pessoas do bairro, a referida casa guardava, nos seus alicerces, ruínas históricas contemporâneas da antiga capela do Infante [D. Henrique; anterior à construção dos Jerónimos]. Quando as demolições do quarteirão começaram, rapidamente foram postas a descoberto as abóbadas.


Ordens superiores mandaram então suspender os trabalhos, permanecendo o pequeno edifício entre as ruínas dos seus vizinhos, enquanto se decidia o que fazer do achado. Nada transpareceu nos jornais, e a demolição acabou por consumar-se, pois já não havia tempo para alterar quaisquer planos [em relação à Exposição de 1940].»


MARINA TAVARES DIAS
in 
LISBOA DESAPARECIDA
capítulo sobre Belém

segunda-feira, 24 de março de 2014

A EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS

CINCO MESES, 3 MILHÕES DE VISITANTES




[...] Na sua área de 560 mil metros quadrados, a Exposição  do Mundo Português receberá 3 milhões de visitantes, de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940. Entre eles estarão alguns estrangeiros privilegiados – como o escritor Antoine de Saint-Exupéry – que podem viajar pela Europa em guerra. Assim como quase todos os intelectuais portugueses que se opõem ao regime. Jaime Cortesão é visto às compras nos stands de artesanato, seguido de perto por um agente da PIDE.
[...][...]
A memória da grande festa, principal legado da Exposição do Mundo Português aos lisboetas, vai-se extinguindo com as gerações que passam. O quotidiano voltou ao normal logo em 1940, à medida que se esvaziavam os primeiros pavilhões. Outros, apeados muito mais tarde, por ali ficariam, à mercê da chuva e do sol. [...] (continua)

MARINA TAVARES DIAS
Excerto de texto jornalístico